Conexão diplomática

Conexão diplomática

Por Silvio Queiroz silvioqueiroz.df.@dabr.com.br
postado em 28/04/2018 00:00
 (foto: Mandel Ngan/AFP)
(foto: Mandel Ngan/AFP)
Para onde vai a
Trumplomacia?





Passado já mais de um ano de governo de Donald Trump, parceiros e adversários externos, além dos estudiosos e observadores das relações internacionais, continuam dando voltas na cabeça na tentativa de compreender a política externa dos Estados Unidos. A semana que termina foi pródiga em oferecer os contrastes de uma orientação que, até aqui, parece errática para quem a enxerga de fora. De um lado, Trump acaba de confirmar, provavelmente para junho, um histórico encontro com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un ; o primeiro entre um presidente americano e o ;número 1; do recluso regime comunista.

Em meio aos sinais de paz no Extremo Oriente, na perspectiva da desnuclearização da Península Coreana, o clima voltou a ficar tenso com o Irã. Em 12 de maio, expira o prazo para queTrump volte a certificar, perante o Congresso, que o Irã segue cumprindo sua parte no acordo nuclear firmado em 2015 com mais cinco potências, além dos EUA. Embora não haja sequer suspeitas de violação dos termos pelo regime islâmico, a tendência do presidente americano é abandonar o acordo ; ao menos, foi o que sinalizou para o colega francês, Emmanuel Macron, quando o recebeu em Washington.

Em resumo, Trump rejeita o pacto assinado pelo antecessor, Barack Obama, e faz dos aiatolás carro-chefe de uma campanha que, para muitos, tem como alvo o público interno, e como meta a reeleição em 2020.

Duas cabeças
Por trás das incertezas em torno da diplomacia americana estão os reajustes recentes na equipe de governo. O pivô dos últimos acertos entre Washington e Pyongyang foi o novo secretário de Estado, Mike Pompeo, recém-confirmado pelo Senado. Ainda como diretor da CIA, cargo que ocupava desde o começo do governo Trump, Pompeo foi enviado na Páscoa à Coreia do Norte, secretamente, para encontros de alto nível ; inclusive com Kim Jong-un. Deputado pelo estado do Kansas, de perfil marcadamente conservador, o novo titular da diplomacia esteve entre os primeiros congressistas republicanos a fechar com o bilionário nova-iorquino, ainda durante a fase das primárias do partido, e tornou-se um dos principais confidentes do candidato vitorioso na disputa pela Casa Branca, em 2016.

Pompeo ( foto em cima) fará dupla, na política externa, com um representante clássico da direita ideológica do Partido Republicano. John Bolton (E), veterano das administrações de Ronald Reagan e George Bush pai, é o terceiro conselheiro de Segurança Nacional do governo Trump. Nos últimos anos, compareceu com frequência na mídia para defender posições rígidas diante da Coreia do Norte e do Irã. Ao contrário do atual presidente, mantém a aprovação incondicional à invasão do Iraque, em 2003, no governo de George Bush filho.

Entre um aliado fiel e uma espécie de ;âncora; ideológica confiável para a direita republicana, o presidente, que nem sequer mantém uma relação sólida e histórica com o Partido Republicano, espera equilibrar as doses necessárias de pragmatismo e voluntarismo para se apresentar à sua base eleitoral como alguém que ;cumpre as promessas;.

Cravo e ferradura
Da ótica de um diplomata cujo governo é especialmente crítico da política externa de Washington, os movimentos opostos de Trump em relação à Coreia do Norte e ao Irã parecem referendar, uma vez mais, um dos fundamentos da política nuclear de Pyongyang. Após a invasão do Iraque, Kim Jong-il, pai e antecessor do atual líder comunista, optou pela aceleração do programa nuclear, convencido de que Saddam Hussein foi deposto, julgado e enforcado justamente por não dispor de armas de destruição em massa ; a posse de um arsenal químico foi a acusação invocada por Bush filho para justificar a invasão.

;Quem testa bombas nucleares e mísseis, eles convidam para a mesa. Quem não tem nada disso, eles atacam;, resume o emissário. A lógica, diz, não passará despercebida a nenhum outro adversário externo de Trump, agora que Kim Jong-un parece ter carimbado o passaporte para entrar na história da ;dinastia; fundada no fim da Segunda Guerra por seu avô, Kim Il-sung. As atenções se voltam agora para Teerã, na perspectiva de entender como o regime poderá reagir à eventual retirada dos EUA do acordo nuclear.

Mês quente
Maio reserva mais um compromisso tenso entre a diplomacia americana e um desafeto declarado ; no caso, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. No dia 20, ele disputa mais um mandato em eleição repudiada pela oposição. O único adversário será um dissidente chavista de credenciais duvidosas e, desde logo, sem qualquer chance de incomodar o atual mandatário. Washington já adiantou a disposição de não reconhecer o pleito nem o resultado, em bloco com ao menos 14 governos latino-americanos, inclusive o brasileiro.

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