Correio Econômico

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A equipe de Ilan Goldfajn terá de lidar com pressões inflacionárias, riscos eleitorais e um nível de atividade ainda baixa. Subir ou descer os juros são possibilidades concretas diante de tantas incertezas

Antonio Temóteo / antoniotemoteo.df@dabr.com.br - Interino
postado em 01/06/2018 00:00

BC pressionado

O Banco Central (BC) voltará a ser testado nos próximos meses. Após o erro de comunicação em que indicou um corte de 0,25 ponto percentual, mas manteve a taxa básica de juros (Selic) em 6,5% ao ano, o Comitê de Política Monetária (Copom) sofrerá pressões de todos os lados. A primeira delas virá da inflação. Em junho, os mais pessimistas já estimam que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) terá alta de 1%, com efeitos ainda em julho e agosto.

Vale lembrar que, em junho de 2017, o IPCA registrou queda de 0,23%. Com o resultado, o índice acumulará variação em 12 meses acima de 3%. A greve dos caminhoneiros, que afetou o preço dos combustíveis, de alimentos, de produtos e serviços, também impactará a inflação. Para piorar, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) elevou a bandeira tarifária para vermelho nível dois.

Com a alta na conta de luz, o impacto pode chegar a 0,28 ponto percentual na inflação. Além disso, o valor do dólar continuará a preocupar. Somente em maio, a divisa norte-americana já encareceu 6,5%, e a tendência é de mais valorização. Nem as intervenções diárias do BC, com a oferta diária de US$ 750 milhões em contratos de swap, que equivalem à venda futura de dólares, tem sido suficiente para conter a escalada da moeda estrangeira.

Outra fonte de incerteza, que afetará o valor da moeda norte-americana e a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) está ligada ao cenário eleitoral indefinido. O cenário externo ainda trará mais volatilidade para o país. Os imbróglios comerciais dos Estados Unidos relativos a tarifas de importação são uma das fontes de problema. Além da guerra comercial com a China, o cancelamento do encontro do presidente Donald Trump com o ditador da Coreia do Norte e a retirada do acordo nuclear com o Irã continuarão no radar.

Todo esse cenário se refletiu em piora da percepção de risco dos investidores em relação ao Brasil. Os Credit Default Swaps (CDS) brasileiros de cinco anos passaram de 174 pontos, em abril, para 217 pontos agora. Com isso, os investidores estrangeiros se desfizeram de R$ 6,5 bilhões em ações de empresas brasileiras. Em relatório encaminhado a clientes, analistas do BB Investimentos ressaltaram que o viés é de baixa para o mercado de renda variável. ;Os agentes, após a recente temporada de balanços de empresas, prosseguirão precificando a perspectiva de um crescimento menor do país, cuja perspectiva afeta diretamente os lucros das companhias;, detalhou o banco.

Crescimento


Se, por um lado, a greve dos caminhoneiros e o dólar trarão pressões adicionais para a inflação, o nível de atividade deve contrabalançar esse processo. No mercado, analistas estimam que a economia não crescerá mais de 2% neste ano. Nas contas do economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira, o Produto Interno Bruto (PIB) terá variação positiva de apenas 1,8%. Os prejuízos da paralisação dos motoristas de veículos pesados, nas contas dele, podem ter chegado a R$ 42 bilhões.

Entretanto, ele alerta que esse número pode ser ainda maior diante dos efeitos indiretos, de difícil mensuração. ;Nossa estimativa preliminar aponta que o impacto indireto ficar em torno de 0,3% do PIB entre junho e agosto, mas neste caso os efeitos podem ser maiores e mais permanentes, por exemplo, afetando os índices de confiança e expectativas dos diversos setores da atividade;, destacou.

Oliveira estima que a retração em alguns setores importantes da economia brasileira tenha sido superior a 10% nos primeiros sete dias da greve. Com a ociosidade da economia maior do que o esperado, o economista-chefe do Banco Fibra destaca que o viés da política monetária é de afrouxamento. ;Assim, não descartamos uma eventual retomada do ciclo de corte da taxa de juros ainda em 2018, caso a recuperação da atividade econômica mostre-se mais frágil do que estamos antecipando ou a expectativa para o IPCA dos próximos anos, e também a inflação corrente,permaneça muito abaixo do centro da meta;, afirmou.

Diante de tanta confusão, a equipe de Ilan Goldfajn terá de lidar com pressões inflacionárias, riscos eleitorais e um nível de atividade ainda baixa. Subir ou descer os juros são possibilidades concretas diante de tantas incertezas.

  • Lemann 1

    ; O modelo de negócios de Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira tem sido questionado pelo mercado. Isso porque as empresas controladas pelos donos da gestora 3G Capital não têm garantido os mesmos retornos dos últimos anos. A fórmula de corte de gastos e choque de gestão, segundos os analistas, não dá o mesmo retorno. Além disso, as declarações recentes de Lemann de que é um dinossauro quando o assunto é inovação pegaram os analistas de surpresa.

  • Lemann 2

    ; Mas há um abismo entre o que Lemann diz e o que realmente faz. O executivo tem dados passos substanciais para investir em empresas ;disruptivas;. Para isso, tem preferido o anonimato. A GP Investments, por meio subsidiária Spice Private Equity, anunciou recentemente um aporte de US$ 60 milhões na The Craftory. Essa companhia atua no segmento de bens de consumo e está de olho em ;marcas disruptivas;. Para isso, a Spice e outros investidores farão um aporte de US$ 300 milhões de capital permanente. Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles, Carlos Alberto Sicupira estão entre esses investidores, mas não usaram a 3G para fazer o aporte.

  • Lemann 3

    ; Engana-se quem pensa que o trio Lemann, Telles e Sicupira está acomodado com os ganhos das companhias que controlam. Os empresários têm analisado novas oportunidades de investimentos com frequência e têm consciência de que o período de liquidez abundante, com crédito barato, ficou para trás. Agora, mais do que nunca, estão em busca de negócios com potencial de ganhos e sabem que terão de tirar do próprio bolso.

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