Na labuta por mais tempo

Na labuta por mais tempo

Trabalhar cerca de sete décadas ao longo da vida pode ser realidade para as novas gerações. Empregadores e empregados precisam se preparar para um novo mercado de trabalho, em que pessoas mais novas e mais velhas terão de conviver em harmonia a fim de obter bons resultados

» Eduarda Esposito*
postado em 27/05/2018 00:00
 (foto: Reprodução/Facebook)
(foto: Reprodução/Facebook)

Sair da adolescência para encarar as responsabilidades da vida adulta é um desafio para jovens que estão iniciando a carreira. Não é raro se sentir perdido em meio a tantas obrigações e cobranças. O cenário pode parecer ainda mais desesperador quando se visualiza um futuro sem perspectivas seguras de quando se poderá parar de trabalhar. A geração Y, que atualmente tem de 23 a 37 anos, é apontada como o grupo que passará mais tempo no mercado de trabalho. Esses profissionais devem trabalhar, ao longo da vida, por 70 anos e estima-se que parte deles nunca se aposente. O cálculo é de Sidnei Oliveira, administrador e consultor de carreiras. Ele apresentou esse dado durante evento na Câmara Americana de Comércio (Amcham) e baseou a conclusão em fatores como o aumento da longevidade e a diminuição do número de filhos (a média por mulher passou de 3,45 na década de 1980 para 1,78 atualmente).

Em 30 anos, a expectativa de vida dos brasileiros se tornou oito anos e meio maior, passando de 65,8 anos, em 1985, para 74,4 anos, em 2015, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). ;Em 1990, as pessoas que chegavam aos 60 anos teriam mais uns cinco pela frente. Agora um indivíduo com a mesma idade tem mais uns 20 para viver;, compara Sidnei. Fundador da Escola de Mentores, ele acredita que essa média crescerá ainda mais. ;Vem aumentando sistematicamente. Se alguém de 50 anos hoje pode chegar a viver até em torno de 90, quanto tempo de vida um jovem de 20, que acaba de entrar no mercado de trabalho, deve considerar alcançar?;, questiona o publicitário, autor de livros como Cicatrizes ; os desafios de amadurecer no século 21. Avanços na saúde e na educação estão por trás das melhorias em qualidade e expectativa de vida e são uma tendência mundial.

Por isso, os países precisam e têm começado a repensar seus sistemas previdenciários ; o exemplo brasileiro é a proposta de reforma da previdência feita pelo governo de Michel Temer, que gerou polêmica e não saiu do papel. Segundo Sidnei, no futuro, a ideia de aposentadoria será um conceito diferente do que se conhece hoje, já que a probabilidade de a juventude atual viver ao menos 90 anos e trabalhar por no mínimo 70 é muito grande. Sidnei acredita que uma solução para tirar o melhor proveito das pessoas mais velhas no mercado de trabalho é torná-las mentoras de quem acaba de entrar na empresa. ;Daqui a uns cinco anos, mentoria será também uma nova forma de trabalho. Acho que esse cenário é muito positivo para o pessoal mais maduro e vai ocorrer justamente por causa desse aumento da expectativa de vida e da necessidade de continuar trabalhando por mais tempo;, afirma.

Contraponto
Rogério Nagamine, coordenador de Seguridade Social do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), não tem definições fechadas sobre a duração da geração Y no mercado de trabalho. ;Não necessariamente as pessoas passarão 70 anos no mercado. O que podemos afirmar é que a expectativa de vida está aumentando e, com esse crescimento, é natural esperar que se trabalhe até mais tarde;, comenta. ;Além disso, a permanência no mundo laboral depende das regras previdenciárias;, diz. De acordo com dados do IBGE, 30% da população brasileira será formada por pessoas com mais de 50 anos em 2028. O economista observa que a atual taxa brasileira de participação no mercado de trabalho aos 50 anos (cerca de 78%) começa a sofrer diminuição, já que, aos 54, esse percentual se encontra em torno de 70%, passando para 60% aos 60 anos.

Para aumentar esse índice (algo importante já que boa parte da mão de obra será formada por essa faixa etária), é necessária a implantação de políticas públicas de incentivo e mudança nas regras previdenciárias. ;As empresas precisarão se adaptar aos empregados de 50 e 60 anos. Será algo diferente porque, antes, o foco estava nos jovens. Investir em requalificação para essas pessoas e desenvolver uma cultura de aprendizado ao longo de toda a vida será importante;, propõe. ;A taxa de participação no mercado que, na faixa dos 40 anos, fica em 80%, cai para o patamar de 70% na faixa de 50 a 54 e de 60% na faixa de 55 a 59. Uma queda muito expressiva na faixa dos 50 anos;, justifica. O envelhecimento da população é realidade e, ante a um cenário em que poucos guardam dinheiro para usar na terceira idade, é certo que o os locais de trabalho terão mais empregados com perfil sênior.

Nagamine comenta ainda que a taxa de desemprego entre cinquentões é menor do que se imagina (cerca de 3,6%), percentual que pode ser ainda mais baixo com qualificação. ;Existe exagero em relação à questão das pessoas dessa idade no mercado de trabalho. Acredita-se que alguém de 50 anos não consegue encontrar emprego de jeito nenhum. Mas os dados demonstram que as taxas de desemprego nessa faixa são pequenas e, se o trabalho tiver ensino superior completo, o nível de desocupação é ainda mais baixo, algo em torno de 2,6%;, comenta. Além de maior escolaridade, faz-se necessária atualização constante. ;Será preciso fazer requalificações ao longo da vida;, pontua.

Adaptações necessárias
Será que os ambientes corporativos estão prontos para essas mudanças de faixa etária? Por enquanto, não. Então, é preciso começar a se preparar e a se adaptar. De acordo com Sidnei Oliveira, o mais comum, hoje em dia, é ver pessoas de 25 anos convivendo com outras na casa dos 40. Agora, quando for preciso conciliar jovens trabalhadores com outros bem mais experientes, lá pelos 70, 80 ou até 90 anos, problemas de convivência podem surgir. ;Como os mais antigos cometem menos erros concretos, a tendência das empresas é delegar os desafios mais relevantes a eles, e os menos importantes aos jovens. Só que, aí, os novatos não se sentirão desafiados e preferirão ir embora, enquanto os veteranos respirarão aliviados por permanecerem empregados fazendo de tudo para não sair;, observa. O consultor não vê a competitividade como algo negativo, desde que a rivalidade não seja predatória, a fim de que todos possam aprender uns com os outros. Para garantir que isso seja possível, entra em campo o papel mediador das empresas e dos líderes.

;A mentoria seria perfeita para conciliar os dois grupos;, ensina. Também deverá partir dos próprios trabalhadores uma atitude positiva e aberta para tirar o melhor de cada grupo etário. Uma boa notícia, na visão de Sidnei, é que não só os jovens têm demonstrado vontade de aprender. Um sinal disso é que no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2017, grande porta de acesso a cursos superiores, 28% dos inscritos tinham mais de 45 anos. ;Uma pessoa de 50 anos hoje tem, pelo menos, 40, 45 pela frente e percebe que se aposentar n

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