Mobilidade urbana

Mobilidade urbana

postado em 05/06/2018 00:00
A paralisação dos caminhoneiros descortinou uma série de problemas antigos que, com indesejável frequência, ocupa a pauta do noticiário em momentos de crise. Passada a urgência, adia-se a resposta até nova explosão. E assim sucessivamente. De agudo, o quadro torna-se crônico. Pior: ganha naturalidade. Autoridades e população passam a tratá-lo como fato corriqueiro do qual não se pode livrar.

Exemplos não faltam. Vale lembrar a segurança pública. Sempre que ocorre uma tragédia, desengavetam-se projetos, receitas se sucedem, salvadores da pátria apresentam soluções simplistas. Depois, tudo cai no esquecimento. Até que nova barbárie sacuda a sociedade, e o enredo se repita com a monotonia de sempre.

Onze dias sem caminhões nas estradas acarretaram consequências devastadoras. Entre elas, desabastecimento, prejuízos ao setor produtivo, transtorno nos portos e no direito de ir e vir da população. O Produto Interno Bruto (PIB) tem previsão de queda. Falou-se ; e muito ; da dependência do setor rodoviário e da necessidade de diversificar os modais de transporte. Mas, com o retorno ao trabalho, o script deve se manter. Olvida-se o assunto até nova mobilização da categoria.

Um tema, embora crucial, ficou em segundo plano no debate da crise. Trata-se da mobilidade urbana. Cidades são reféns do carro ou para percorrer longos trechos ou curtos trechos. Pegar o volante, no caso, não constitui exercício de liberdade. Trata-se de imposição. Sem alternativa, o morador precisa do veículo particular para chegar ao trabalho, à escola, à consulta médica.

Ocorre que a gasolina, tal como o diesel, que deflagrou o movimento paredista dos caminhoneiros, sofre do mal da imprevisibilidade. O preço sobe no ritmo do mercado internacional. Os salários, porém, não acompanham os reajustes. A saída, para quem se vir impossibilitado de desembolsar o valor cobrado na bomba, seria o transporte público.

Uma pergunta se impõe. Há trens, ônibus, metrôs suficientes para atender a população obrigada a abandonar o automóvel? A resposta é não. Desde que a classe média trocou o público pelo privado, a qualidade caiu. O mesmo ocorreu com a escola pública e a saúde pública. Os investimentos foram insuficientes para manter serviços aptos a fazer frente ao aumento da demanda registrado com a crise econômica que castiga o país.

A mobilidade urbana constitui um dos desafios a ser enfrentado com urgência. Além do preço dos combustíveis, há que considerar a violência no trânsito, a falta de estacionamentos, os prejuízos causados pelo tempo gasto no ir e vir. Transporte público de qualidade é direito do cidadão. Fechar os olhos a essa realidade é crime de lesa-cidadania.

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