"Populistas" no poder

"Populistas" no poder

Dois partidos avessos à integração continental e à moeda única renegociam acordo e formarão o próximo governo da Itália, a quarta maior economia do bloco. Solução evita a convocação de novas eleições, mas desperta incertezas entre os parceiros

postado em 01/06/2018 00:00
 (foto: Tiziana Fabi/AFP)
(foto: Tiziana Fabi/AFP)

Um professor de direito com credenciais acadêmicas questionadas e nenhuma experiência política foi nomeado ontem para chefiar o próximo governo da Itália, com uma maioria composta por dois partidos antieuropeus e ;antissistema;: o Movimento Cinco Estrelas (M5S, legenda de protesto) e a Liga (extrema-direita). Giuseppe Conte, que já tinha sido indicado na semana passada, mas renunciou por ter rejeitada a sua escolha para a pasta da Economia, foi ontem novamente encarregado de formar o gabinete pelo presidente Sergio Mattarella. Ele apresentou ontem mesmo a lista dos ministros, que devem prestar juramento hoje.

;Reuniram-se todas as condições para formar um governo;, diz o comunicado conjunto dos líderes do M5S, Luigi Di Maio, e da Liga, Matteo Salvini, que desponta como figura central do novo cenário político italiano. Ao fim de quatro horas de reunião, eles superaram o principal obstáculo para obter a aprovação do presidente: o jurista e professor de economia política Giovanni Tria assumirá a pasta da Economia. Na primeira tentativa de emplacar um governo chefiado por Conte, Salvini e Di Maio esbarraram no veto de Mattarella ao economista Paolo Savona, adversário declarado do euro.

A ideia de ter a quarta economia do bloco sob a responsabilidade de um opositor notório da moeda única propagou ondas de choque no continente, com os demais governantes temerosos de enfrentar mais um processo semelhante à saída do Reino Unido. Tria, embora afinado com bandeiras das legendas populistas, como a redução da burocacia, inclusive a relacionada a normas da UE, defende a permanência da Itália na zona do euro. Savona, porém, deve se tornar ministro de Assuntos Europeus, o que prenuncia uma relação difícil da Itália com o bloco.

;Compromisso, coerência, ouvir, trabalhar, paciência, senso comum, coração e mente pelo bem dos italianos. Depois de tantos obstáculos, ataques, ameaças e mentiras, parece que conseguimos;, publicou Salvini no Facebook. O líder da Liga desponta como o político atualmente mais influente do país, embora seu partido tenha uma bancada menor que a do M5S. Ao contrário da legenda de protesto fundada pelo comediante Beppe Grillo, porém, a Liga tem bom trânsito com formações políticas mais tradicionais, como o Força Itália, partido direitista liderado pelo ex-premiê Silvio Berlusconi.


Acordo
O novo acordo de governo fechado entre as duas formações classificadas como ;populistas; levou o presidente, que tem a função constitucional de arbitrar a formação do governo, a interromper a tentativa de aprovar um ;gabinete técnico; sob a batuta do economista Carlo Cottarelli. Resignado a não contar com maioria parlamentar, ele se movimentava para negociar um acordo pelo qual conduziria os negócios do país até a convocação de novas eleições, possivelmente em julho.

;Já que não é necessário um governo técnico, renunciei ao cargo dado pelo presidente Mattarella, anunciou Cottarelli no palácio presidencial. ;Um governo de caráter político é a melhor solução para o país e evita a incerteza que novas eleições geram;, ponderou.

A Itália está sem governo há 89 dias, desde as eleições de 4 de março, das quais nenhum dos partidos ou campos políticos saiu com a maioria necessária para governar. O M5S, que formou a maior bancada, esbarrava na ausência de aliados para exercer a posição de principal força parlamentar. A Liga, por sua vez, foi às urnas como parte de uma coligação direitista encabeçada pelo partido de Berlusconi, mas superou os aliados e tornou-se a força principal do bloco.

À frente do gabinete, o novo primeiro-ministro terá como tarefa inicial desfazer a má impressão causada quando foi nomeado inicialmente. Embora tenha apresentado um currículo no qual constavam passagens por universidades de prestígio, como Yale (Estados Unidos) e a Sorbonne (França), ambas as instituições informaram que o nome de Conte não consta de seus registros de alunos regulares.



Programa mínimo

Metas prioritárias da nova maioria que governará a Itália

União Europeia
Renegociação da gopvernança comum do bloco e da política monetária para o euro. Introdução de um imposto único para empresas e famílias, com alíquota entre 15% e 20%, de modo a financiar uma ;renda cidadã; de 780 euros mensais para os cidadãos em dificuldades, pelo prazo de dois anos.

Imigração
Prioridade para a deportação sumária em massa e luta contra o ;negócio da imigração; ; as redes de tráfico de pessoas.

Rússia
Reafirmação da relação da Itália com a Otan, ;com os Estados Unidos como sócios;, mas com abertura a Moscou como ;parceiro econômico e social;. Defesa de uma negociação no âmbito da Europa Ocidental para retvisão das sanções impostas à Rússia nos últimos anos.



;Compromisso, coerência, ouvir, trabalhar, paciência, senso comum, coração e mente pelo bem dos italianos. Depois de tantos obstáculos, ataques, ameaças e mentiras, parece que conseguimos;
Matteo Salvini, líder da Liga (extrema-direita)

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