Retrato do artista de alma rebelde

Retrato do artista de alma rebelde

postado em 27/02/2018 00:00


Ator bissexto que já ameaçou deixar o cinema por várias vezes, o inglês Daniel Day-Lewis, aos 60 anos, está a dias do que pode ser um feito: com três prêmios Oscar na prateleira, pode chegar ao quarto, em pé de igualdade com a única detentora do mérito, a lendária Katharine Hepburn (morta em 2003). Quem se espantou com o talento do colega de cena em Trama fantasma, filme pelo qual Day-Lewis está indicado pela sexta vez ao Oscar, é Vicky Krieps que, pouco antes do primeiro encontro, no set do longa de Paul Thomas Anderson, se deu conta: ;Ele já não era o Daniel. Foi bem intenso;. Cortar, moldar e costurar fizeram parte do aprendizado do inglês que, em Trama fantasma, interpreta um estilista obcecado, tão aficionado quanto Day-Lewis que, para confirmar a sintonia com o personagem, confeccionou a cópia de um terno do celebrado espanhol Cristóbal Balenciaga.

Caracterizado como ator de ;extraordinária fúria;, na conceituada Enciclopédia do Filme, Day-Lewis é lembrado, no verbete reservado a ele, pela rebeldia de quem fugiu da escola, aos 13 anos. Admirador de atores como Montgomery Clift e Heath Ledger, o ator cultua mito de homem introvertido e intérprete aplicado e seletivo. É interessante daí pensar que tenha recusado papéis como o Jor-El de O Homem de aço e Vincent Vega, feito por John Travolta em Pulp Fiction. Day-Lewis que, nos anos 1980, estreou no circuito teatral do West End londrino se formou em conceituados centros como a Royal Shakespeare Company e a Bristol Old Vic Theatre School.

Nascido em 1957, Daniel é neto do produtor dos filmes de Alfred Hitchcock, além de ser filho do poeta Cecil Day-Lewis e da atriz Jill Balcon. Em casa, a rotina do ator se mistura com mais arte: ele é casado com a atriz e escritora Rebecca Miller, filha do dramaturgo Arthur Miller, que criou o roteiro adaptado para um dos seus filmes de maior sucesso, As bruxas de Salém (1996).

Sir talento

Naquela época, Day-Lewis já tinha sido consagrado com um Oscar, por Meu pé esquerdo (1989), em que interpretava um artista com paralisia cerebral. Um ano antes, com a adaptação de um texto de Milan Kundera, A insustentável leveza do ser (indicado ao Globo de Ouro) havia sido posto em evidência. Pouco antes, brilhara com destaque em Uma janela para o amor e Minha adorável lavanderia, respectivamente, de James Ivory e de Stephen Frears.

Comparado, por vezes, com astros ingleses do porte de Alec Guiness e Laurence Olivier, Day-Lewis é associado à compulsão de encarnar em tempo integral seus personagens. Foi assim com Lincoln, de Steven Spielberg, no qual fazia questão de ser chamado de ;Sr. Presidente; até mesmo pelo diretor. Reza a lenda que, nos bastidores de Gangues de Nova York (2003), ao viver Bill ;O Açogueiro; Cutting, ele afiava facas, no almoço da equipe, mantinha o sotaque e até se deixou adoecer, por se recusar a vestir casaco que não condizia com os modelos da época datada do século 19.

Tornar Day-Lewis ainda mais bonito foi o desafio inicial, e assumido, por Paul Thomas Anderson, em Trama fantasma. O filme pode então ser o ponto de virada do ator, disposto a largar a carreira e ;explorar o mundo de maneira diferente;, às voltas com a feitura de sapatos e na lida com esculturas em pedra, no meio rural de fazenda irlandesa. ;Eu e o diretor fomos oprimidos por um sentimento de tristeza, depois de muita diversão com a feitura de Trama fantasma. Algo que nos pegou desprevenidos: não tínhamos a noção do que tínhamos criado. Foi, e segue sendo, algo de difícil convivência;, já sentenciou, à imprensa estrangeira, o ator do longa. Seria um final digno para o astro de fitas como Em nome do pai, A época da inocência e O último dos moicanos?


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