Briga deixa casal queimado

Briga deixa casal queimado

Moradores de Ceilândia acordaram ontem com gritos de uma mulher. Segundo relato, ela se recusou a fazer sexo com o companheiro e ele reagiu jogando um galão de combustível em seu corpo e, em seguida, ateou fogo

» ANA VIRIATO » SARAH PERES Especial para o Correio
postado em 19/03/2018 00:00
 (foto: Sarah Peres/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Sarah Peres/Esp. CB/D.A Press)

Dois dias após um homem matar a esposa a tiros e, em seguida, cometer suicídio na Ceilândia, uma nova barbárie entrou para a crescente lista de casos investigados como violência doméstica no Distrito Federal. Por volta das 6h30 de ontem, moradores da cidade acordaram com gritos por socorro e a movimentação de uma mulher de 43 anos, que, a passos largos, subia e descia a rua na tentativa de aliviar a dor que sentia após ter 75% do corpo queimado.

Em versão apresentada à 24; Delegacia de Polícia (Ceilândia Norte), a mulher, que é comerciante, afirmou que o companheiro incendiou a casa depois de se recusar em manter relações sexuais com ele. O homem, 46, que trabalha furando fossas, também sofreu lesões. Segundo avaliação médica, ele teve 95% da pele comprometida. Os dois estão internados no Hospital Regional da Asa Norte (Hran).

Os policiais militares receberam o chamado para atender à ocorrência, inicialmente, de briga de casal. Quando chegaram ao endereço, depararam-se com os dois, feridos, na calçada. O homem é descrito no documento como ;autor; do crime. Segundo consta no registro inicial, ele disse aos militares que estava querendo ir à Feira do Rolo negociar alguns móveis, mas a companheira teria vetado a negociação. ;Ele apanhou um galão com combustível, oportunidade na qual ela pegou o fósforo, e nada mais informou;, destaca o boletim da Polícia Civil, sem mais esclarecimentos.

A linha de investigação é de tentativa de incêndio, de feminicídio e de suicídio. O caso aconteceu no espaço onde funciona a loja de móveis usados da mulher, localizada na QNQ 4. O casal, que mora na Cidade Ocidental, resolveu passar a noite na unidade comercial, por conta do custo de ida e volta. Eles namoravam havia cerca de um ano e decidiram viver sob o mesmo teto no último mês, segundo relatos de familiares.

Sobrinha da mulher, Cássia de Jesus a acompanhou no centro médico durante o dia. Ela alegou que, segundo os médicos, ;o tratamento será doloroso;, e a tia e o homem devem ficar internados por algumas semanas. ;Disseram que ela pode ter parte da visão comprometida e ficará com o rosto bastante inchado. Nossa família está em surto, ninguém imaginava que algo desse tipo poderia acontecer;, lamentou.

Cássia acrescentou que, há três meses, a mulher havia relatado uma tentativa de agressão. ;Ela não chegou a registrar a ocorrência. Somente eu e outra tia sabíamos. Fora esse caso, ele não aparentava ser um homem violento. Os dois eram muito próximos desde que se conheceram numa das barracas da Rodoviária;, relatou.

Desespero
Testemunhas do caso descrevem uma situação de desespero após o incêndio. Uma moradora entrava no carro de uma amiga quando foi chamada pelo homem para prestar socorro. ;Ele disse: ;Ajuda aqui, está pegando fogo e pode alastrar para as outras casas;. Entrei correndo em casa e pedi ajuda ao meu pai. Quando saímos, a vizinha dos fundos tinha aberto o portão para eles", contou. A senhora que ajudou os dois a sair do local e apagar o fogo não quis conversar com a reportagem.

Segundo relatos, a princípio, a comerciante saiu da casa sozinha, enquanto o namorado teria permanecido no quarto. "Ela estava agoniada, subia e descia a rua para ver se aliviava a dor. Ele só saiu depois, usando apenas a cueca, com o corpo muito queimado; sequer conseguia falar alguma coisa", relata outra pessoa.

Um comerciante, que conhecia o casal, disse não acreditar quando soube do ocorrido. Ele conta que o homem não aparenta ser uma pessoa violenta. "Ele vinha aqui (no comércio) quase todos os dias para pegar refrigerante. É uma pessoa muito sociável, que não se envolvia com brigas. Não aparentava ser uma pessoa que faria algo assim", disse.

Além do comércio de móveis usados, o casal também mantinha uma barraquinha de churrasco. "Durante a noite, eles saíram da casa para ajeitar as coisas do churrasquinho, na frente da casa mesmo. Eles vendiam juntos, conversavam entre si e inclusive, com quem passava. Eles eram simpáticos. Para mim, eles não aparentavam ter problemas no relacionamento", alegou uma vizinha.


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