Inferno na prisão

Inferno na prisão

Rebelião em um centro de detenção, com incêndio e repressão policial, deixa ao menos 68 mortos. A menos de dois meses de disputar a reeleição, o presidente Nicolás Maduro é questionado pela oposição e por órgãos da ONU

postado em 30/03/2018 00:00
 (foto: Katherine Ortiz/AFP
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(foto: Katherine Ortiz/AFP )

O governo do presidente Nicolás Maduro está sob pressão para esclarecer as causas e os responsáveis pelas 68 mortes ocorridas na quarta-feira, após tentativa de fuga de presos em uma penitenciária da polícia do estado de Carabobo, na cidade de Valencia, no norte da Venezuela. O Alto Comissariado das Nações Unidas para Direitos Humanos se mostrou ;horrorizado; e cobrou uma apuração exaustiva e efetiva. A Assembleia Nacional venezuelana, de maioria oposicionista, destituída por Maduro no ano passado, anunciou uma investigação sobre a tragédia, classificada pela bancada antichavista como ;um massacre;. Os desdobramentos do caso podem representar desgaste para a campanha de Maduro à reeleição, em maio, em uma votação boicotada pelos opositores.

Durante tentativa de fuga no Comando da Polícia de Carabobo, detentos atearam fogo a colchões e tomaram a arma de um agente, informou a ONG venezuelana Janela para a Liberdade, que monitora a situação carcerária no país. ;Alguns morreram queimados e outros, intoxicados;, relatou Carlos Nieto, diretor da organização.

O escritório de Direitos Humanos da ONU pediu respeito às famílias das vítimas e condenou a atuação dos agentes de segurança. ;Estamos preocupados com relatos de que forças de segurança usaram gás lacrimogêneo para dispersar parentes que se reuniram do lado de fora do centro de detenção;, informou o Alto Comissariado, em comunicado. A entidade frisou que o incêndio ocorreu, conforme relatos, durante confronto entre detentos e agentes da unidade prisional.

;Pedimos às autoridades venezuelanas que conduzam uma investigação completa, rápida e efetiva para determinar as causas dessas mortes, fornecer reparações às famílias das vítimas e, quando aplicável, punir aqueles que possam ter sido responsáveis;, declarou o escritório. A entidade também criticou a superlotação generalizada nas prisões venezuelanas e o fato de instalações policiais destinadas a detenções de curta duração serem usadas para encarceramento permanente.

O líder da oposição na Assembleia Nacional, deputado Juan Guaidó, do partido Vontade Popular, assegurou que a apuração será completa. ;O que aconteceu no Comando de Policarabobo não pode ficar impune. Na @AsambleaVE, vamos abrir uma investigação completa sobre isso, para dar conhecimento aos cidadãos sobre o porquê dessa atrocidade;, escreveu o parlamentar em sua conta no Twitter. Guaidó classificou o episódio como inaceitável e exigiu do governador de Carabobo, o governista Rafael Lacava, e da ministra da Administração Penitenciária, Iris Varela, um pronunciamento sobre ;esse fato hediondo;.

Por sua vez, o procurador-geral venezuelano, Tarek Saab, informou, também pelo Twitter, que, após ;inquéritos preliminares, há (entre os mortos) 66 homens e duas mulheres que estavam na qualidade de visitantes;. De acordo com Saab, ;em todos os corpos foram realizados os respectivos protocolos de autópsia e a entrega aos familiares;. O procurador-geral escreveu que ;o @MinpublicoVE garante que aprofundaremos as investigações, para esclarecer de forma imediata os dolorosos eventos que enlutaram dezenas de famílias venezuelanas, assim como estabelecer as responsabilidades que possam surgir;.

Duas vezes candidato à presidência da Venezuela, o opositor Henrique Capriles usou sua conta no Twitter para perguntar: ;Quantas vezes mais vamos ver as mesmas cenas dantescas com os prisioneiros no país?; Segundo ele, dezenas de ;pessoas mortas, espremidas em um quartel da polícia, mostram o fracasso de um governo que é obrigado a garantir a vida dos venezuelanos, pois a pena de morte não existe na Venezuela;.

Pelo mesmo microblog, Antonio Ledezma, ex-prefeito de Caracas e um dos principais opositores de Maduro, disse que o incêndio em um prédio policial ;é uma tragédia que levou a vida de mais de 60 seres humanos e merece uma explicação e investigação responsável;. Para ele, ;toda a Venezuela está comovida e indignada, e nossas orações estão com os mortos e suas famílias;.

"Quantas vezes mais vamos ver as mesmas cenas dantescas com os prisioneiros no país?;
Henrique Capriles, dirigente da oposição venezuelana



Violência repetida

Rebeliões e mortes se repetem nas prisões da América Latina

As mais graves

2005
  • Uma briga entre presos da prisão de Higüey, na República Dominicana, a 150km de Santo Domingo, termina com um gigantesco incêndio provocado pelo fogo ateado em colchões. No total, 135 pessoas morrem.

1994
  • Brigas e um incêndio deixaram 121 mortos na prisão de Sabaneta, em Maracaibo, no noroeste da Venezuela.

1992
  • Mais de 300 policiais armados intervêm após uma rebelião na prisão do Carandiru, em São Paulo (Brasil), então a maior da América Latina, e executam 111 detentos.

Venezuela

2017
  • Em agosto, uma rebelião deixa 37 vítimas em um centro de detenção provisória no estado do Amazonas (sul).
  • Em abril, confrontos entre detentos de facções rivais deixam 12 mortos e 11 feridos na prisão de Puente Ayala, em Barcelona (leste).

2013
  • Rebelião na prisão de Uribana (noroeste), provocada por uma inspeção para procurar armas, termina com 60 mortos.

2012
  • Confrontos na prisão de Yare I, perto de Caracas, deixam 25 mortos.

Outros países

2018
  • Em 1; de janeiro, confrontos entre facções rivais do crime organizado deixam nove mortos em um complexo penitenciário no estado de Goiás (Brasil), de onde 100 presos escaparam.

2017
  • Dois motins no México deixam 16 mortos em Cadereyta (centro) e 28 mortos em Acapulco (sul).
  • Em 3 de janeiro, um a

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