Bruce Dickinson além do rock

Bruce Dickinson além do rock

Vocalista do Iron Maiden conta em entrevista exclusiva ao Correio detalhes de autobiografia. Ele revela que superar um câncer mudou a maneira como vê a vida

Alexandre de Paula
postado em 27/05/2018 00:00
 (foto: Paul Harries/Divulgação)
(foto: Paul Harries/Divulgação)
Vocalista do Iron Maiden, uma das maiores bandas de heavy metal de todos os tempos, Bruce Dickinson não quer ser visto apenas como um rockstar. A vida dele vai muito além, segundo o britânico, dos excessos e dos clichês geralmente associados às celebridades do gênero. ;Há muito mais sobre mim;, garante Dickinson em entrevista exclusiva ao Correio.

Foi justamente para provar isso que ele resolveu ceder aos apelos de publicar uma nova biografia (há uma publicação não autorizada), em que são contados diversos detalhes da trajetória do músico. Dickinson, no entanto, quis dar a própria versão dos fatos e decidiu escrever ele mesmo a obra. O resultado são as 320 páginas de Bruce Dickinson: Uma autobiografia, lançado no Brasil recentemente pela editora Intrínseca.

Boa parte do livro trata da superação de um câncer de língua. Dickinson foi diagnosticado com a doença em 2014. A cura, ele conta, mudou a visão que tinha da vida e o motivou a seguir um cotidiano mais saudável. ;Isso te faz lembrar da imortalidade, que você não tem tempo ilimitado, então, siga em frente e apenas viva;, aconselha.

A obra é o terceiro livro do músico, mas Dickinson afirma que as experiências anteriores, por se tratarem de ficção, não ajudaram muito desta vez. ;Este livro é muito diferente. Eu simplesmente comecei do início e contei histórias.; A estratégia fez com que ele escrevesse demais. ;Cortamos um monte de material.;

Além da música, Dickinson se aventura por áreas como aviação, esgrima e pela própria escrita. O segredo para conseguir fazer tudo bem, ele diz, é ter uma equipe em que se possa confiar. ;O ponto, seja uma banda de rock ou um negócio da aviação, é que você tem que criar uma equipe. Você não pode ser uma banda de um homem só, em qualquer sentido;, explica.




Entrevista / Bruce Dickinson

No livro, você foge dos clichês associados aos rockstars, como sexo, drogas... Você queria mostrar que sua vida vai além disso?
A minha existência sempre foi um pouco além disso de qualquer maneira. O livro apenas reflete a realidade do que a minha vida é para mim. A percepção que outras pessoas têm da minha vida é, obviamente, filtrada através da lente de publicidade do Iron Maiden ou dos fã-clubes do Iron Maiden. Mas há muito mais sobre mim. Portanto, é por isso que o livro é diferente dos clichês.

O livro, mesmo fugindo desses padrões (não tem aquela coisa clássica de excesso,brigas e tumultos...), mantém o leitor muito interessado. Como foi a escrita? Seus outros livros ajudaram neste processo?
Os outros dois livros que eu escrevi foram ficcionais, com pegada fantástica. Esta obra é muito diferente. Eu simplesmente comecei no início e contei histórias. Escrevi, provavelmente, cerca de 40 mil palavras ; demais para o que a editora julgava realmente necessário. Nós estávamos buscando um tamanho bom para o livro e Jack Fogg, meu editor, queria lê-lo como um romance. E um romance, obviamente, tem uma narrativa, portanto, escrevi a história como se estivesse, ao longo do livro, em uma viagem. A edição não levou tanto tempo, mas nós cortamos um monte de material.

Quando você percebeu que sua vida poderia inspirar um bom livro? E por que você quis escrevê-lo sozinho?
Eu pensei simplesmente no fato de que havia um interesse muito grande em uma biografia sobre mim. Provavelmente, só porque eu sou tão famoso. Mas eu pensei que havia um monte de coisas que eu fiz que foram mais interessante do que apenas ser famoso. Demorou um pouco para eu concordar em escrever isso porque eu queria que fosse minha própria voz e não a de um ghostwriter. Porque, bem, vários deles são bons escritores, mas eles não estão dizendo realmente a verdade; eles estão fazendo uma interpretação do que você está dizendo. Foi por isso que eu decidi escrever.

Aviões, esgrima, a escrita... Como conciliar tudo isso com a rotina de ummúsico extremamente bem-sucedido?
Sou razoavelmente bom em malabarismo e tenho que usar e aproveitar as oportunidades quando elas surgem. Então, quando eu estou em turnê com o Iron Maiden, a minha prioridade é estar em turnê com o Iron Maiden. Mas as outras coisas que eu faço não param. O ponto, seja uma banda de rock ou um negócio da aviação, é que você tem que criar uma equipe. Você não pode ser uma banda de um homem só, em qualquer sentido, em qualquer uma dessas profissões. E, assim, você monta uma equipe que possa trabalhar e tomar decisões sem você. Obviamente, eu me mantenho informado, mas eu não preciso me levantar de manhã e ir verificar se o palco do Iron Maiden está sendo colocado direito. Porque eu sei que tenho uma grande equipe que está fazendo isso por mim.

Você fala, no livro, sobre uma forte ligação com o Iron Maiden antes mesmo de se juntar à banda. Você diz que percebeu, ao vê-los tocando, que se encaixaria bem lá.O que levou a isso? O que fez o Iron Maiden conquistá-lo dessa forma?
Acho que foi apenas um link para o mesmo sentimento que tive quando ouvi pela primeira vez Speed king, do Deep Purple, quando eu tinha 13, 14 anos de idade. Foi superemocionante. Foi esse sentimento que tive quando eu vi o Iron Maiden pela primeira vez entrando no palco. Era exatamente a mesma sensação na boca do estômago, na base de sua espinha, como queiram chamar. E é por isso que eu pensei que me encaixaria ali. Não era lógico, mas apenas emocional.

Fica claro que você sempre quer permanecer ativo, seguindo em frente... Existe ainda algum sonho, algum desejo (profissional ou não) que você queira realizar?
Acho que se eu ainda puder fazer o que estou fazendo agora com 80 anos já seria brilhante!

O câncer que você enfrentou ocupa uma parte substancial do livro. Ele significou para você uma mudança no estilo devida ou na maneira de ver a vida?
Eu suponho que até certo ponto, sim. Costumo pensar um pouco mais profundamente sobre o futuro. Estou completamente livre de tudo agora, saudável e muito feliz. Mas isso te faz lembrar da imortalidade, que você não tem tempo ilimitado, então, siga em frente e apenas viva. Mas não apenas fique vivo. Isso é uma questão, a outra é que existem algumas pequenas coisas que mudaram fisicamente. E eu preciso dizer que algumas delas, de certa forma, para melhor. Eu costumava comer muito açúcar e não como mais porque eu não posso. É uma coisa bem pequena e bizarra, mas eu realmente acho bem mais fácil continuar

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