Enfrentando o câncer sem quimioterapia

Enfrentando o câncer sem quimioterapia

Setenta por cento das mulheres que estão no estágio inicial do tumor de mama mais comum podem ser tratadas apenas com terapia hormonal, mostra estudo americano feito com 10.273 pacientes

Siibele Negromonte Enviada especial*
postado em 05/06/2018 00:00
 (foto: Anne-Christine Poujoulat/AFP - 9/10/17)
(foto: Anne-Christine Poujoulat/AFP - 9/10/17)

Chicago (Estados Unidos) ; Um estudo apresentado durante o Congresso Americano de Oncologia Clínica (Asco) promete revolucionar a escolha do tratamento de mulheres em estágio inicial de câncer de mama. O TAILORx, realizado pelo Centro de Câncer Albert Einstein de Nova York, concluiu que, para o tipo mais comum do tumor, nem sempre será preciso que a paciente seja submetida à quimioterapia. O tratamento após a cirurgia seria feito apenas pela terapia hormonal, menos agressiva e com reduzido efeito colateral.

Coautora do estudo, a oncologista Kathy Albain diz que, com os resultados, é possível evitar a quimioterapia em cerca de 70% das pacientes diagnosticadas com esse tipo de tumor, desde que ele não tenha se espalhado para os gânglios linfáticos. A estimativa dos pesquisadores é de que, só nos Estados Unidos, cerca de 65 mil mulheres seriam afetadas pelo novo protocolo.

O presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc), Sergio Simon, calcula que, no Brasil, aproximadamente 20 mil mulheres deixariam de se submeter à quimioterapia. ;Isso representaria uma grande economia para as fontes pagadoras do tratamento, sem falar nos benefícios para a paciente;, comemora. Para ele, esse foi um dos grandes avanços apresentados durante a Asco, encontro que reúne cerca de 30 mil médicos de todo o mundo, realizado até hoje em Chicago.

A indicação de tratamento, porém, só seria possível após a realização do Oncotype DX, espécie de mapeamento genético que classifica o nível de possibilidade de recidiva da doença. Hoje, esse exame, disponível no Brasil, faz uma análise de 21 genes do tumor. A partir dessa avaliação, é criada uma espécie de pontuação, que vai de 0 a 100.

De 1 a 10, é considerada baixa a taxa de recidiva, e o tratamento é feito apenas com hormônio. De 25 a 100, o índice é considerado alto, e a quimioterapia tem indicação clínica. ;Havia, porém, uma área cinza, que ficava entre o 11 e o 24, em que cabia ao médico, em conversa com a paciente, decidir que tratamento usar, se o quimioterápico ou o endócrino;, explica Daniel Gimenes, oncologista-clínico do Grupo Oncoclínicas, em São Paulo.

Os resultados do estudo, explica o médico, mostraram que o tratamento quimioterápico nas pacientes que se encontravam nessa faixa intermediária é desnecessário, bastando a terapia hormonal. ;As descobertas terão um impacto imediato na prática clínica, poupando milhares de mulheres dos efeitos colaterais da quimioterapia, como náuseas, vômitos, perda de cabelo, fadiga e infecção;, comenta Gimenes.

Durante os testes, em toda a população estudada com pontuação entre 11 e 25, não houve diferença significativa entre os grupos tratados com e sem quimioterapia. Os resultados mostram ainda que todas as mulheres com mais de 50 anos e pontuação de 0 a 25 podem evitar a quimioterapia e seus efeitos colaterais tóxicos. A mesma recomendação serve para aquelas com menos de 50 anos e pontuação de 0 a 15. ;(O estudo) deverá ter um grande impacto entre os médicos e pacientes. Estamos reduzindo a terapia tóxica;, ressalta Kathy Albain.

Alto custo
Um dos obstáculos é que o Oncotype DX ainda tem um custo muito alto no Brasil, em torno de US$ 4.500, e não é disponibilizado no Sistema Único de Saúde (SUS). ;Também nem todos os planos de saúde cobrem esse mapeamento genético;, ressalta Simon. Disponível desde 2004, o teste é realizado em uma amostra de tecido tumoral.

O estudo também não é preciso sobre os resultados entre as pacientes jovens que se encontram na faixa intermediária de risco de recidiva. ;Não há a certeza de que as mulheres com menos de 50 anos que estão na pontuação de 20 a 25 não precisam de quimioterapia. Então, a decisão do tratamento tem de ser individualizada e discutida entre médico e paciente.;

O estudo TAILORx englobou 10.273 mulheres, de 18 a 75 anos, com câncer de mama receptor hormonal positivo, receptor HER2 negativo, o tipo mais comum de tumor de mama. Dessas pacientes, 6.711 tinham o risco intermediário de recidiva, de acordo com a pontuação do mapeamento genético. Elas foram indicadas a receber a hormônio terapia isolada ou associada à quimioterapia. Detalhes do trabalho também foram divulgados em artigo publicado no New England Journal of Medicine.

*A jornalista viajou a convite da Pfizer



20 mil
Estimativa de brasileiras que poderiam ser ratadas sem quimioterapia, segundo Sergio Simon, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc)




"As descobertas terão um impacto imediato na prática clínica, poupando milhares de mulheres dos efeitos colaterais da quimioterapia, como náuseas, vômitos, perda de cabelo, fadiga e infecção;
Daniel Gimenes, oncologista-clínico do Grupo Oncoclínicas

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