Vulcão leva morte e medo à Guatemala

Vulcão leva morte e medo à Guatemala

Erupções do Vulcão de Fogo sepultam vilarejos sob as cinzas, deixam pelo menos 62 mortos e atingem mais de 1,7 milhão de pessoas. Especialista compara tragédia à provocada pelo Vesúvio, que destruiu a cidade italiana de Pompeia, no ano 79

Rodrigo Craveiro
postado em 05/06/2018 00:00
 (foto: Fotos: Johan Oodonez/AFP)
(foto: Fotos: Johan Oodonez/AFP)

A nuvem piroclástica ; uma coluna de fragmentos de rochas e de gases ardentes altamente tóxicos ; lançada do cume do Vulcão de Fogo sepultou vilarejos inteiros na margem sul, matou pelo menos 62 pessoas, feriu 46, forçou a remoção de 3.265 e afetou 1,7 milhão de moradores do centro-oeste da Guatemala. Os efeitos das duas erupções, na manhã e no fim da tarde de domingo, chegaram a ser comparados aos da explosão no Monte Vesúvio que destruiu a cidade de Pompeia, no ano 79. Os guatemaltecos se alternavam ontem entre buscar corpos cobertos pelas cinzas e limpar as vias, para permitir que o socorro chegasse a regiões ainda isoladas. O solo incandescente também dificulta o trabalho das equipes de emergência. Até o fechamento desta edição, as autoridades admitiam um número indeterminado de desaparecidos. Somente 13 dos mortos tinham sido identificados. O número de vítimas deve aumentar nas próximas horas com os falecimentos registrados ontem nos hospitais, onde muitos dos feridos estão em estado grave. Na manhã de ontem, um terremoto de 5,2 graus na escala Richter (aberta, ela raramente chega a 9) sacudiu a costa oeste da Guatemala, no Pacífico.

O presidente Jimmy Morales visitou a área afetada pela tragédia, conversou com desabrigados em albergues, declarou três dias de luto nacional e colocou os estados de Escuintla, Chimaltenango e Sacatepéquez em estado de alerta vermelho. O Congresso se reuniu em caráter emergencial e aprovou o estado de calamidade.

;As pessoas não puderam sair. Creio que foram enterradas. Conseguimos correr e subir uma ladeira;, declarou ao canal Visión Ciudadana a sobrevivente Consuelo Fernández, uma senhora de meia-idade que tinha o corpo tomado pelas cinzas. ;Se desta vez nos salvamos, em outra (erupção), não;, desabafou à agência France-Presse Efraín González, 52 anos, após ser levado para um abrigo de Escuintla com a mulher e a filha de um ano. O desespero, no entanto, tomava conta do casal: os outros filhos, de 10 e de 4 anos, eram considerdos desaparecidos depois que a casa da família foi engolida pela lava despejada pelo vulcão, situado a apenas 35km da capital, Cidade da Guatemala. As buscas chegaram a ser suspensas durante a noite por falta de luz e pelas condições perigosas, mas foram retomadas na manhã de ontem.

Novas erupções
Em entrevista ao Correio, o vulcanológo britânico David Rothery, professor de geociências planetárias da Open University e autor de Volcanoes, earthquakes and tsunamis ; A complete introduction (Vulcões, terremotos e tsunamis ; Uma completa introdução), explicou que a erupção do Vulcão de Fogo foi muito menor que a do Vesúvio, no ano 79, que matou 16 mil. ;No entanto, a maior parte deles foi dizimada pelos fluxos piroclásticos, o que ocorreu na Guatemala;, comparou. ;O fenômeno ocorre quando uma erupção de gás em expansão e de fragmentos de rochas quentes é tão densa para subir rumo ao céu que acaba fluindo para baixo. Ela viaja muito rapidamente, a cerca de 100km/h, e a camada próxima ao solo (não as cinzas que se pode ver acima do fluxo) pode atingir quase 1.000 graus Celsius.;

Segundo Rothery, os sismógrafos ; instrumentos que detectam movimentos no solo ; indicam que a atividade do Vulcão de Fogo retornou ao nível anterior ao da erupção. ;No entanto, não podemos descartar novas erupções. O Insivumeh (Instituto Nacional de Sismologia, Vulcanologia, Meteorologia e Hidrologia da Guatemala) está aconselhando as pessoas a evitarem se dirigir para vales que levem ao vulcão, onde fluxos piroclásticos poderiam ser canalizados, assim como lahars (que são avalanches formadas quando a chuva cai sobre as cinzas vulcânicas depositadas nas encostas íngremes. Se eu estivesse na área, não gostaria de me colocar em perigo, ao desobedecer a esse conselho);, acrescentou o especialista.



Os mais mortíferos

A erupção vulcânica mais famosa da história é a do Vesúvio que destruiu Pompeia e Herculano no ano 79. Entretanto, a explosão do vulcão Krakatoa, na Indonésia, em 1883, é considerada o maior fenômeno terrestre observado: o jato de cinzas, pedras e fumaça atingiu mais de 20 mil metros de altitude. A erupção foi acompanhada de gigantesca tsunami, cujas ondas deram a volta ao mundo. Mais de 36 mil pessoas morreram. Abaixo, as erupções vulcânicas mais mortíferas dos últimos 16 anos:

2014

Japão

O vulcão Ontake, de 3.067m de altura, despertou em 27 de setembro, projetando nuvem de fumaça, cinzas e pedras. Centenas de excursionistas foram surpreendidos e 60 deles morreram. Foi a pior catástrofe no Japão desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Em 1991, a erupção do Monte Unzen causou 43 mortes.

Indonésia
Na Ilha de Sumatra (oeste), 16 pessoas morreram no início de fevereiro após a erupção do vulcão Sinabung, que havia despertado cinco meses antes, após 400 anos de inatividade. Em maio de 2016, povoados foram cobertos por cinzas, em erupção que matou sete.

2010

Indonésia

A erupção do Merapi (2.900m de altitude), em outubro, causou mais de 300 mortes e o deslocamento de 280 mil pessoas.

2002

República Democrática do Congo

Em janeiro, a erupção do vulcão Nyiragongo, próximo a Goma, no leste do país, destruiu o centro da cidade, bem como diversos bairros residenciais ; parte da infraestrutura foi carbonizada. A erupção mais mortífera foi em 1977, com mais de 600 mortos.

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