A melhor doutora do mundo

A melhor doutora do mundo

Tese de ex-estudante da Universidade de Brasília sobre a evolução das plantas é considerada a mais significativa no campo da biologia pela Linnean Society, de Londres. Ela é a primeira latino-americana a ganhar um prêmio, na categoria, da prestigiada instituição

OTÁVIO AUGUSTO
postado em 30/03/2018 00:00
 (foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
Ninguém sabe ao certo quando as primeiras plantas surgiram. Alguns especialistas acreditam que elas podem ter aparecido há 470 milhões de anos, no período Ordoviciano. Entender a história das mudas pode explicar, por exemplo, as relações de parentesco entre as espécies e as interferências no meio ambiente onde elas vivem. Assunto parecido com tema de filme de ficção científica, mas importante para desvendar o padrão biológico e genético da flora.

Em matéria de biologia evolutiva, como a linha de pesquisa é chamada, a capital federal está bem representada. Thaís Vasconcelos, 29 anos, ex-estudante da Universidade de Brasília (UnB), ganhou o prêmio anual John C Marsden Medal, da Linnean Society, de Londres. A honraria é entregue à melhor tese de doutorado em biologia para programas de pós-graduação do Reino Unido. Uma das mais prestigiadas condecorações no mundo da ciência.

Thais é a primeira latino-americana a ganhar um prêmio da Linnean Society nessa categoria desde que os prêmios anuais foram estabelecidos em 1888. Ela fez graduação em ciências biológicas e mestrado em botânica na UnB. Em seu doutorado, foi estudar no Reino Unido graças a uma bolsa da Capes e do antigo programa Ciências sem Fronteiras. Alguns capítulos da tese de Thaís foram publicados em respeitados periódicos científicos internacionais.

O conceito parece complicado, mas a brasileira tira a pecha. ;O que faço é reconstruir a história evolutiva de grupos de plantas através da comparação do material genético de espécies diferentes. Assim a gente descobre quem é mais próximo de quem e pode entender quando um grupo surgiu na história;, explica. A pesquisa ajuda a compreender características das plantas, como a coloração das flores e preferência por altitudes elevadas ou beira de rios, por exemplo. Com essas informações, é possível estimar a ;idade; da espécie. A jovem é especialista em plantas tropicais.

O trabalho premiado de Thaís estudou a família Myrtaceae, que inclui plantas como a pitanga e o eucalipto (sim, eles são da mesma família). ;Entre as descobertas mais legais está que essas plantas, superdiversas na América do Sul, se originaram no antigo continente da Zelândia (atual Nova Zelândia) e chegaram a mais ou menos 40 milhões de anos aqui, por meio da Antártida, quando esta ainda não era coberta por gelo. A gente sabe disso por causa do parentesco entre as plantas daquela região com as daqui e também por causa de fósseis na Antártida e na Patagônia;, conta.

Thaís conseguiu mapear a relação do formato das flores com as abelhas responsáveis pela polinização. ;As flores dessas plantas precisam ter um formato específico para que a polinização aconteça e esse formato mudou muito pouco ao longo dos últimos 40 milhões de anos, o que não era um resultado esperado. Geralmente, as flores mudam muito de formato ao longo da evolução por causa da seleção por polinizadores;, comenta.

Dificuldades

Mas nem tudo são flores. As caminhadas pelas quadras do Plano Piloto, as salas de aula da UnB e os shows de bandas independentes de rock da cidade cederam espaço ao Royal Botanic Gardens Kew ; espécie de ;parque de diversões; para um biólogo. A pressão por resultados fez a estudante minimizar a saudade, focar na pesquisa e enfrentar o machismo. ;O ambiente acadêmico ainda é muito machista e isso não é diferente na Inglaterra. Em alguns momentos, sentia grande dificuldade de ser levada a sério, quando apresentava uma ideia diferente. Isso ainda era agravado pelo fato de eu ser estrangeira;, pondera.

Apesar dos perrengues, morar fora do país foi uma experiência interessante. ;Você começa a ter outra visão da própria cultura. Em termos de estrutura de pesquisa, lá é muito impressionante. Os equipamentos são absurdos e as coleções históricas são as maiores do mundo, além de toda a estrutura para experimentos em estufas e verba para pesquisa de campo. Não tem como não ficar empolgado;, conclui.

O prêmio serve como combustível para continuar pesquisando. Thaís aguarda o resultado de propostas de projetos na Universidade de São Paulo (USP), na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e no Royal Botanic Gardens Kew. De uma coisa, ela está certa: a temporada em Brasília será curta. ;Ainda não sei o que vai acontecer nos próximos meses ou onde vou trabalhar. Essa incerteza recorrente é outra coisa comum e angustiante da área acadêmica;, acrescenta.

A doutora espera que o prêmio reflita na carência de oportunidades para a carreira científica no Brasil. ;É importante mostrar que aqui tem muita gente boa também e que a gente já entenderia muito mais sobre a nossa biodiversidade se houvesse mais incentivos à pesquisa dentro do Brasil. Espero que esse prêmio me dê mais energia para tentar fazer a diferença aqui, porque, às vezes, ir para fora do país parece muito atraente, parece que as coisas serão mais fáceis lá;, defende. ;Ganhar um prêmio de uma sociedade tão tradicional como a Linnean Society, mesmo não sendo inglesa, foi muito legal. Fiquei empolgada ao ver que o que estou fazendo vale a pena.;

Rotina

Dos quatro anos que a estudante passou na Inglaterra, ela passou a maior parte do tempo trabalhando. ;A autocobrança era grande, mas o jardim botânico era tão legal que não era nenhum sacrifício passar a maior parte do tempo lá;, ressalta. Outras coisas deixavam a rotina mais leve, como ir ao pub toda sexta-feira com os amigos e andar de bicicleta na beira do rio Tâmisa, que corta Londres. ;Eu sentia muita saudade do Brasil, de uma forma que nem imaginava que ia sentir. Sentia muita falta da comida (não tem comida melhor que a brasileira) e de alguns hábitos, como ir a um boteco e dividir uma cerveja de garrafa com os amigos (lá, cada um compra o seu copo);, detalha.

Thaís se lembra com carinho dos tempos de UnB. ;Gostava muito daquele clima universitário, mais otimista com o futuro. A gente não imagina que vai sentir tanta falta disso quando nós estamos na graduação. Foi na UnB que comecei a me interessar por botânica e por evolução, minha linha de pesquisa hoje, e ainda tenho muitos amigos que estão cursando pós-graduação lá;, conta.

Ela deixa um recado para aqueles que ainda estão na sala de aula. ;Você não precisa ser um aluno exemplar para ser um bom pesquisador. Existe um apelo muito grande para o estereótipo do que é um bom pesquisador como

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação