Os jogos como herança

Os jogos como herança

postado em 27/05/2018 00:00
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Aos 5 anos, Arthus Okada, 25, já se arriscava no War e no Banco Imobiliário. Com o avô, a diversão nos jogos de xadrez era garantida. Com a família, o músico e professor desenvolvia noções de competitividade e aprendia a perder ou ganhar. ;Quando meu avô me ensinava xadrez, ele não perdia de forma alguma. Então, eu sempre me esforçava bastante para ganhar. Isso, de certa forma, me deu senso para essas coisas.;

Foi aos 18 anos, quando um amigo abriu um bar de jogos de tabuleiro que Arthus começou a ter verdadeiro contato com os títulos mais modernos, tanto para jogar quanto para aprender novas regras. Como monitor de jogos, a paixão foi apenas reforçada ; não há uma semana que ele deixe de jogar, seja em casa, seja na casa de amigos. ;O meu ciclo de amizades se formou todo nessa época. São muitas histórias e experiências divertidas;, lembra. Para o rapaz, diferentemente do que ocorre nos jogos on-line, os de tabuleiro proporcionam encontros calorosos, com conversas e piadas.

Quando perguntado sobre seus títulos favoritos, Arthus pede até um momento passa pensar. A lista é grande: Magic, Carcassone, Pandemic são apenas alguns dos boardgames favoritos. O hobby também auxilia o músico durante as aulas na graduação. ;A ludicidade está presente como forma de educação, e acho muito interessante essa questão do jogo poder ajudar. Como professor, uso os jogos para ensinar;, completa.



Paixão para colecionar

Bastou o primeiro contato com os livros da saga Senhor dos Anéis, aos 11, para que Gustavo Gil, 41, passasse a carregar o título de nerd com muito orgulho. Ele brinca que o universo da fantasia é um caminho sem volta e conta que a introdução aos jogos de tabuleiro, assim como para tantas outras pessoas, começou no famoso Banco Imobiliário ; na época, a variedade dos títulos ainda era bem reduzida.

;Sempre joguei com os amigos da escola, mas o meu forte era o RPG, como é até hoje.; Os boardgames modernos apareceram na vida do publicitário em 2004 ; paixão também quase imediata. ;Curto muito porque, além de estimular a criatividade, é uma diversão sadia entre amigos. Os jogos são caros porque o mercado está muito aquecido, mas, para quem gosta, vale a pena.;

Já com os próprios gostos desenvolvidos, Gustavo começou a comprar os jogos de tabuleiro de que mais gostava para colecionar: atualmente, são mais de 120 títulos, o que, segundo ele, é pouco perto de tantas opções existentes. Toda semana, o encontro com os amigos é programa certo. ;Quarta, é dia lá em casa. Ficamos a noite toda jogando, comendo e bebendo. É religioso.;.

O colecionador explica que os boardgames atuais são muito diferentes do papelão de antigamente. ;É algo que nos convida a jogar. Um hobby construtivo, em que ninguém está apostando nada. São jogos estratégicos, que estimulam nossa inteligência.; Mesmo jogando em casa, a diversão pela cidade também é uma boa aposta. ;Existem muitos eventos em que podemos ver pessoas novas, novidades e estratégias que não conhecíamos antes;, comemora.

Além de acompanhar as novidades sobre o tema em feiras e no mercado internacional, Gustavo aproveita o tempo livre para compartilhar um pouco de sua paixão com o filho, Gabriel, de 9 anos. ;Quero que ele perceba o valor nessas coisas, pois acho um hábito saudável. Os jogos estimulam a criatividade, a fantasia e o raciocínio lógico dentro de temas lúdicos. Melhor do que um jogo de videogame, por exemplo;, ressalta.

Mundo medieval

Quem passa pelo hall de entrada já começa a imaginar as surpresas de um mundo medieval. No Carcassone Pub, cortinas vermelhas, mesas de madeira e uma decoração um tanto peculiar fazem do local quase que uma história dos jogos de RPG (role-playing game ; em português, jogo de interpretação de papéis). São poucos instantes para que os jogadores estejam completamente desligados do celular, da internet e do mundo lá fora.

E esse, segundo os donos, é o principal objetivo do negócio, pensado não como uma casa de jogos, mas, sim, como um pub, com um toque familiar. Salimar Morais, 34, e Fábio Almeida, 38, explicam: a ideia surgiu quando os dois fizeram uma viagem para a Europa, em 2009. O casal, como todo bom curioso, preferia conhecer os costumes das cidades e ir a bares onde todos iam, não apenas a pontos turísticos.

;Em uma ocasião, fomos a um restaurante em que os donos disponibilizaram para os clientes coisas pessoais, como livros ou jogos. Ficamos encantados e, de volta ao Brasil, queríamos algo parecido;, conta Salimar, que deixou a profissão de química e professora para se aventurar na experiência como dona de um bar.

Apaixonados por jogos desde cedo, os dois trouxeram a mala recheada de diferentes tipos de boardgames. ;É algo tão pessoal que, para você ter uma ideia, a prateleira que acomoda os jogos era da nossa casa;, ressalta Fábio. Tudo começou com os 30 primeiros jogos que vieram com eles do exterior. A coleção, depois, foi crescendo com títulos nacionais e outros importados. Hoje, são aproximadamente 200 jogos de tabuleiro. ;Gostamos da ideia de fazer nossa coleção crescer aos poucos. Assim conseguimos explicar, com qualidade, cada um dos jogos.;

Segundo Salimar, não basta recitar as regras: é preciso conversar com os clientes sobre estratégias e possíveis jogadas. O local, aberto há cinco anos, conta com uma equipe de monitores e cozinheiros, que ensinam os jogos e executam o cardápio ; idealizado pela própria dona, que também é chef.

Com público diverso, os donos garantem que lidam de perto com diferentes idades. ;De 5 a 85 anos, pode ser? Temos de tudo aqui;, brincam. Carcassone, como é chamado, recebeu esse nome em homenagem a uma cidade medieval e ao jogo de tabuleiro. ;As pessoas vêm pela nostalgia e descobrem um novo hobby. Estamos a caminho do nosso objetivo: reforçar a união de maneira offline, com olho na magia do reencontro;, garantem.


Entrevista / Vince Vader

Celebração do encontro

Vicente Martin Mastrocola, 39 anos, mais conhecido como Vince Vader, é professor de criação digital da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), game designer e autor de mais de 30 jogos para celulares, internet e tabuleiros, além do livro Ludificador: Um guia de referências para o game designer brasileiro. Ele conta que a maioria das lembranças da infância são dele encantado e brincando com os jogos de tabuleiro.

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