Terror e mortes no sul do país

Terror e mortes no sul do país

Ofensiva de paramilitares e de forças leais ao presidente Daniel Ortega deixa 10 mortos e 20 feridos em Masaya, perto da capital. Carro de bispo é metralhado a caminho da cidade. Comissão Interamericana de Direitos Humanos cita "situação dramática"

Rodrigo Craveiro
postado em 16/07/2018 00:00
 (foto: Inti Ocon/AFP)
(foto: Inti Ocon/AFP)


R.M.G. pede ajuda à imprensa internacional. ;(O presidente Daniel) Ortega está nos matando. Há sequestros, torturas e calúnias contra a Igreja Católica;, afirmou ao Correio, sob condição de não ter o nome revelado, o morador de Masaya, cidade de 163 mil habitantes situada a 28km ao sul da capital, Manágua. ;Os enfrentamentos começaram por volta das 5h (8h em Brasília). Os paramilitares leais ao governo utilizam armamento de guerra, como metralhadoras e fuzis, além de francoatiradores;, acrescentou.

A violenta ofensiva das forças policiais e de paramilitares a povoados no sul da Nicarágua deixou ontem 10 mortos e 20 feridos. No sábado, dois estudantes tinham sido executados durante o cerco à Universidade Nacional Autônoma da Nicarágua (UNAN).

Entre os mortos de ontem, estão seis civis, entre eles, dois menores, e quatro policiais do Batalhão de Choque, de acordo com a Associação Nicaraguense Pró-Direitos Humanos (ANPDH). Ainda segundo a ONG, uma menina de 10 anos foi baleada no abdome e não resistiu à hemorragia, sem receber atendimento médico. ;Foi um massacre. Ortega está massacrando um povo desarmado. Isso não é uma guerra. Hoje (ontem), foi um dia de muita dor. O sangue correndo nas ruas, os gritos inconsoláveis das mães ao verem seus filhos mortos. Eu vi vários corpos estirados pelas ruas;, disse R.M.G.

Ele explicou que, todos os anos, Ortega promove uma caminhada, entre Manágua e Masaya, batizada de ;El Repliegue; (;O Recuo;), uma forma de celebrar o aniversário da ofensiva sandinista que levou à queda da ditadura de Anastasio Somoza, em 1979. ;Como Masaya não permitiu o evento, as forças do governo a tomaram, em represália;, acrescentou.

Até a Igreja Católica se tornou alvo, ontem. O carro que transportava o bispo Abelardo Mata rumo à cidade foi atingido por tiros de paramilitares ligados ao governo. Uma fotografia recebida pela reportagem mostra a camioneta com os pneus furados e os vidros dianteiros estilhaçados. Em outra imagem, o próprio religioso se encontra do lado de fora do veículo, aparentando estar bem.

Em entrevista ao Correio, o brasileiro Paulo Abrão, secretário executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA), classificou a situação na Nicarágua de ;dramática;. ;É absolutamente imperativo que o país abandone a repressão e a violência, busque os caminhos de um diálogo nacional e resolva suas diferenças no marco do Estado de direito;, afirmou. De acordo com ele, a Nicarágua enfrenta um novo modus operandi de repressão. ;Antes, era ação policial clássica, com uso abusivo da força e com detenções arbitrárias. Agora, são operativos de ordem pública da polícia, que atuam com grupos armados pró-governo. Entram nos bairros, no começo da noite, aterrorizando com tiros. Invadem casas sem ordem judicial e capturam pressoas. Nós contabilizamos 271 mortos e quase 2 mil feridos desde 18 de abril;, comentou.




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