A demissão não é o fim do mundo

A demissão não é o fim do mundo

Essa foi a lição que uma designer gráfica carioca aprendeu depois de ter sido demitida. Ela resolveu encarar a situação com bom humor e escreveu um livro sobre o assunto, com o qual profissionais que enfrentaram o problema podem se identificar

Gabriela Andrade*
postado em 27/05/2018 00:00
 (foto:  Mauro Pinheiro Jr/Divulgação)
(foto: Mauro Pinheiro Jr/Divulgação)

Ser demitido não é uma situação agradável, mas, em período de crises, se torna cada vez mais comum. Quem passa por isso pode pensar que chegou ao fundo do poço profissional, mas a saída, como ensina Julia W;hmann, não é se desesperar. Este é um momento de se reconstruir e se redescobrir. E tudo fica mais fácil com uma dose de bom humor e o apoio de amigos e familiares. Essas são algumas das lições que ela ensina no livro Manual da demissão, lançado este ano. Os ensinamentos têm base biográfica, já que, em 2015, a carioca foi desligada de uma editora onde tralhava há quatro anos e meio como assistente editorial. Na época, a instituição fez cortes em massa. A designer gráfica conta a experiência de ser demitida de forma engraçada, misturando sarcasmo, ficção e realidade. ;Nem tudo que está no livro é real. Algumas partes foram fantasia em cima de inspirações reais;, explica.

A narrativa acompanha uma protagonista que não só foi dispensada do trabalho, como enfrenta o fim de um relacionamento amoroso. Para se recuperar de ;um pé na bunda duplo;, acompanha e se solidariza com amigos que estão na mesma situação. A personagem era apegada ao emprego e guarda, em casa, vários objetos com pertences do antigo escritório. Agora, precisa achar jeitos de refazer a vida enquanto enfrenta filas para resolver burocracias relacionadas a seguro-desemprego e FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço). Uma das conclusões da obra é que é preciso preparar o socioemocional para lidar com momentos como este. Outro conselho é tirar ânimo e inspiração de livros, filmes e músicas (o livro traz inclusive um link com uma playlist batizada de ;a trilha sonora dos demitidos;). Julia é autora ainda de Cravos, Diário de Moscou e André quer transar. Atualmente, faz trabalhos como freelance.

Qual foi sua reação ao ser demitida?
Não conseguía ficar parada sofrendo e chorando por muito tempo. No entanto, quando uma pessoa se vê sem saída, está aí uma oportunidade para desenvolver novas habilidades. É uma chance de explorar outras possibilidades, pois desemprego é um ;buraco bem mais embaixo; para uma série de pessoas.

Por que ficar desempregado não é o fim do mundo?
Para muita gente, é uma questão muito mais grave do que foi para mim, então, é delicado estabelecer isso. Poder escrever um livro sobre um assunto complicado, de certa forma, é saber que isso não é o fim do mundo, justamente porque eu tive apoio familiar para que eu tivesse tempo para escrevê-lo e não me desesperasse completamente.

Como foi seu processo de reinvenção?
Eu diria que foi uma terapia, ou seja, tratar uma questão delicada em um momento frustrante. O livro foi uma forma de autoajuda e não exatamente de reinvenção, pois eu escrevi outras obras e isso me permitiu tratar do assunto de forma debochada. Esse humor que é retratado nas páginas é um disfarce, pois trata de demissão, que é um cenário triste.

Por que decidiu transformar a sua experiência de desligamento em livro?
Passei por uma demissão, eu trabalhava em uma editora na época, mas foi um período em que muita gente foi mandada embora. Na verdade, os desligamentos aconteceram em todos os setores, e eu entrei nesse pacote. Então, o livro partiu de uma experiência que eu vivi, mas que é coletiva, porque a gente vê desemprego crescente, desânimo e falta de perspectiva. Eu acho que foi uma forma de lidar com esse vazio e, até, uma maneira de me colocar em movimento e fazer do limão uma limonada.

Qual é a dica para pessoas mque ficaram desempregadas depois de trabalharam por anos na mesma empresa? Dá para tirar algo bom disso?

Não existe uma. É claro que, no livro, têm várias inspirações reais, mas tem ficção também. Estamos em um momento bastante difícil em todas as áreas. É complexo não se abalar com o Brasil contemporâneo, mas uma coisa que eu acho que esses momentos proporcionam para todo mundo é a chance de começar a se articular, pensar, ter ideias e buscar saídas criativas... No meu caso foi escrever o livro.

Qual a receita para encarar o desemprego com bom humor?
Não tem receita, não tem um passo a passo a seguir. É muito de cada um, é de como a gente escolhe encarar a situação e eu optei por essa forma. O humor foi a minha escolha. Isso tem muito a ver comigo e com a maneira que vejo o mundo, com meu jeito de lidar e enxergar as coisas. Eu também não queria escrever algo que fosse muito deprimente para o leitor. Acho que o mundo real já está muito difícil, então, na literatura, tentei fazer algo menos trágico, apesar de estar tratando de uma questão difícil, complicada e dolorida.

A demissão mudou seus hábitos?
Muda a rotina inteira, eu tinha um cotidiano burocrático, pois trabalhava em horário empresarial, minha vida era organizada toda ao redor disso. Sem esse dia a dia, realmente muda totalmente o cotidiano. Enquanto eu trabalhava em empresa, ficava entre 10 e 11 horas por dia em função de deslocamento do trabalho para casa e vice-versa. Antes, eu não fazia atividade física e a minha própria comida, agora eu faço, tenho mais tempo para viver com mais qualidade de vida.

Existe um limite para se doar a uma profissão?
Isso é uma escolha. Tem muito a ver com o tipo de trabalho exercido também. Imagino que alguém que está mais envolvido com questões burocráticas não tem o mesmo envolvimento que o trabalho de um médico tem, por exemplo.

Leia!

Manual da demissão
Autora: Julia W;hmann
Editora: Record
144 páginas
R$ 32,90

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