Pedro Lobato

Pedro Lobato

O problema maior não vinha da Petrobras, mas, para os políticos e funcionários bem situados na máquina pública, era urgente malhar um judas qualquer, antes que alguém pusesse o dedo na ferida

postado em 05/06/2018 00:00

Na boleia dos enganos

No futebol, nós, brasileiros, temos a tentação de focar apenas nos resultados. Se o time perde duas ou três vezes seguidas, pedimos a cabeça do técnico. Afinal, dá menos trabalho apontar o dedo para um único culpado do que procurar entender o que, de fato, está acontecendo.

As duas últimas semanas mostraram que nosso vício do imediatismo e da simplificação não se limita ao futebol. Foi com ele que tratamos a grave crise dos caminhoneiros e, por isso, corremos o riso de cometermos novos e velhos enganos.

Com a disparada dos preços dos combustíveis, foi fácil perceber que os caminhoneiros tinham razão de sobra para reclamar. Os preços do diesel estão muito altos em comparação aos de dois anos atrás, aparentemente, prejudicando o negócio do frete. O apoio da população (87%) não demorou a entrar na boleia dos caminhoneiros.

Eles mereciam, mas não nos demos ao trabalho de perguntar o que de fato estava ocorrendo. Afinal, o problema estava na Petrobras ou no caminho entre ela e a bomba do posto de combustíveis? Mais fácil foi satanizar o técnico, mesmo que ele tenha tirado o time do rebaixamento e continuasse fazendo bom trabalho.

Não vimos, com esse imediatismo, que poderíamos estar fazendo o jogo de empresários oportunistas e, pior ainda, de políticos espertalhões. Todos sabiam que o problema maior não vinha da Petrobras, mas, para os políticos e funcionários bem situados na máquina pública, era urgente malhar um judas qualquer, antes que alguém pusesse o dedo na ferida.

Antes da política da Petrobras, deveríamos prestar atenção aos preços que ela cobra. Ontem, a empresa estava entregando nas refinarias a gasolina a R$ 1,9976 o litro e o diesel a R$ 2,036. Daí até o consumidor, esses preços ; seja qual for a oscilação na refinaria ; quase dobram, dependendo do estado da federação onde o caminhão ou o carro são abastecidos. Retirados os ganhos da distribuidora e do posto, sobra o alto custo de sustentarmos o desfrute de privilégios caríssimos de castas do poder público. Esse é o ponto que temos de discutir com coragem e inteligência.

Por que os preços sobem

Esse resgate do Estado é tarefa que vai demandar tempo, já que ele vem sendo sequestrado há décadas por gente que se tornou poderosa. Mas a crise dos caminhoneiros evidenciou também a questão urgente da política ideal de preços dos combustíveis.

Para começar, a população tem o direito de saber o que se passa e não ser iludida por propaganda enganosa. Não nos tornamos autossuficientes nesse setor, como dizia o governo anos atrás. Não conseguimos aumentar nossa capacidade de refino e, por isso, somos obrigados a importar diesel e gasolina.

Temos de nos submeter às oscilações diárias dos preços internacionais do petróleo. Eles são cotados em dólar. Se o dólar sobe, pagamos mais caro pela importação, mesmo que o petróleo tenha ficado estável. Imaginem, então, o que ocorre quando os dois, petróleo e dólar, sobem ao mesmo tempo.

Altas ocorreram nos últimos anos e isso deveria ter impactado os preços internos do combustível no Brasil. No mundo todo, essa é a lógica do repasse de custos. Mas até julho de 2016, não foi isso que ocorreu no Brasil. O governo preferiu o velho vício do imediatismo para interferir no curso natural da economia. A Petrobras foi obrigada a engolir o prejuízo, tendo de vender o diesel e a gasolina mais baratos do que havia pago por eles no exterior.

Outra maneira de fazer essa interferência seria poupar a Petrobras e cobrir a diferença com recursos do Tesouro. Difícil saber qual das duas é a pior para e economia, mas ambas têm o poder de deixar as pessoas felizes por algum tempo e facilitar a reeleição de quem escolheu uma delas. Uma impede que a Petrobras busque a autossuficiência, a outra retira dinheiro da educação e da saúde para encher os tanques de quem tem carro.

Interferências perigosas

Em julho de 2016, o governo decidiu poupar a Petrobras, autorizando a empresa a transferir automaticamente o custo da importação para o consumidor. Tirou a empresa do lixo em que havia sido jogada (quatro anos de prejuízos e a maior dívida entre todas as petroleiras do mundo), mas esbarrou nas consequências de outra interferência do governo na economia: financiou com dinheiro público, a juros subsidiados, a ampliação da frota de caminhões muito além do necessário.

O desequilíbrio criado entre a oferta e a demanda de fretes foi agravado pela recessão de 2016 e 2017. Isso impediu que os caminhoneiros repassassem os aumentos do diesel para os elos seguintes da cadeia produtiva. Trata-se de um problema real para os caminhoneiros, que reagiram com razão.

É, pois, uma questão complexa. Aqui não cabe simplificação. Não é assunto a ser resolvido no escurinho dos gabinetes e, muito menos, por espertezas políticas. A sociedade, por seus representantes, tem de resolver logo, com transparência e seriedade, o melhor a fazer, enquanto estivermos sujeitos à importação de combustíveis. A crise mostrou que a aceitação de desaforos acabou.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação