Leonardo Cavalcanti

Leonardo Cavalcanti

Se do deputado Jair Bolsonaro não devemos esperar nada %u2014 há chance zero de o político sair da conversa rasa %u2014, da ex-presidente Dilma e do ministro Jungmann resta-nos a confusão com palavras e ideias

por Leonardo Cavalcanti leonardocavalcanti.df@dabr.com.br
postado em 14/05/2018 00:00


Um debate mais do que tortuoso
A covardia e os crimes dos militares nos anos de chumbo devem ser expostos em todas oportunidades. Assim, o debate sobre o memorando da agência de inteligência dos EUA, a CIA, ; divulgado pelo prestigioso pesquisador Matias Specktor, da Fundação Getulio Vargas (FGV) ; é fundamental. Falo o óbvio, pois, após a descoberta vir a público, acadêmicos e jornalistas iniciaram uma guerra de vaidades sobre o valor do documento, liberado pelo Departamento de Estado do governo americano há três anos. Na lógica perversa desses ;intelectuais;, o memorando não apresenta nenhuma novidade, além do que já foi dito por eles mesmos em teses e reportagens. Besteira, não passam de caranguejos no caçuá, um tentando derrubar o outro pelas pernas, sem compromisso com a história.

O silêncio da caserna e a velha desculpa da queima dos arquivos levam os verdadeiros defensores da democracia a exaltar cada passo que possa ser dado em busca da luz. Assim, é preciso escancarar a discussão sobre a reunião de 30 de março de 1974, entre três generais e o presidente Ernesto Geisel. Como agora se sabe, o memorando revela que Milton Tavares de Souza anunciou a execução de 104 pessoas pelo Centro de Informação do Exército (CIE) entre 1972 e 1974. Enquanto João Baptista Figueiredo defendeu a continuidade da ação, Geisel pediu para pensar ao longo de 48h de um fim de semana. Ao voltar ao trabalho, na segunda-feira, concordou com a manutenção do massacre. A partir dali, mais 89 pessoas foram executadas, além dos 312 já mortos nos meses anteriores a março de 1974.

A estupidez
Se o debate deve ser ampliado, temos de conviver com a estupidez das frases de Bolsonaro, um político que não sai do óbvio, além do discurso irresponsável de armar a população. Ao falar sobre o memorando descoberto por Specktor, o deputado federal saiu com a pérola: ;Até na tua casa, com todo respeito, de vez em quando você erra. Quem nunca deu um tapa no bumbum do filho e depois se arrependeu? Acontece, tá?;, afirmou Bolsonaro, em entrevista à Rádio Super Notícia. Seria possível gastar mais espaço com o deputado, mas de certa é isso que ele quer. Tal frase, entretanto, não ganhará um rodapé na história do país. Por mais que a superficialidade de Bolsonaro precise ser desmascarada, desenvolver mais sobre a declaração, com todo o respeito ao debate, não dá.

O prestígio
Assim passemos para o ministro extraordinário da Segurança Pública, Raul Jungmann, que até começou bem: ;É preciso ter acesso oficial de governo a governo para se poder fazer um comentário que se possa e que se deva fazer no caso de as informações serem, de fato, confirmadas;. Poderia ter parado por ali, mesmo sem se posicionar. Jungmann, um político mais sofisticado, que teve um passado em defesa do desarmamento da população, não se segurou. Disse que o ;prestígio das Forças Armadas permanece nos mesmos níveis em que se encontram até aqui;. E continuou: ;Por uma razão muito simples: as Forças Armadas brasileiras são um ativo democrático que o país hoje tem. E isso, evidentemente, que não é tocado por uma reportagem;. O que tem a ver um memorando que expõe a decisão dos militares em continuar uma política de extermínio na década de 1970 com a ação militar hoje em dia?;

O desencontro
Por fim, chegamos à ex-presidente Dilma Rousseff, que nunca foi conhecida pela clareza nas palavras. Na conta do Twitter, a petista disse, entre outras coisas, que ;a mídia tenta agora usar o golpe de 1964, do qual foi cúmplice, para encobrir o golpe de 2016;. Pelo menos uma parte na frase de Dilma é de uma injustiça sem tamanho. Ao longo dos últimos 40 anos, a imprensa sempre deu espaço às investigações dos crimes da ditadura, reservando páginas e os melhores repórteres das redações para estampar e cobrir o tema. Boa parte das contribuições para se entender o período veio da tal mídia. Os prêmios Vladimir Herzog e Esso, além de tantos outros, são as provas da dedicação de jornalistas para contar os crimes dos generais. A vaidade, o ódio, o agrado desmedido e a desonestidade intelectual cegam o debate. Perdemos todos.

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