Entrevista/Fê Lemos

Entrevista/Fê Lemos

postado em 13/03/2018 00:00
 (foto: Reprodução/Internet)
(foto: Reprodução/Internet)
Os primeiros punks


Quando Fê Lemos voltou da Inglaterra, em 1978, com os discos de punk na bagagem, logo se juntou a Renato Russo no sonho de criar uma banda de rock em Brasília. O Aborto Elétrico durou pouco, mas não poderia ter dado tão certo. Abriu portas para diversas bandas, fundou o punk brasiliense e dele saíram Capital Inicial e Legião Urbana, que estouraram nacionalmente nos anos 1980. Em entrevista ao Correio, Fê lembra diversas passagens e detalhes daquele período, do início ao fim do grupo que mudou (e moldou) o rock brasiliense.



Como vocês se juntaram na banda? Você, Renato e André Pretorius...
Quando eu conheci o Renato, eu encontrei um cara que queria fazer uma banda de rock. E eu também queria tocar. A gente queria fazer uma banda, mas ela só se materializou quando o Renato conheceu o André Pretorius, porque o André tocava guitarra e também queria fazer uma banda. Então, a gente começou a ensaiar na Colina no fim de 1978.

A ideia e a gênese do Aborto vêm no fim de 1978, então...
Vêm exatamente do encontro desses três amigos. Foi no segundo semestre de 1978 que a gente teve a reunião em que decidimos pelo nome da banda e os primeiros ensaios também aconteceram no final de 1978.

Por que o punk conquistou vocês? E como a atitude do punk se relacionava com aquele período de ditadura e tudo mais?
No meu caso, era um jovem e ouvia rock progressivo antes, ouvia heavy metal, ouvia Beatles, (Rolling) Stones. Estava muito ligado a isso, mas quando eu ouvi punk pela primeira vez, eu fiquei em choque, porque era uma música tão simples e direta. Na primeira vez que eu ouvi Ramones, achei ruim, mas quis ouvir de novo e ouvi mais três vezes e aí já não estava mais achando ruim. Pelo contrário, estava sentido a urgência daquele rock e a ligação dele com aquilo que eu estava vivendo. Assim foi com o punk rock na Inglaterra. Eles tinham uma ligação com o tempo que a gente estava vivendo.

Essa urgência do punk tinha a ver também com o que vocês queriam dizer?
Sim. Aí as letras falavam sobre a vida daquele momento, eram coisas diretamente relacionadas com a sua vida. Diferente do que ouvia antes, que eram letras com coisas esotéricas ou sobre assuntos que você não entendia diretamente. O punk falava mais diretamente a mim. Em Brasília, quando o Renato começa a cantar, em 1980, as letras dele também são urgentes, são sobre a cidade, sobre o contexto político e social. A gente conseguiu, com o Aborto, criar uma banda com som punk, original, inspirada naquelas, mas, com um texto que era brasileiro, aí vem o grande mérito do Renato. Além da crítica, havia questões existenciais, ditas de uma maneira que eu nunca tinha ouvido no rock brasileiro.

Fala-se muito das histórias da baquetada e da letra de Química como fatores para o fim da banda...
Aquilo era bobagem. Inclusive, a baquetada aconteceu no final dos anos 1980, bem antes do fim mesmo. E foi um evento menor na nossa história. Foi só uma briga entre amigos. Eu, claro, me arrependo muito até hoje, não acho que tenha que jogar nada em ninguém, não é por aí. Mas o Renato era um cara extremamente difícil. Nesse dia, em particular, ele sumiu e me deixou com o Flávio montando equipamento e depois ele apareceu com a tal oração para o John Lennon. Eu pensei: ;Que filho da mãe, podia ter falado com a gente;. Então, nessa história, eu também vi que o Renato tinha agenda própria. Mas, de novo, a baquetada não tem nada a ver com o fim da banda.

Com o último show no Centro Olímpico, em 1982, vocês definiram que não continuariam sem o Renato, de fato, e começaram um novo caminho...
Com esse show ficou claro que sem o Renato não existia Aborto, sem ele, que era o principal autor, o cara da voz, era uma banda sem carisma. O que cabia era começar uma nova banda, não parar, não desistir, mas tocar e criar um grupo novo e foi isso o que aconteceu. Quando a gente começa o Capital, não tem nada a ver com o Aborto. Já é algo mais funkeado, com guitarras limpas. O Capital começa a criar uma nova sonoridade que eu achava mais bacana. Então, não fica um peso por isso, mas claro que fica uma perda pelo fim do relacionamento diário com o Renato.

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