Coração partido

Coração partido

» MARCELO COUTINHO - Escritor
postado em 27/05/2018 00:00

Os franceses têm uma expressão muito interessante para aquele característico quase desfalecimento imediato e posterior ao orgasmo. ;La petite mort;, a pequena morte, quando dois amantes chegam ao fim do prazer e, após respiração ofegante, praticamente desmaiam em êxtase um sobre o outro sem mais uma gota de energia e fôlego. Esse talvez seja o único tipo de morte pelo qual ansiamos, afinal. O prazer supremo da vida se tornou o gozo que nos tira a consciência por alguns instantes. Somos, então, plenamente felizes quando a mente se apaga, e a alma parece que se vai do corpo, deixando apenas um breve sorriso no canto da boca.


O hedonismo totalitário que preenche o âmago das sociedades atuais é fruto, ele mesmo, do profundo vazio de ideais que nos cerca. Se antes queríamos o prazer pelo prazer entre uma atividade e outra sacrificante, agora a busca incansável do regozijo nos escraviza porque, em paradoxo, ainda com tantos problemas, não restaria mais nada pelo que lutar. Mais do que um mundo sem ideologias ou romantismo de castelos, temos um mundo sem sentido além da festa e da curtição. Não há sequer compromisso com quem está na nossa cama. E pelo andar da carruagem eletrônica, logo nem precisará haver alguém ao lado. A ausência de ideais chegou ao amor. E, como diz a música, ;o amor é a coisa mais triste quando se desfaz;.


Um coração partido é sofrimento recorrente nas vidas privadas. Todos sabem o enredo dessa história. Um casal apaixonado faz lindas juras de amor até que um deles decepciona o outro, em geral, com uma terceira pessoa envolvida. Aliás, a palavra decepcionar foi feita sob medida para os amantes. É vocábulo próprio deles. Você pode se frustrar por qualquer coisa. Porém, decepciona-se apenas por alguém ou um projeto de vida que amou verdadeiramente. Nesse momento, seu coração se despedaça em outro tipo de morte. O chão se abre, você cai em um buraco escuro e infeliz, até partir seu peito em dois num choque brutal, separando-se muito mais do que do outro, de você mesmo, ou de uma parte que por tanto sonhou através do ser amado.


Quando o amor fere de morte é porque seu companheiro ou companheira faz algo que você jamais pensou que pudesse fazer contra essa união romântica numa inversão completa de expectativas muito violenta. Gera-se um trauma tão grande que, com frequência, demora-se muito tempo para amar de novo, seja por medo, cansaço ou pior, total secura d;alma, quando um vale morto e pedregoso se instala por definitivo onde outrora olhos que sorriem floriam em campos verdejantes cujas extensões iam para muito além do sexo. O desencanto com o amor chega a ser tão avassalador que a pessoa amarga faz agora picardias e deboches com quem demonstra ainda capacidade de amar, como se desafiasse Fernando Pessoa e dissesse: sim, todas as cartas de amor são ridículas, e ainda mais desprezíveis são os que continuam a escrevê-las, pois sofreriam de algum dano mental ou perversão patológica.


Assim como os indivíduos que a compõem, a sociedade contemporânea parece ter seu coração partido. O deserto de ideais que alimenta o hedonismo absolutista nos dias de hoje foi deixado por uma gigantesca decepção. Mas que detonação atômica contra o amor ao próximo foi essa no seio da sociedade? Tal questão deveria ser da maior urgência para as ciências sociais tentarem responder no século 21. Modestamente, lanço aqui apenas uma hipótese, uma suspeita ancorada no conceito de solidariedade provisória com o qual tenho trabalhado e agora numa referência à decepção amorosa. A sociedade partiu seu coração quando descobriu que seus ideais a traíam, transformando-se em autoritarismo, corrupção e violência. A sociedade dormiu com princípios que contra ela conspiram em silêncio.


Assim como amantes que, após muitas relações ardentes nas quais experimentam de tudo, perdem o bom feitiço e passam depois a nutrir até certa repulsa por quem outrora estimou, a sociedade também dá indícios agora de ter se cansado de tantos ismos panfletariamente propagados, virando, então, cética e cínica. Temos, desse modo, uma geração de desapaixonados. Uma sucessão de petites morts e desapontamentos nos levou a uma grande morte na ligação social entre as pessoas. Com tantos dispostos a mentir para proteger a si mesmos, todos demonstraram que o egoísmo é um princípio mais importante do que a compaixão. Daí o vazio idealista na era global farta de ideias disponíveis. O coração partido da sociedade nem mais chora sua perda, ainda que vagamente se emocione, por algumas horas, com o casamento de novos príncipes como se revisitasse fotos e cartas antigas. A verdade é que hoje as minhas (nossas) memórias dessas cartas de amor é que são ridículas.

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