Um new deal para o Brasil

Um new deal para o Brasil

» SADY BORDIN Fundador-presidente da ONG Eu Consigo, escritor e piloto de avião
postado em 16/07/2018 00:00

O desemprego é um câncer que corrói o tecido social, destrói a autoestima e os sonhos de quem se encontra nessa situação. É um verdadeiro pesadelo que não tem fim, pois é assunto que tira o sono de milhões de brasileiros, estando no topo de sua lista de preocupações. Por isso deve ser combatido com determinação e medidas de resultado imediato. Não temos tempo a perder.

Durante a grande depressão americana, na década de 1930, o presidente Franklin Delano Roosevelt lançou um ambicioso programa para recuperar a economia e, principalmente, gerar empregos, conhecido por New Deal. Aquele programa, inovador e arrojado, foi uma verdadeira revolução na teoria econômica clássica, uma vez que pôs por terra a premissa vigente de que a economia se reacomodava de forma automática, especialmente via ajuste de preços (nesse caso, para baixo). Vale lembrar que a taxa de desemprego que atinge os jovens brasileiros atualmente é a mesma da época da Grande Depressão americana (25%).

Já nos acostumamos a ver o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgar que o número de desempregados no país não baixa da casa dos 13 milhões. Estamos cansados de não ver nenhuma reação do governo. Pelo nível de empregos gerados atualmente (203 mil no primeiro trimestre), seriam necessários absurdos 17 anos para zerar o estoque de desempregados no país. Evidentemente, é um tempo que o desempregado não tem. Em vez de focar no problema, o governo prefere comemorar a menor inflação da história, ou seja: uma verdadeira vitória de Pirro, pois, com a demanda reprimida por conta do desemprego, não há inflação. Não há o que comemorar.

Combater a inflação com desemprego é covardia. Recentemente dois renomados economistas, um de linha ortodoxa e outro, heterodoxa, travaram um acalorado debate sobre o melhor caminho para o país voltar a crescer sem gerar a volta da inflação, mas sem apontar de fato uma solução. Oras, para o desempregado, não importa a cartilha a ser utilizada: ele quer seu emprego de volta, não importa se via Keynes ou via mercado.

O New Deal foi um grande pacto nacional, liderado pelo governo. Porém, isso não significa que o governo bancou sozinho o programa, mas que exerceu seu papel ao conduzir, com investimentos produtivos, a retomada de um ciclo de crescimento econômico virtuoso, no qual a iniciativa privada (capital e trabalho) pôde vislumbrar um cenário promissor, confiável e de longo prazo. Houve então benefícios para todos (governo e sociedade) com essa adesão a uma grande aliança nacional em prol da retomada do crescimento da economia e da consequente geração de empregos.

O presidente Michel Temer poderia, no fim do seu governo, entrar para a história como o presidente que lançou um New Deal brasileiro, aproveitando o poder de sua caneta para gerar milhões de empregos. O Brasil carece de investimentos maciços em infraestrutura e o mundo está com dinheiro sobrando. Por que não atrair esses investimentos? Só a China tem US$ 3,4 trilhões em reservas. Sim, trilhões!

Se imaginarmos um programa ambicioso de geração de empregos em massa, estaríamos falando de um ingresso que poderá chegar a R$ 354 bilhões ao ano na economia. Apenas em impostos, seriam R$ 113 bilhões a mais nas contas do governo. Parece que o mercado está precisando é de uma ajuda à Keynes para pegar no tranco. Depois a roda da economia começaria a girar por seus próprios meios.

Presidente Temer: coloque o tema do desemprego como sua prioridade número um. Seja o autor de um New Deal brasileiro. Essa iniciativa pode significar a volta do crescimento, o emprego de milhões de brasileiros que estão vivendo à margem do mercado de trabalho e o fim de um interminável pesadelo.

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