Execução no coração de Brasília

Execução no coração de Brasília

O crime aconteceu no terminal que recebe os ônibus do Entorno, ao lado da Rodoviária do Plano Piloto. Uma terceira pessoa, parente dos mortos, também foi baleada e passou por cirurgia. Polícia suspeita de disputa por ponto de venda ambulante

» Bruna Lima » Sarah Peres Especiais para o Correio
postado em 05/07/2018 00:00
 (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)

Mãe e filho mortos a tiros. A filha e irmã deles atingida duas vezes no abdômen e transportada para o Hospital de Base com vida. Tudo às 14h40, na Rodoviária do Entorno do Distrito Federal, na área central de Brasília, a 3 km do Palácio do Planalto. O motivo para tamanha brutalidade na tarde de ontem seria uma rixa, surgida da disputa por clientes. Até as 21h, ninguém havia sido preso. A garota estava em estado grave, após passar por uma cirurgia.

Os mortos são Maria Célia Rodrigues dos Santos, 38 anos, e Wellington Rodrigues Santos da Silva, 22. Atingidos no coração, morreram no local. A garota levada com vida para o Base é Kerolyn Ketlen Moreira, 19. Os três trabalhavam como ambulantes na região central de Brasília vendendo doces e salgados. Moravam em Planaltina de Goiás, a 68 km do local do crime. Foram atingidos na área de embarque para Planaltina de Goiás e Novo Gama (GO).

Uma ambulante contou ao Correio que um homem e Wellington discutiram no terminal. Wellington pegou um facão e o outro sacou uma arma e atirou. Ao tentar defendê-lo, a mãe e a irmã de Wellington também foram baleadas. O criminoso fez, ao menos, quatro disparos. Havia muita gente no terminal, que não tem câmeras de segurança. Houve pânico. Pais tentavam proteger os filhos com o corpo. A maioria correu ao ouvir os disparos.


O assassino chegou em um Fiat Dobl; verde, mas deixou o veículo no estacionamento público, ao lado da Biblioteca Nacional, segundo a Polícia Civil. Agentes levaram o carro para perícia. Havia a suspeita do envolvimento de outra pessoa no crime, pois os corpos das vítimas estavam distantes. A PM procurava dois suspeitos apontados por testemunhas: uma pessoa que teria fugido em ônibus que seguia para Águas Lindas (GO), mas saltou do coletivo logo depois, no Buraco do Tatu. A outra saiu correndo sozinha.

Conhecido da família
Ao lado do corpo de Wellington, policiais militares encontraram um facão. Os agentes de segurança supõem que o rapaz carregava a arma branca para se defender. Em 25 de junho, a mulher do acusado teria ferido, com um golpe de faca, Wellington. As vítimas baleadas ontem registraram, semana passada, um boletim de ocorrência denunciando lesão corporal, ameaça e lesão recíproca, depois de terem se envolvido em uma briga no mesmo terminal. Desde então, Wellington passou a andar armado com um facão, que seria o mesmo encontrado na cena do crime.

Identificado pela polícia como Henrique, o suposto autor dos tiros também mora em Planaltina de Goiás. Segundo um irmão e filho das vítimas, de 16 anos, o suspeito é conhecido da família. ;A minha irmã (Kerolyn) chegou a me avisar que o Wellington e o Henrique tiveram uma briga, que chegou na polícia. Mas achei que tudo tinha se resolvido;, afirmou o adolescente.

Karolinne Vieira de Sá, irmã da viúva de Wellington, disse que a briga teria começado com a mulher do suspeito. ;Na semana passada, ela ameaçou todo mundo. Pegou um facão e tentou matar o Wellington. Eles até foram para a delegacia, mas não acabaram presos;, relatou.

A Polícia Militar diz ter identificado também três suspeitos de serem cúmplices do crime. De acordo com a corporação, duas mulheres e um homem receberam um telefonema de um dos suspeitos, pedindo para que eles escondessem o Dobl;. As chaves do veículo foram encontradas com um dos suspeitos, levado para a 5; Delegacia de Polícia (Área Central), responsável pelo caso.

O delegado Rogério Henrique Oliveira, chefe da 5;DP, afirmou, às 19h30, que ;os agentes estavam se inteirando sobre a ocorrência e a prioridade é prender o suspeito; e não tinha informações para repassar à imprensa. Ele não deu entrevista até o fechamento desta edição.

Mulher grávida
Quando os policiais e os bombeiros chegaram para atender a ocorrência, mãe e filho ainda respiravam. Kerolyn estava sentada em um banco de concreto próximo. No nono mês de gestação, a mulher de Wellington, Pâmela Vieira de Sá, 22 anos, chegou à Rodoviária do Entorno, ontem à tarde, em desespero, gritando o nome do marido. ;Meu Deus, o que fizeram com o meu amor? Eu queria abraçá-lo. Acabaram com uma família inteira!”, esbravejava Pâmela.

Por três vezes, ela tentou furar o bloqueio para ir ao corpo do marido, mas foi contida por policiais militares. Parentes e camelôs ampararam a mulher, que não quis dar entrevista.



Para saber mais

Terminal inaugurado em 2014

Com o nome oficial de Terminal Rodoviário Touring, a chamada Rodoviária do Entorno foi inaugurada em 4 de junho de 2014 e entrou em operação quatro dias depois. Ao custo de R$ 11,6 milhões, para a construção de 20 boxes com adequação viária para coletivos e outros três, mais amplos, destinados a ônibus articulados, o terminal conta com banheiros e sala de administração.

Localizada entre a Rodoviária do Plano Piloto e o Complexo Cultural da República, a Rodoviária do Entorno fica no térreo do antigo Touring; por isso o nome oficial. A necessidade da reforma do prédio para receber coletivos veio com as obras da estação do Expresso DF Sul na Rodoviária do Plano Piloto, iniciadas em março de 2014, quando os passageiros das cidades do Entorno passaram a pegar os ônibus na plataforma superior do local. As reclamações de falta de estrutura eram constantes e forçaram o GDF a construir um novo estacionamento para abrigar os 300 mil usuários. O terminal tem capacidade de receber mais de 600 coletivos por dia.



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