Amor e devoção aos 70 anos

Amor e devoção aos 70 anos

Com os astros Helen Mirren e Donald Sutherland, o diretor Paolo Virzì alcança enorme carga de humanismo no longa Ella & John, uma das principais estreias do circuito de cinema que traz nove filmes

Ricardo Daehn
postado em 05/04/2018 00:00
 (foto: Sony Pictures Classics/Divulgação)
(foto: Sony Pictures Classics/Divulgação)


Os corpos e mentes dos idosos protagonistas de Ella & John podem estar debilitados, causando extrema preocupação nos filhos ; mas, vistos a distância da narrativa de cinema, dão margem a um filme com humor irretocável, embalado no formato de road movie. ;Me sinto filho do cinema italiano, ainda que, atualmente, a disseminação de tramas universais, com a globalização, tenha apagado limites de territórios, e tornado as barreiras entre países obsoletas;, comentou o diretor do longa, Paolo Virz;, italiano de Toscana, à época da participação no Festival de Veneza. Os aplausos vieram, dada a autenticidade dos componentes da fita, pelo que elencou o diretor: verdade, humanismo, ironia e completo rejúbilo dos protagonistas que se valem do somatório de amor e devoção, por toda uma vida, para realizar desejos pendentes, aos mais de 70 anos.

Desde 1995, a carreira do diretor Paolo Virz; revela crescente reconhecimento: no páreo do importante David di Donatello (tido como o Oscar italiano), foram múltiplas as indicações, em oito ocasiões. Com o novo filme ; o primeiro que adapta a escrita de Michael Zadoorian para as telas ;, o diretor acredita ter alcançado o registro de uma ;balada, engraçada e triste;. Depois de trabalhar com personalidades como Valeria Bruni Tedeschi e a musa setentista Stefania Sandrelli, Virz; marcou gol de placa, escalando a dupla Helen Mirren (A rainha) e Donald Sutherland (Jogos Vorazes 2 ; Em chamas) para os papéis centrais.

Ambos os atores, por sinal, foram muito celebrados na última cerimônia do Oscar, com direito a prêmio honorário da Academia entregue a Sutherland. Pai de Kiefer (o Jack Bauer de 24 horas), Donald traz o eterno perfeccionismo (Inverno de sangue em Veneza), na pele de John, o homem que, mais do que esquecido, se ampara na figura da mulher Ella, num festival de deficiências que se completam. Tudo sem suposto sentimentalismo barato. Emoção e memória, bases para a literatura de Michael Zadoorian, fazem a festa, no filme que rendeu candidatura de melhor atriz para Helen Mirren, no Globo de Ouro. Dentro de um trailer, Ella é o agente ativo: quer comprazer o marido, um professor aposentado, numa viagem rumo à casa de Ernest Hemingway, em Key West.

O autor de O velho e o mar não é o único escritor citado no filme que dispensa uma corrente de diálogos relacionados a personalidades como Tennessee Williams, Herman Melville e James Joyce. Ao tirarem o pé de casa, a contragosto dos filhos, Ella e John esbarram numa América muito diferente da que conheciam. A trilha que acompanha o casal traz de Janis Joplin a Iggy Pop, passando pela tranquilidade do grupo Chicago.

Com o respaldo de, como Virz; diz, ;contar a vantagem; de ter dirigido os icônicos Sutherland e Mirren, o experimentado realizador deita e rola com o enredo que aposta em revelações tardias, pitadas de insanidade e altas doses de ironia. No roteiro, contou com os colaboradores de filmes como Loucas de alegria (2016), dentre os quais o escritor Stephen Amidon, a roteirista Francesca Archibugi e o grande amigo do premiado Nanni Moretti, Francesco Piccolo.


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