Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 13/03/2018 00:00
Nuvem de andorinhas

Caro leitor, confesso que, cada vez que avisto uma andorinha em nosso território, encho-me de uma alegria malévola. Mas só revelarei o motivo no parágrafo final do texto. Já flagrei muitas em igrejas, residências, em prédios comerciais e no Píer 21, entre outros lugares. No entanto, nunca tinha me deparado com um bando tão grande quanto no final de semana.

Moro em um condomínio horizontal fronteiriço a uma mata cerrada. No sábado, começou a chover. Quando a chuva arrefeceu, resolvi fazer uma caminhada para respirar um ar puro, ar filtrado pelas matas.

Ouvi uns trinados de pássaro e, ao mirar para o alto, divisei uma nuvem de andorinhas a rodopiar no espaço. Era impressionante a coreografia, a concatenação, a sincronia, a elegância e o ritmo delas. Faziam evoluções no céu que botavam no chinelo as da Esquadrilha da Fumaça.

Formavam esquadrilhas, davam voos rasantes, riscavam o espaço de acrobacias, se deslocavam para longe, se reduziam a pontos negros minúsculos e depois retornavam com a mesma euforia. Sem a orientação de nenhum controlador de rotas não se esbarram nem colidem. Tentava não perder nenhum detalhe ou lance do espetáculo no meio da tarde, em busca do melhor ângulo de contemplação, mas com certo receio de levar um tombo, iminente naquela situação.

Permaneci de olhos grudados no espaço sideral por alguns minutos de puro êxtase com as manobras e a algaravia das andorinhas. Elas turbilhonavam no azul para celebrar a chuva ou talvez a simples alegria de voar.

E, agora, revelarei a causa de minha satisfação malévola. É que Brasília teve em Rubem Braga um inimigo obsessivo, insidioso e venenoso. O ilustre colega não perdia a oportunidade de destilar alguma maledicência contra a nova capital. Em outubro de 1961, Braga publicou, na revista Manchete, uma crônica intitulada Môscas e o teto azul da cozinha.

Lá pelas tantas, sem motivo razoável, Braga insinuou a seguinte maldade: ;Uma criança nascida em Brasília que não sair de lá morrerá sem ver andorinhas, triste sina;. Mais adiante, ele faz uma ressalva esclarecedora: ;Cuida o leitor que estou escrevendo bobagens, e é certo. Mas eu sei das bobagens minhas, elas têm um enredo íntimo;.

Apesar de a provocação datar do longevo ano de 1961, não pode ficar sem resposta, pois atenta contra a nossa, digamos, soberania lírica. Eu já havia avistado andorinhas em vários lugares da cidade. Mas essa nuvem de andorinhas lavou a nossa alma. Ainda bem, inefável Braga, que, sabiamente, você fez a ressalva de que talvez estivesse falando bobagem.

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