"Maduro quer uma migalha de legitimidade"

"Maduro quer uma migalha de legitimidade"

Em visita ao Brasil, o ex-prefeito de Caracas e líder opositor no exílio denuncia como %u201Cfarsa%u201D a eleição presidencial de 20 de maio e insiste com o governo sobre a necessidade de sanções

Rodrigo Craveiro
postado em 28/04/2018 00:00
 (foto: Folhapress/Reuters/Adriano Machado)
(foto: Folhapress/Reuters/Adriano Machado)


Os anseios de liberdade calaram fundo na alma de Antonio Ledezma, 63 anos, desde que o então prefeito de Caracas foi preso pelo Serviço de Inteligência Bolivariano, em 19 de fevereiro de 2015, sob a acusação de envolvimento em um complô com os Estados Unidos para derrubar o presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Depois de quase três anos em prisão fechada e domiciliar, ele fugiu para a Colômbia. Ontem, Ledezma esteve em Brasília, onde se reuniu com parlamentares, foi convidado para um almoço com os presidentes Michel Temer e Sebastián Piñera (Chile) e foi condecorado pelo chanceler Aloysio Nunes Ferreira (foto). Em entrevista exclusiva ao Correio, por telefone, o ex-prefeito opositor classificou de ;fraude; as eleições presidenciais venezuelanas de 20 de maio e cobrou sanções contra o regime.


Como o senhor vê a disposição de Nicolás Maduro de realizar as eleições, mesmo
ante a condenação da comunidade internacional?

Maduro não pretende realizar eleições, mas consumar outra fraude. Ele é um mentiroso contumaz. Como todo ditador, se sente imune à condenação da comunidade internacional. Maduro deveria revisar a história e compreender que o destino da intolerância que ele tem manifestado é o mesmo de (Adolf) Hitler, (Benito) Mussolini e (Manuel) Noriega, do Panamá.

As eleições seriam um manobra de Maduro para mostrar que está disposto ao jogo democrático?
O que Maduro busca é uma migalha de legitimidade. Por isso, ele monta essa trama de uma eleição controlada. Trata de criar uma oposição à sua imagem e semelhança, que lhe sirva de cenário para tratar de legitimar a grande armadilha que montou.

O Brasil descartou impor mais sanções ao regime de Caracas. Que ações o senhor
espera de Brasília?

Nós queremos uma solidariedade efetiva. Uma maneira de colocar em marcha um plano de ações eficientes para conter a ditadura da Venezuela é ditar sanções personalizadas, como fizeram o Canadá, os Estados Unidos e a União Europeia. Com maiores razões, deveria também fazê-lo o nosso vizinho (Brasil), que também sofre os embates causados pela narcoditadura venezuelana. Não se trata de sanções contra a população, mas contra funcionários corruptos, comprometidos com o narcotráfico e com o terrorismo, diretamente responsáveis por violações dos direitos humanos elementares.

Quais sanções seriam necessárias?
Pedimos a identificação de funcionários que tenham relação com o narcotráfico. Também daqueles responsáveis por atos de corrupção, como Maduro, que está envolvido no escândalo da Odebrecht. Essa empresa envolveu os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, o vice-presidente do Equador (Jorge Glas) e o presidente do Peru (Pedro Pablo Kuczynski). Sabe-se que Maduro recebeu mais de US$ 35 milhões por contratos firmados com a Odebrecht. Pedimos, também, que se impulsionem os trâmites no Tribunal Penal Internacional.

Como o senhor vê a atual situação humanitária na Venezuela?
A situação é catastrófica: 87% da população vive em condições de pobreza; entre 61% e 77%, em estado de pobreza crítica. Nove em cada 10 venezuelanos não têm renda suficiente para adquirir a cesta básica, que custa mais do que 54 salários-mínimos. Um trabalhador não recebe sequer US$ 2 por mês. As condições da saúde pública são pavorosas. Nesta semana, foi divulgado um informe que apontou o ressurgimento de uma epidemia de malária. No ano passado, foram detectados mais de 500 mil casos. Mais de 300 mil crianças sofrem de sintomas crônicos de desnutrição. A insegurança é terrível. Temos os índices de criminalidade mais altos do mundo: 89 assassinatos por 100 mil habitantes.

Por que o senhor decidiu fugir da Venezuela?
Minha intenção foi recuperar a liberdade, como deve fazer todo o ser humano privado desse direito. Eu padeci de 35 meses de cárcere, mais de mil dias sem poder respirar a liberdade, sem ter o devido processo. Nesse período, tive apenas uma audiência e enfrentaria até 26 anos de prisão. A Venezuela se converteu no maior campo de concentração da história da humanidade. Ali se realizam políticas de extermínio e de genocídio em massa.

Há espaço para a democracia na Venezuela?
Por mais de 40 anos, desfrutamos de uma democracia que precisava ser aperfeiçoada, não naufragada por exponentes desse esquema populista repleto de anacronismos, o qual encarna o denominado projeto do ;socialismo do século 21;. O povo da Venezuela quer recuperar a sua democracia. Por isso, temos tentado soluções pacíficas e dado provas de nossa vontade e nosso desejo. Em 2016, propusemos um referendo revogatório que foi recusado pelo regime. Também aceitamos dialogar atendendo a um chamado do papa Francisco. Mas esse diálogo foi desvirtuado para que Maduro ganhasse tempo.


"Nós queremos uma solidariedade efetiva. Não se trata de sanções contra a população, mas contra funcionários corruptos, comprometidos com o narcotráfico e com o terrorismo;

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