O eclipse da política

O eclipse da política

Curso livre do ciclo Mutações discute a crise de representação, a era da fake news e a despolitização da era digital

Severino Francisco
postado em 28/04/2018 00:00
 (foto: Kleber Lima/CB/D.A Press - 1/8/11)
(foto: Kleber Lima/CB/D.A Press - 1/8/11)

A tecnociência provocou mutações vertiginosas no campo da política e tornou a todos cidadãos reféns da barbárie dos fatos. Os partidos se reduziram a siglas sem nenhuma identidade ideológica, as excelências parlamentares representam apenas a si mesmos, a corrupção se alastra de maneira sistêmica, a fragmentação confunde os cidadãos, as grandes corporações formam bancadas para defender seus interesses, as redes sociais oferecem a ilusão de participar da história com um simples clique de botão, o desencanto com a política leva as pessoas a cuidar de si mesmas em um sentido apolítico, o homo economicus e o homo conectius das redes sociais ocupam o primeiro plano da vida social, a democracia se degrada em notícia falsa, em fake news. Nesse cenário, pensar a política impõem-se como tarefa urgente. Animado por essa inquietação, Adauto Novaes organizou novo curso livre do ciclo Mutações ; A outra margem da política, que será realizado, de maneira simultânea, no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Belo Horizonte e em Brasília.

Em vez de escamotear os problemas, o curso propõe um corpo a corpo dramático com os desafios da crise de representação da política no contexto mais amplo do mundo globalizado. Os fatos científicos afetaram todas as esferas da vida cotidiana e impuseram a inconsistência, a fugacidade, a velocidade, a precisão e a racionalidade técnica, observa Adauto Novaes. Aboliram aquilo que permitia a precária ordem do mundo, isto é, o trabalho da razão, a relativa consistência e constância das coisas. ;A tecnociência ganhou autonomia e passou a definir a estrutura social e política;, afirma Adauto.

No campo da religião, o impacto da tecnociência é evidente. Em vez de destruir velhas crenças e opiniões, como propunham os iluministas, vê-se uma retomada da tradição e dos dogmas: ;O sentimento religioso passa a ter grande peso na política, o que, de certa maneira, é novo entre nós. Basta ver a enorme influência da bancada evangélica no Congresso e no Ministério da Cultura. Já aqueles que não partilham da fé religiosa praticam, em contrapartida, o culto do progresso da ciência e as invenções técnicas destinadas ao ;bem-estar; do homem comum;.

Em um mundo de fragmentação da vida social, cultural e política, na falta de mediadores entre os cidadãos e o Estado, as redes sociais ganham espaço e a maioria se considera qualificada para proferir sentenças sobre qualquer tema: ;Tudo vira opinião sem discernir o verdadeiro do falso;, comenta Adauto. ;Isso se expressa de maneira mais visível nas redes sociais: tudo vale tudo, tudo é verdade e falso, tudo é News e fake News;.

O poeta francês Paul Valery chamou o estado de coisas instaurado pela tecnociência de ;barbárie dos fatos;. Ela tende a abolir as coisas vagas, isto é, as abstrações e o pensamento, que ajudam a ordenar os sentimentos e as ações, os ideais estéticos e políticos, enfatiza Adauto. Por coisas vagas, entendia também os ideais políticos. ;Perguntamos: que ideais nos estruturam hoje, quando notamos uma enorme prevalência da ciência, da técnica e do domínio do capital financeiro em todas as áreas da política?;

Segundo Valéry, a ordem política exige a ação de presença de coisas ausentes (as utopias, os desejos de emancipação, as invenções artísticas). ;Sem elas o sujeito perde a forma, do ponto de vista moral, submetendo-se ao egoísmo ordinário dos fatos. São as coisas vagas que tornam possível o trabalho do espírito, esta ;potência de transformação; do próprio espírito;.




O escritor austríaco Robert Musil alertou: entramos na era do ;egoísmo organizado;. Para Musil, não apenas os Estados, mas também os indivíduos estão cada vez mais prisioneiros dos mercados e dependentes das lógicas financeiras: ;Esta maneira de contar com as más capacidades do homem consiste na especulação por baixo. Uma ordem em baixa consiste em trilhar a baixeza: tal é a ordem do mundo atual;

Uma política e uma democracia sem forma abrem espaço para conceber as mais disformes ideias de homem, enfatiza Adauto. ;Daí as características atuais de ;economicus;, ;conecticus;, ;pós-político;, ;neo-humano; ou ;simples dado abstrato da razão instrumental;. O que resta hoje, indaga Francis Wolf. ;Viver juntos? Não. O bem-viver em comum? Jamais. A vida apenas: a troca de bens e serviços, as duras necessidades do mercado. No lugar da ação política... apenas as atividades do dia a dia do homo economicus;.

O filósofo francês Frederic Gros questiona o automatismo do mundo regido pelas redes sociais e o homo conectius, a outra face do homo economicus. Tecnicamente é mais fácil para o cidadão exprimir-se em fóruns, defender posições, dar opinião, sem passar pelos corpos intermediários ; os partidos, os sindicatos e as mídias clássicas. ;Mas esta realidade atual é ambivalente;, comenta Gros: ;Acreditamos viver sob a democracia. Quando vivemos sob a autocracia do mercado.;

Em face dos desafios do mundo globalizado dominado pela tecnociência e pelos valores do mercado, as pessoas preferem cuidar de si mesmas num sentido rigorosamente apolítico, praticando de modo sistemático e sem grande escala o egoísmo, que não é apenas uma característica psicológica, mas um sucedâneo (mais seguro) da vida política, observa o filósofo Franklin Leopoldo e Silva. ;Mais seguro porque não humano ou pós-humano. O individualismo egoísta é uma técnica de cuidar de si completamente alheia a qualquer significado do ethos humano. Sua prevalência faz com que a política não tenha espaço;. Nesse contexto, pensar é uma forma de resistência fundamental, ressalta Adauto e cita Hana h Arendt: ; Renunciar a pensar é renunciar a ser homem;.



Programa de Brasília

Franklin Leopoldo, Eclipse da política
; 8 de maio

Nelson Bignotto, Apatia e desolação nas sociedades contemporâneas
; 9 de maio

Oswaldo Giacóia, Decadência e niilismo
; 10 de maio

Pedro Duarte, O sentido positivo da

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