ARI CUNHA

ARI CUNHA

Desde 1960 Visto, lido e ouvido

aricunha@dabr.com.br com Circe Cunha / circecunha.df@dabr.com.br
postado em 05/07/2018 00:00
Cobrança de royalties sobre sementes compromete soberania de nossa agricultura

Karl Kraus, considerado um dos maiores escritores satíricos da língua alemã no século 20, costumava dizer que o progresso técnico deixaria apenas um problema: a fragilidade da natureza humana. É dele também outra frase que traduz a natureza ambígua do desenvolvimento humano: o progresso é o avanço inevitável da poeira.

No caso específico dos progressos técnicos obtidos por nossa agricultura, e a consequente transformação do país num dos maiores produtores agrícolas do planeta, pode-se aferir dessa revolução, até o momento, que esses avanços, ao mesmo tempo em que têm gerado grandes fortunas para os proprietários desses latifúndios de monocultura, têm produzido, como subproduto direto, a destruição da cobertura natural de milhões de hectares, o assoreamento de rios, a contaminação e o esgotamento do solo, além, é claro, do envenenamento progressivo dos consumidores.

O preço a ser pago pela geração instantânea de grandes capitais é infinitamente maior do que quaisquer lucros imediatos, sendo que os juros dessa dívida imensa será cobrado, de forma cruel, de gerações futuras. Depois da aprovação do pacote do veneno e da restrição da venda de produtos orgânicos em supermercados, como forma de restringir e encarecer esse tipo de produto, tornando a concorrência com os produtos oriundos do agronegócio impossível, as investidas desse poderoso setor, apoiado pela bancada ruralista, prosseguem de forma sistemática.

Trata-se de parte de uma grande estratégia que vem sendo meticulosamente montada pelas grandes corporações transnacionais, que operam no setor e que enxergam em nosso país possibilidades de lucros extremamente maiores do que os obtidos pelos grandes produtores nacionais.

Nessa nova investida, o alvo seria, segundo quem acompanha do assunto de perto, a Empresa Brasileira de Agropecuária (Embrapa), por meio do Projeto de Lei n; 5.243/2016, criando a EmbrapaTec, que abriria aos grandes aglomerados o patrimônio genético desenvolvido por essa empresa com mais de quatro décadas de pesquisa. Ao mesmo tempo em que se assiste a essa tomada de controle de nossa agricultura por poderosas empresas multinacionais em conluio com a bancada do agronegócio, outros projetos feitos sob medida para esse intento vão sendo costurados, um a um, visando transformar radicalmente a agricultura brasileira numa espécie de colônia baseada no sistema de plantation.

Merece destaque aqui também o Projeto de Lei 827/2015, que obriga o pagamento de royalties aos proprietários intelectuais das sementes denominadas cultivares, passando para as grandes empresas o controle sobre o uso de sementes, plantas e mudas modificadas, obrigando o agricultor tradicional a utilizar também agrotóxicos. Para especialistas ouvidos sobre o assunto, a proposta representa uma ameaça não só à segurança alimentar, mas à segurança e à soberania nacional do país, ampliando o controle e o domínio delas na própria política da agricultura brasileira.

Depois de episódios como o mensalão, que comprovou a venda de apoio para as propostas de governo, chega a vez da venda também dos direitos que os brasileiros possuem sobre o pão de cada dia.




A frase que foi pronunciada

Nós não herdamos a Terra de nossos antecessores, nós a pegamos emprestada de nossas crianças.
Provérbio índio americano




Dívida
; Quem nos envia o convite é Maria Lucia Fattorelli. Está pronta a programação do 1; Encontro Mineiro sobre Dívida Ecológica. Será em 19 de julho, das 8h às 17h no auditório da AFFEMG, na Savassi, em Belo Horizonte. Mais informações no Blog do Ari Cunha.


Assistam
; É possível pedir à TV Câmara o debate sobre o Pacote do Veneno, com Rogério Dias, ex-coordenador de Agroecologia do Ministério da Agricultura.


UnB
; Depois de tanta discussão, foi decidido pelo Conselho de Administração da UnB: a política de subsídios ao Restaurante Universitário manterá a gratuidade em todas as refeições para estudantes com renda familiar per capita de até um salário mínimo e meio.


Atenção
; Vai até amanhã as inscrições para o Programa Brasília + Jovem Candango. São 750 vagas. Quem tiver de 14 a 18 anos poderá cursar o ensino fundamental ou médio na rede pública ou ainda receber bolsa de estudos para a rede particular de ensino.




História de Brasília
A oficina da Disbrave está situada no Setor Comercial Residencial, de maneira imprópria. O serviço de lanternagem é feito no meio da rua, e, em muitos casos, o trânsito na W2 fica interrompido. (Publicado em 25.10.1961)




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