A consagração de Putin nas urnas

A consagração de Putin nas urnas

Presidente sai consagrado das urnas, reeleito com mais de 75% dos votos. No primeiro discurso, ele destaca que a vitória reflete %u201Ca esperança e a confiança%u201D da população. E rebate a acusação de envenenamento de ex-espião no Reino Unido: "lixo"

postado em 19/03/2018 00:00
 (foto: Yuri Kadobnov/AFP)
(foto: Yuri Kadobnov/AFP)

Passava pouco das 23h de ontem (17h de Brasília) quando Vladimir Putin surgiu no palanque montado nas redondezas do Kremlin, em Moscou, e foi saudado por uma multidão, que, desafiando as baixas temperaturas, o aguardava para a comemoração. Naquela momento, com cerca de 60% das urnas apuradas, o presidente estava reeleito com 75% dos votos ; três em cada quatro eleitores davam a ele mais seis anos à frente do país. No primeiro discurso, Putin agradeceu e externou a tensão com o Ocidente, ao falar das acusações de envenenamento do ex-espião russo no Reino Unido. ;São mentiras, lixo, bobagens;, afirmou.

;Eu vejo (na reeleição) o reconhecimento de tudo que foi feito nesses últimos anos em condições muito difíceis. As pessoas têm esperança e confiança de que nós trabalharemos com o mesmo esforço, a mesma responsabilidade e a mesma eficiência;, disse aos cerca de 35 mil eleitores que, entusiasmados, balançavam bandeiras no palanque originalmente montado para celebrar os quatro anos da anexação da Crimeia à Rússia, decidida após um referendo considerado ilegal pela Ucrânia e pelas potências ocidentais. Em Kiev, houve protestos, com bloqueio dos acessos aos consulado russo para impedir participação na eleição.


Aos 65 anos, Putin se elegeu para um quarto mandato que se estenderá até 2024, tornando-o o líder mais longevo desde Josef Stalin, que governou a extinta União Soviética entre 1924 e 1953. Em meio a centenas de denúncias de irregularidades propagadas pela oposição, o chefe de Estado superou o candidato comunista Pavel Grudinin, que obteve 13,4% dos votos, o ultranacionalista Vladimir Jirinovski (6,3%) e a jornalista ligada à oposição liberal, Ksénia Sobtchak (1,4%).

Após o fechamento das últimas seções eleitorais no enclave russo de Kaliningrado, na região central da Europa, a primeira pesquisa do instituto oficial VTSiOM antecipou a vitória do presidente com 73,9% dos votos, um resultado muito melhor do que os 63,6% obtidos quatro anos atrás. ;Está claro que as eleições não são justas;, queixou-se o comunista Grudinin, citado pela agência de notícias Interfax.


A ONG Golos, especializada em vigilância eleitoral, disponibilizou um mapa das fraudes em seu site na internet, no qual denunciou mais de 2,7 mil irregularidades como o preenchimento de urnas, votos múltiplos ou obstáculos ao trabalho dos observadores. A presidente da Comissão Eleitoral, Ella Pamfilova, considerou, no entanto, que as irregularidades comprovadas foram ;relativamente baixas; e acrescentou que a votação foi transparente.

Cenário artificial
Impedido de disputar as eleições por uma condenação judicial, Alexei Navalny, principal adversário político do presidente, acusou o Kremlin de aumentar artificialmente a mobilização, preenchendo as urnas ou organizando o transporte maciço de eleitores às seções eleitorais. ;Precisam de participação. O resultado é que a vitória de Putin com mais de 70% (dos votos) se decidiu de antemão;, disse Navalny à imprensa, assegurando que a participação real foi inferior à de 2012.

Com a vitória assegurada, o principal desafio do líder russo era garantir um alto comparecimento de eleitores nas urnas, dando, assim, uma representatividade ainda mais eloquente à sua vitória. Segundo a imprensa, as autoridades russas fizeram uma campanha maciça de informação e incitação ao voto, facilitando a participação fora das circunscrições de residência, mas também pressionando funcionários públicos e estudantes a votar. Os primeiros resultados, porém, não indicavam sucesso na estratégia.

A despeito das tensas relações com o Ocidente, Putin é elogiado por ter devolvido a estabilidade ao país, após a caótica década de 1990, embora, segundo seus detratores, tenha sido às custas das liberdades individuais. ;Nos últimos quatro anos, tivemos as sanções (ocidentais), mas também construímos muito, novas fábricas abriram, a inflação é baixa;, opinou Olga Matiunina, eleitora de Putin, de 65 anos.

Os dias que antecederam a eleição foram particularmente nervosos, marcados pelos desdobramentos do envenenamento do ex-agente duplo Serguei Skripal e sua filha, Yulia, na Inglaterra.

O governo britânico não tardou a lançar suspeitas sobre Moscou, expulsando 23 diplomatas russo do país. No sábado, medida similar foi adotada pelo Kremlim em represália. Ontem, ao discursar, Putin reafirmou que a Rússia nada tem a ver com o episódio e que todas as armas químicas do país foram destruídas, conforme estabelecido pelos tratados internacionais. E disse estar disposto a cooperar.


Momentos marcantes

As principais datas da vida de Vladimir Putin

; 7 de outubro de 1952: nasce em uma família operária da periferia de Leningrado, atual São Petersburgo.

; 1998: nomeado à frente do FSB, os serviços russos encarregados da segurança interna (antiga KGB).

; 1999: primeiro-ministro de Boris Yeltsin, ordenou a entrada das tropas russas na Chechênia contra os separatistas. Em abril de 2009, Moscou anunciaria o fim da ;operação antiterrorista;.

; 2000: eleito presidente no primeiro turno.

; 2004: Putin é reeleito

; 2008: impedido de disputar mais de dois mandatos consecutivos, Vladimir Putin cede o Kremlin a seu primeiro-ministro, Dmitri Medvedev, e assume a chefia de Governo.

; 2012: volta a ser eleito presidente, no primeiro turno, para um mandato de seis anos. A eleição foi marcada por manifestações inéditas da oposição.

; 2013: anuncia seu divórcio de Liudmila, sua esposa desde 1983, com quem teve duas filhas.

; 2014: anexação da península ucraniana da Crimeia depois da ocupação por parte das tropas russas e um referendo considerado ilegal pela comunidade internacional.

; 2015: dá seu apoio militar ao regime do presidente da Síria, Bashar al-Assad.

; 6 de dezembro de 2017: anuncia sua candidatura às eleições de 2018, com objetivo de obter um quarto mandato presidencial.






Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação