Correio Econômico

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Muitos lembram que o momento atual remonta à crise de 2002, quando o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva despontava na liderança das pesquisas de intenção de voto e tinha um discurso econômico totalmente reprovado pelo mercado

Antonio Temóteo / antoniotemoteo.df@dabr.com.br - Interino
postado em 08/06/2018 00:00

Crise de confiança


A crise que afeta o país a pouco mais de quatro meses das eleições presidenciais faz muitos investidores traçarem um cenário preocupante para o país. Vários analistas esperam que o dólar alcance R$ 5, a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) derreta durante o processo eleitoral e após a definição de quem comandará o Palácio do Planalto. Para piorar, as expectativas para a variação do Produto Interno Bruto (PIB) foram revisadas para mais próximo de zero do que dos 3% de crescimento estimados no fim do ano passado. Muitos lembram que o momento atual remonta à crise de 2002, quando o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva despontava na liderança das pesquisas de intenção de voto e tinha um discurso econômico totalmente reprovado pelo mercado.

Em 2018, dois candidatos, um de direita e outro de esquerda, lideram as pesquisas de intenção de votos. De um lado, o deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ) não transmite confiança aos investidores. Eles avaliam que o discurso moderado que o parlamentar tenta adotar perde valor quando é levado em conta o histórico de votações dele no Congresso Nacional. A maioria das medidas sugeridas pela equipe econômica do governo, como teto de gastos públicos ou o cadastro positivo, tiveram voto contrário do ex-capitão do Exército.

De outro lado, está Ciro Gomes (PDT-CE), que deixou claro não ter qualquer compromisso com ajustes e reformas. Ele diz que, se for eleito, o Banco Central (BC) passará a ter um duplo mandato, de combate a inflação e estímulo ao emprego. Na avaliação da economista-chefe da CM Capital Markets, Camila Abdelmalack, a piora do cenário internacional, aliada à crise doméstica, tem potencial para afetar significativamente o preço dos ativos. Para ela, o mercado começou a precificar uma perspectiva de piora da economia, o que era esperado para o segundo semestre. ;Em eleições anteriores, nesse momento, as cartas já estavam na mesa. Agora, não temos qualquer clareza do que vai acontecer. Apenas que os extremistas estão na ponta. E isso gera muita volatilidade;, comentou.

Em meio ao fogo cruzado no país, o mercado cobrou clareza do BC, que não deixava clara a estratégia de atuação diante da escalada do dólar. O presidente da autoridade monetária, Ilan Goldfajn, anunciou, ontem, que ofertará US$ 20 bilhões em contratos de swap cambial até o fim da próxima semana. Só não deixou claro se esse montante se refere à soma das rolagens feitas diariamente e aos novos contratos ofertados, ou se serão recursos adicionais.

Como de costume, o presidente do BC não quis fazer nenhuma declaração sobre o fato de o cenário eleitoral ser um dos principais componentes da volatilidade. Além disso, não quis admitir que parte do movimento começou com a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter os juros inalterados em 6,5% ao ano, após seguidas indicações de que continuaria reduzindo a taxa.

Agora, ao indicar que não medirá esforços para conter a volatilidade cambial, Ilan afirma que o estoque de swaps cambiais pode até ultrapassar o recorde histórico de US$ 110 bilhões acumulados durante a gestão de Alexandre Tombini no BC. E há quem diga que os dois estão mais parecidos do que nunca.

Assim que chegou à presidência do Banco Central, em junho de 2016, Ilan deixou claro que se distanciaria da imagem de seu antecessor. Para ele, a gestão de Tombini havia sido desastrosa, sobretudo por atender aos pedidos da então presidente Dilma Rousseff para que a autoridade monetária determinasse a política de juros de acordo com os interesses do Palácio do Planalto.

Não se pode negar que, nos últimos dois anos, Ilan conseguiu não só apagar o histórico da gestão de Tombini, como reconstruir a credibilidade do BC. Porém, da mesma forma que se distanciou de Tombini, Ilan se aproxima rapidamente do antecessor.

Os primeiros passos foram dados em meados de maio, quando o Copom surpreendeu o mercado ao manter a Selic inalterada em 6,50%, mesmo após sinalizar que os juros cairiam 0,25 ponto percentual. Ao induzir o mercado ao erro, trincou a relação com os investidores. Tombini era mestre em dar cavalos de pau na política monetária.

A hesitação do BC em atuar no mercado de câmbio para conter a arrancada do dólar empurrou Ilan para mais perto de Tombini. Ontem, ao convocar entrevista coletiva para anunciar medidas mais duras para conter o ataque contra o real, Ilan disse que a situação do país é robusta, com reservas internacionais elevadas e contas externas ajustadas. Tudo como Tombini.

Ainda sinalizou que, se necessário, o BC vai superar o limite histórico de intervenção no mercado de câmbio por meio de contratos de swap, nos quais o banco aposta na queda do dólar e na alta dos juros. Mesmo o BC pagando caro por essas operações, o dólar não caiu durante a gestão de Tombini, e parece que o mesmo ocorrerá agora.

Ilan afirmou que o BC não usará a taxa de juros para segurar a alta do dólar. Tombini disse o mesmo. Logo depois das eleições de 2014, no entanto, o BC elevou os juros. Teremos eleições em outubro próximo. Começou a contagem regressiva para ver quanto Ilan e seu time vão aumentar a Selic. Na visão dos operadores, não se trata mais de quando será a alta dos juros, mas de quanto.

  • Mal na foto 1
    Um fato chamou a atenção na coletiva concedida pelo presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldajn. Os diretores de Assuntos Internacionais, Tiago Berriel, de Política Econômica, Carlos Viana, e de Política Monetária, Reinaldo Le Grazie, sentaram à mesa com ele. Os diretores de Administração, Carolina de Assis Barros, e de Relacionamento Institucional, Maurício Moura, ficaram na plateia.

  • Mal na foto 2
    O presidente do BC também se irritou com os sucessivos questionamentos sobre sua eventual saída do cargo, sobre o fato de o país ser vítima de um ataque especulativo e sobre o fato de ter criado um ruído na última reunião do Copom. ;Muitos consideraram a decisão acertada naquele momento;, disse o comandante da autoridade monetária.

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