Solução para a água baseada na natureza

Solução para a água baseada na natureza

Presidente Temer abre hoje, oficialmente, fórum mundial que discutirá, até sexta-feira, a questão hídrica no planeta. Relatório da Unesco defende a preservação de áreas úmidas, que agem como barreiras naturais para captar chuva

Alessandra Azevedo
postado em 19/03/2018 00:00
 (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press - 8/6/17
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(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press - 8/6/17 )

Na manhã de hoje, o presidente Michel Temer abre, oficialmente, a 8; edição do Fórum Mundial da Água, maior evento internacional sobre o tema, em cerimônia no Palácio do Itamaraty. Até sexta-feira, Brasília será palco de encontros, discussões e trocas de experiências entre especialistas e autoridades de 150 países a respeito de assuntos de relevância mundial, como crise hídrica e políticas públicas de melhoria na gestão da água. Para balizar a discussão sobre boa parte desses assuntos, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) divulgou hoje o Relatório Mundial das Nações Unidas sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos 2018.

O principal foco do estudo, que será lançado no Fórum, é mostrar que reservatórios, canais de irrigação e estações de tratamento não são os únicos instrumentos de gestão de água disponíveis no mundo. Soluções baseadas na natureza podem e devem ser usadas para melhorar o abastecimento e a qualidade da água, principalmente diante dos desafios trazidos pelo crescimento populacional e por mudanças climáticas, defende a Unesco. Se nada for feito, aponta a entidade, haverá 5 bilhões de pessoas vivendo em áreas com pouco acesso à água em 2050. ;O estudo propõe soluções que são baseadas na natureza para gerir melhor a água. É uma tarefa essencial que todos nós precisamos resolver juntos, de forma responsável, para evitar conflitos relacionados à água;, alertou a diretora-geral da Unesco, Audrey Azoulay.

O relatório aponta números alarmantes em relação à escassez de água, que afeta atualmente 3,6 bilhões de pessoas, o equivalente à metade da população mundial, em pelo menos um mês por ano. Essa população pode crescer para algo entre 4,8 bilhões e 5,7 bilhões até 2050. Além dos problemas de distribuição e gestão da água, o estudo aponta a influência da gestão hídrica na incidência de desastres naturais, que tendem a aumentar com as mudanças climáticas, mas podem, segundo a Unesco, ser reduzidos a partir da adoção de medidas ;mais verdes; na gestão da água.

De acordo com Gilbert Houngbo, diretor do UN Water e presidente do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola, para que esses problemas sejam resolvidos, é preciso reexaminar a gestão hídrica, que atualmente é baseada em ;infraestruturas cinzas;, construídas pelos seres humanos. ;Conhecimentos tradicionais e indígenas, que abrangem soluções mais ;verdes;, são constantemente deixados de lado;, ponderou, no prefácio.

Zonas úmidas

Se nada for feito nesse sentido, o número de pessoas em risco por conta de alagamentos deve crescer de 1,2 bilhão, atualmente, para 1,6 bilhão, em 2050 ; cerca de 20% da população mundial. Uma das opções apontadas para resolver o problema é a preservação de áreas úmidas, que agem como barreiras naturais para captar água da chuva. O Chile, por exemplo, anunciou medidas para proteger as zonas úmidas costeiras depois do tsunami de 2010. Nos Estados Unidos, o estado da Louisiana criou um programa de proteção e restauração da costa após o furacão Katrina, em 2005, cujos impactos foram ainda maiores devido à degradação das áreas úmidas na região.

Além da utilidade na contenção de desastres naturais, as áreas úmidas, como pântanos e várzeas, influenciam diretamente na qualidade da água ao filtrar substâncias tóxicas de pesticidas e resíduos industriais e de mineração. Há evidências que essas áreas, sozinhas, podem remover entre 20% e 60% dos metais em águas e filtrar entre 80% e 90% dos sedimentos de escoamento. O benefício é tão evidente que alguns países, como a Ucrânia, criaram zonas úmidas artificiais para tratar as águas e filtrar alguns produtos farmacêuticos dos efluentes.

Com uso mais racional da água, redução no uso de pesticidas e melhorias na cobertura do solo, também é possível aumentar em 79% o rendimento médio das colheitas, aponta o estudo. A produção agrícola poderia aumentar em cerca de 20% no mundo apenas com a adoção de práticas de gestão hídrica mais verdes. Apesar dos benefícios, essas opções representam apenas 5% do investimento total em infraestruturas relacionadas com a água no mundo.

5 bilhões
de pessoas viverão em áreas com pouco acesso à água em 2050 se nada for feito

3,6 bilhões
de pessoas no mundo já vivem em áreas com potencial escassez de água por pelo menos um mês por ano

1,6 bilhão
de pessoas viverão em situação de risco de inundações em 2050

30%
da população mundial vive em áreas afetadas rotineiramente por inundações e secas

30%
das terras em todo o mundo têm cobertura florestal

2/3
dessa área se encontra em estado de degradação


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