Crônica da Cidade

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Figurinhas e resolução de ano-novo

por Humberto Rezende >> humbertorezende.df@dabr.com.br
postado em 28/04/2018 00:00
O calendário me avisa que hoje é Dia da Sogra e do Tai Chi Chuan. Mas a gente sabe que, agora, todo sábado é dia mesmo de trocar figurinhas da Copa do Mundo. Logo de manhã, gente de tudo quanto é idade se junta na frente das bancas de jornal atrás daquele cromo difícil de encontrar nos pacotinhos.

Eu olho admirado para essas pessoas. Na verdade, invejo o empenho delas, porque nunca completei um álbum. E olha que comecei a tentar no Mundial de 1982, quando as figurinhas vinham embrulhadas em chicletes. Ganhei umas cinco cáries de tanto mascar Ping Pong, mas não consegui fechar a coleção.

Gostaria de dizer que é azar, falta de habilidade para realizar trocas, mas sou obrigado a admitir que não termino por pura preguiça. Sou assim: sincero com meu leitor e preguiçoso. Tenho boas ideias, fico empolgado no começo, mas sou mestre em abandonar as coisas pela metade. Terminar algo, taí um troço difícil pra mim.

Para você ter uma ideia, levei oito anos e meio para me formar em jornalismo. Já estava trabalhando havia anos quando decidi voltar à faculdade e terminar o troço. Um dia, cheguei à sala de aula e encontrei uma colega de jornal, que seria a minha professora. Ela me olhou e perguntou: ;Essa turma é sua?; Eu disse que sim. Ela então pediu desculpa, pegou a bolsa e foi saindo. Percebi a confusão dela e tentei explicar: ;Não sou professor. Sou aluno;. A explicação só a deixou mais confusa.

Dia desses, fiquei pensando nas coisas que realizei até o fim, tentando descobrir o que elas têm de especial. Terminar o curso de jornalismo, pensei, foi necessidade. A falta do diploma começou a atrapalhar a carreira. Era uma questão de sobrevivência. Outra característica das coisas que concluo é a curta duração. Esta crônica, por exemplo, chegará ao fim, diferentemente dos livros iniciados e que estão em algum arquivo do meu computador à espera de dedicação. A outra é o prazer. Afinal, quando gosto mesmo de fazer alguma coisa, chego ao fim sem nem perceber.

E o que me falta? Disciplina, esse grande antídoto contra a preguiça. Por isso, depois de refletir sobre tudo isso, cheguei à minha resolução de ano-novo ; que, como bom procrastinador, só fiz agora, no fim de abril. Este ano, treinarei minha disciplina e buscarei ativamente as coisas que me dão prazer. Se melhorar nesses pontos, acho, serei mais feliz. E talvez consiga, finalmente, terminar um álbum de figurinhas.

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