Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Mariana Niederauer >> mariananiederauer.df@dabr.com.br
postado em 14/05/2018 00:00
O trabalho e os desafios

O ofício é delicado. Qualquer ponto fora do lugar pode provocar verdadeiro estrago. Hoje em dia, não sabe nem mais como classificar o metiê. Arte(sanato), antiguidade, vintage, boho chic; A crise de identidade bateu.

Caminha pelo Setor Comercial como se estivesse em casa, apesar de morar no sobrado alugado numa casa nas 700, às margens da W3. O barulho dos veículos arrastando as rodas no asfalto virou sinfonia. Até dispensa o toca-discos, antigamente companheiro inseparável na hora do labor.

Antes de chegar ao destino final e entregar o resultado daqueles últimos dias quebrando a cabeça entrelaçando as peças, contempla o prédio alto que contrasta com o traço azul do céu. Pode servir de inspiração à próxima obra. Imaginar o trançado de aço, cimento, vidro, canos, fios e fibra ótica que passa pelas paredes e se estende por dezenas de metros ajuda a montar o quebra-cabeça mental.

Outro dia, conversando com o jornaleiro, teve o diagnóstico fatal da falta de criatividade: vive-se pouco. E não poucos anos, veja bem. A longevidade aumentou, alerta o Ministério da Saúde, mas ainda não se aprendeu a aproveitá-la. Afinal, quem foi que ensinou? Acha que é fácil sair sorrindo por aí, dando bom dia a desconhecidos, distribuindo abraços a estranhos que retribuem com olhares tortos? ;Só pode ser louco;, imaginam, decerto.

Então vamos brindar a loucura! Eureca! Enquanto aguardava o retorno do cliente e depois de entregar o serviço conforme contratado, andou por horas debaixo de sol a pino e chegou, finalmente, à resposta.

É a epifania contemporânea. Como coelhos e Alices que comemoram desaniversários, descobriu que não precisa haver motivo para celebrar. Quando a gente quer mesmo, bem lá no fundo, a vida é uma festa. Contra tudo e contra todos, a união faz a força, para citar ainda mais clichês encaixados em ditos populares. Afinal, de médico e de louco todo mundo tem um pouco.

No dia seguinte, saiu pelas ruas feito profeta Gentileza, distribuindo carinhos aos que passavam apressados. Tamanha dedicação à humanidade nem Marisa Monte previu em seus versos. Sem se importar com a data ; Dia das Mães, dos Pais, do Trabalhor; Natal ou ano-novo ;, lá estava ele.

Até que cansou de novo. Foi buscar inspiração para a nova obra nos haikais, mas, no fim das contas, acabou mesmo revisitando uma velha ideia guardada no fundo da gaveta. Tratou de refazer, pincelar os cantos maltratados pelo tempo e restaurar. O desafio metalinguístico se impôs. Trabalho desafiador esse do cronista.

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