Visão salva por implante

Visão salva por implante

Dispositivo criado por cientistas americanos evita o avanço da degeneração macular relacionada à idade, doença que pode levar à cegueira. A abordagem poderá ser usada para tratar outras complicações oftalmológicas

Vilhena Soares
postado em 05/04/2018 00:00


A degeneração macular é uma enfermidade ocular progressiva. Ao ser detectada cedo, pode ser tratada. Mas quando chega ao nível mais grave, a perda da visão provocada por ela é irreversível. Para evitar esse tipo de cegueira, cientistas dos Estados Unidos trabalham na criação de um implante composto por células-tronco. A abordagem mostrou-se eficaz em testes com humanos: além de evitar os danos da doença na retina dos voluntários, recuperou parte da visão de alguns deles. Os resultados foram publicados na última edição da revista Science Translational Medicine e podem abrir as portas para o desenvolvimento de novos tratamentos oftalmológicos.
Segundo a equipe, a ideia de usar células-tronco para substituir o tecido ocular danificado não é nova, mas apenas recentemente foi possível criar essas estruturas para substituir as células danificadas pela degeneração macular relacionada à idade (NNAMD, na sigla em inglês), também conhecida como AMD Seca. ;O implante experimental que testamos consiste em uma única camada de células do epitélio pigmentar da retina (EPR) derivado de células-tronco;, resume Amir H. Kashani, professor-assistente de oftalmologia clínica na Escola de Medicina Keck, da Universidade do Sul da Califórnia, e principal autor do estudo.

O cientista explica que as EPR são fundamentais à visão, pois funcionam como células fotorreceptoras, que detectam a luz no olho. A AMD seca danifica justamente essas estruturas. ;Pensamos que substituir cirurgicamente a área de dano do EPR com as novas células do implante poderia prevenir a perda de visão ou mesmo restaurar parte da visão perdida;, complementa Kashani. O implante é composto por células-tronco embrionárias humanas, que ficam sobre um material não agressivo ao olho, formando uma membrana. O conjunto imita as EPR.

Após testes bem-sucedidos com ratos, os pesquisadores partiram para análises em um grupo pequeno de humanos. O implante foi inserido nos olhos de quatro homens com degeneração macular avançada, que tiveram a visão monitorada durante quatro meses a um ano. O implante foi bem tolerado por todos os participantes e nenhum deles perdeu a visão ao longo do experimento. Um apresentou melhora na acuidade visual ; capacidade do olho de distinguir detalhes espaciais, ou seja, identificar o contorno e a forma dos objetos. Imagens pós-operatórias revelaram sucesso na integração das células-tronco dos implantes integrados ao tecido retiniano dos participantes e que as retinas exibiram mudanças anatômicas consistentes com o reaparecimento do EPR.

Terapias restritas
Rafael Yamamoto, oftalmologista chefe do Departamento de Retina do Visão Institutos Oftalmológicos, em Brasília, destaca que a possibilidade de surgimento de um novo tratamento para a degeneração macular é uma ótima notícia para a área médica. ;Temos duas formas de degeneração, a seca e a úmida. Para a segunda, tem tratamento com injeções dentro do olho. Já a seca, quando avançada, não se reverte. A única alternativa que temos é o uso de antioxidantes orais, que evitam a perda e a progressão para as áreas mais graves, mas que só é eficaz antes de a doença chegar a estados avançados;, detalha.

Yamamoto destaca que a terapia gênica é uma tema que tem sido bastante explorado na área oftalmológica e rendido resultados promissores. ;Em janeiro, por exemplo, foi aprovada nos Estados Unidos a aplicação de um gene dentro do olho que pode evitar que crianças com doenças congênitas fiquem totalmente cegas;, ilustra.

Após o sucesso nos primeiros experimentos, os cientistas planejam testes com um grupo maior de voluntários e voltados para outros tipos de complicações oftalmológicas. ;Nossa pesquisa atual foi um estudo de segurança para demonstrar que o implante e a cirurgia são seguros. Eles foram realizados em indivíduos que tinham muito pouco potencial de melhorar ou recuperar a visão. Nosso próximo passo é realizar estudos em indivíduos com potencial visual maior, com uma doença menos severa. Nesses casos, teremos uma ideia melhor de quão bem o implante pode trabalhar para prevenir a perda de visão ou restaurá-la;, adianta Kashani.

Yamamoto também ressalta que os novos testes poderão trazer informações importantes sobre a eficácia do implante. ;É interessante testar em um número maior de pessoas. Também vale ressaltar que esse teste foi feito apenas para checar a segurança da abordagem e, ainda assim, constatou melhora visual nos pacientes, o que é um ponto bastante positivo;, detalha o oftalmologista.



"Vale ressaltar que esse teste foi feito apenas para checar a segurança da abordagem e, ainda assim, constatou melhora visual nos pacientes, o que é um ponto bastante positivo;


Rafael Yamamoto, oftalmologista chefe do Departamento de Retina do Visão Institutos Oftalmológicos, em Brasília

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação