Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 08/06/2018 00:00
A morte de Nelson

Nelson Rodrigues nunca teve problemas em falar sobre a morte. Ela sempre esteve colada em seu corpo, e ele jamais se esquivou de encará-la em crônicas, contos, peças de teatro ou entrevistas: ;A morte é anterior a si mesma. Começa antes, muito antes. O sujeito já começou a morrer e não sabe;.

O amor e a morte eram os grandes temas da vida dele: ;Morrer significa, em última análise, um pouco de vocação. Há vivos tão pouco militantes que temos vontade de lhes enviar coroas ou de lhes atirar na cara a última pá de cal. Esses, sim, têm vocação da morte;. Apesar da obsessão, Nelson tinha uma enorme e visceral vocação para a vida.

A última crônica que escreveu não poderia ser mais dramática, épica e comovida. Nelson estava muito doente, debilitado desde os anos 1930, quando sobreviveu a uma tuberculose. A doença no pulmão se irradiou pelo corpo e fragilizou-lhe, especialmente, o coração.

Estávamos no início de dezembro de 1980. O Vasco da Gama e o Fluminense, time de coração do Nelson, há milhares de anos antes do paraíso, disputavam a final do Campeonato Carioca. O médico e amigo do dramaturgo e cronista, doutor Stand Murada, recomendou expressamente evitar qualquer emoção forte.

Nelsinho Filho proibiu que o pai ligasse o radinho de pilha e prometeu relatar todos os acontecimentos. Ambos estavam com 200 megavolts de tensão. E se o Vasco fizesse um gol? E se o Flu empatasse e virasse o jogo? E se o Vasco revertesse o resultado? Não importava, qualquer acontecimento ou placar eram perigosos.

Nelsinho tremia de emoção, mas desconversava: ;O Flu está bem;. A partida virou em 0 x 0. E logo no início do segundo tempo, o zagueiro Edinho cobrou uma falta e fez o gol que daria o título ao Fluminense. Nelsinho chorou lágrimas de esguicho, mas segurou a notícia. E se o Vasco virasse? Ufa, finalmente o drama acabou. Contudo, havia ainda o mais difícil: como contar a Nelson sem desencadear uma violenta comoção?

Com habilidade, Nelsinho declarou contido: o Fluminense era campeão. Nelson não tinha forças, mas arrancou um grito: ;Preciso escrever;. Não conseguiu ordenar as palavras. Resolveu ditar para Nelsinho a última crônica: ;Amigos, em futebol, nunca houve uma vitória improvisada. Tem sido assim por meio dos tempos. Tudo começou 6 mil anos atrás. Vocês compreenderam?;

A crônica foi publicada em 2 de dezembro e, 18 dias depois, Nelson morreria: ;A maior dignidade da morte é física. Nunca o homem é tão belo como quando está morto;, escreveu Nelson: ;Porque tem então assegurada a eternidade, é na morte que o homem tem seu rosto verdadeiro. Na vida, usamos máscaras sucessivas e contraditórias. Só a morte revela a nossa verdadeira face;.

Em uma entrevista a Otto Lara Resende, ao ser perguntado sobre quais seriam as últimas palavras no leito de morte, Nelson respondeu: ;O Marx é uma besta. Que boa besta é o Marx!”. Nelson ficava indignado com o fato de o filósofo alemão nunca ter escrito nenhuma linha sobre o tema essencial. Mas Nelson partiu feliz, partiu no êxtase do campeonato levantado pelo Fluminense: ;A morte é um grande despertar;, intuiu o nosso profeta do óbvio.

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