Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 02/03/2018 00:00
Andar de cima e de baixo

Falar das relações entre o que acontece no andar de cima e o que ocorre no andar de baixo pode parecer algo muito abstrato. Mas, nesta semana, com o Rio de Janeiro sob intervenção, os fatos se encaixaram com uma clareza surpreendente. O ex-governador do Rio Sérgio Cabral ficou assustado: os doleiros que operavam para o seu esquema de roubalheiras devolveram US$ 100 milhões para os cofres públicos por determinação do Ministério Público Federal.

Ao ler a notícia, tive dúvida se havia me confundido ou se eu sofrera uma alucinação óptica. Mas é isso mesmo: os doleiros devolveram cerca de 300 milhões de reais, convertidos para a nossa moeda. É apenas um pequeno exemplo do esquema bilionário de saque aos cofres públicos, com as instituições do estado apropriadas como escritórios para arrecadação de propinas.

Os três últimos governadores do Rio de Janeiro estão presos. Eles quebraram, literalmente, a capital dos cariocas. Com os roubos que praticaram, desequilibraram as contas públicas, atrasaram salários dos servidores, precarizaram a educação, arrebentaram com a saúde, sucatearam a segurança e inviabilizam o esporte. Empurraram o Rio para o caos.

Em Brasília, os três últimos governadores respondem a ações na justiça. A situação do DF poderia ser pior. Torraram mais de R$ 1,5 bilhão no Mané Garrincha, fadado desde o início a ser um elefante branco, com o custo mensal de R$ 600 mil para a manutenção. Enquanto isso, o desinvestimento imperou em quase todas as áreas.

Em entrevista concedida à BBC, o ex-secretário de segurança do Rio, Hélio Luz, enfatizou as relações entre o andar de cima e o andar de baixo. Para ele, o verdadeiro bandido é o de colarinho branco. Não adianta o exército cercar as favelas, pois o problema reside em outro ponto. É impossível dissociar a violência da desigualdade social: ;São um produto da concentração de renda. E não venha me dizer que a Índia ou outros países com desigualdade não têm esse problema. Aqui é diferente, pô. O nosso nível de concentração de renda é muito alto e resulta nisso.;

Os atos inconstitucionais estão se normalizando, aponta Hélio Luz. A violação à lei está sendo admitida com muita tranquilidade. ;Qual é a referência que se dá ao infrator que está lá na ponta? Quando a infração é praticada pelo excluído, você chama o Exército. Quando é praticada pela classe média e pelos detentores do poder, nada. Se a lei é para ser cumprida na favela, é para ser cumprida por todo mundo. Ou a lei vale para todos ou não vale para ninguém;.

Apesar dos reparos, Hélio Luz entende que a intervenção pode ser positiva: ;Ele (o general) tem condição de recuperar as estruturas policiais e beneficiar o segmento que mais sofre com essa parafernália toda, o favelado, que é estigmatizado;.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação