Obstáculos ao progresso

Obstáculos ao progresso

A capital é inaugurada com pompa, mas as carências estruturais ficam expostas. Migração e aumento populacional, intensificado pelo nascimento dos primeiros brasilienses, revelam as deficiências de uma cidade em crescimento e às vésperas de um golpe militar. A precariedade no transporte atrapalha o vaivém nos anos 1960. É o que mostra o segundo capítulo da série iniciada no domingo

» JÉSSICA EUFRÁSIO » GUILHERME GOULART
postado em 16/07/2018 00:00
 (foto: Arquivo Público do DF/Fundo Secretaria de Comunicação Social)
(foto: Arquivo Público do DF/Fundo Secretaria de Comunicação Social)

Brasília sente a pressão. Passada a rebordosa do 21 de abril, a capital tem muito a fazer. A urbanização incipiente vira armadilha. É gente de todo o canto que chega pelo aeroporto e por rodovias recém-abertas. No mesmo ritmo das obras, os problemas aparecem. Falta moradia para os 141.742 habitantes de 1960. Invasões, surto de doenças, incêndio em barracos, desconfiança quanto à qualidade da água. Tudo exige atenção do Estado.

A deficiência na infraestrutura respinga no transporte. Ônibus e caminhões comandam o tráfego no início da década. Pistas largas e sinalização precária convidam à imprudência. Logo ocorrem os primeiros acidentes graves. As colisões têm frequência quase diária. Em 4 de maio de 1960, o Correio Braziliense registra o atropelamento fatal do ;sr. Temistocles Ribeiro de Carvalho (brasileiro, casado, de 29 anos);, ;ontem, às 2,15 da madrugada;. A reportagem ; ;Encontrado morto no Eixo Rodoviário; ; denuncia a fuga do motorista.


É preciso tomar providências. A solução é deslocar homens da despreparada Guarda Especial de Brasília (GEB), vinculada à Novacap, para fiscalizar motoristas. A ordem é parar, com prisão, os apressadinhos. A Divisão de Trânsito do Departamento Federal de Segurança Pública faz ações educativas e instala lombadas nas superquadras do Plano Piloto. Pouco adianta: 90% das colisões têm como vilão o excesso de velocidade. Em 1964, o total de vítimas do asfalto passa de 100 em março.

Hora do rush
Com voos nacionais e internacionais, o Aeroporto de Brasília é o terceiro mais movimentado do país. Dois meses após a inauguração, 26.811 passageiros desembarcam na capital. Quem chega se surpreende com a cidade desestruturada, os monumentos em construção e a imensidão pouco arborizada. Apesar disso, o Distrito Federal toma forma. A Cidade Livre ; ou Núcleo Bandeirante ; perde o reinado. Ganha a concorrência do Plano Piloto, Paranoá, Gama, Taguatinga, Planaltina, Sobradinho e Candangolândia.


A expansão territorial impõe obstáculos além da segregação social e exige alternativas de locomoção. Viações particulares, como Pioneira, Planeta e São Sebastião, atendem aos moradores das cidades-satélites, algumas com papa-filas na frota. Mas veículos sujos, tarifas caras e ameaças de greve viram rotina. O governo arrisca soluções. Em 8 de maio de 1961, cria a Sociedade de Transportes Coletivos de Brasília Ltda., a TCB. As operações começam em 1; de junho, com 35 ônibus.

Entre os primeiros contratados, está o goiano Carlos Caetano. Em 21 de novembro, o mais novo cobrador da estatal cumpre a tarefa na linha circular W3 Sul;L2 Sul. ;Os ônibus vinham lotados, especialmente na hora do rush. Na W3, eles enchiam mais e, em geral, os passageiros eram operários. Depois, as viagens passaram a ter mais funcionários do governo;, relembra.

Carlos testemunha o progresso. ;Os ônibus circulavam entre locais como a Praça dos Três Poderes, Taguatinga e Vila Planalto. Eram veículos bem diferentes. Hoje, eles são maiores, modernos e confortáveis;, compara, aos 79 anos. O aposentado passa mais de cinco décadas na TCB.

Perigo na W3
É tempo de instabilidade política. O presidente da República, Jânio Quadros, renuncia, e o sucessor, João Goulart, é deposto. O Brasil acaba amordaçado pela ditadura em abril de 1964. Terminais rodoviários e aéreo viram pontos estratégicos do regime. Deixar o país depende de autorização do governo. Embarques no aeroporto ocorrem por grupos de cinco passageiros.

Em 13 de março de 1967, a regulação do transporte ganha um aliado: o Detran. O engenheiro civil Fernando Dias comanda a Engenharia de Trânsito da autarquia. ;Criamos uma comissão para sinalização. Não havia nada. Tão logo o departamento foi instituído, deu-se início aos exames de admissão. Antes, eram promovidos pelo Detran de Goiás, com uma banca que vinha de Goiânia para aplicar provas;, detalha, aos 84 anos, o chefe do Detran no DF em 1969.

Na Asa Sul, a W3 bomba. É a pista mais movimentada no fim da década. A imprudência assusta. Pedestres reclamam da bandalheira dos motoristas. A frouxidão na vigilância viária contrasta com a repressão militar, que sufoca a liberdade e prejudica a rotina acadêmica. Em 1968, 200 policiais invadem a UnB e atacam 500 estudantes. Em seguida, o governo decreta o AI-5. Os anos de chumbo estão à espreita na década de 1970.


Clássico

Inventado nos EUA na 2; Guerra Mundial, o papa-filas chegou ao Brasil em 1957. O veículo tinha uma carroceria de ônibus sobre uma carreta tracionada por um cavalo de caminhão. Transportava 120 passageiros, um absurdo para a época ; por isso, o apelido. O papa-filas logo saiu de circulação por ser lento, pesado e ruidoso.


LINHA DO TEMPO

1960-1969

Jornais registram os dois primeiros acidentes de trânsito, um dia antes da fundação de Brasília
Inaugurada, em 12 de março de 1960, a Rodoviária do Plano Piloto
Aberta a estação de passageiros do Aeroporto de Brasília, que passa a receber voos da Pan American, na rota Buenos Aires;Nova York, e da Varig, com destino aos Estados Unidos
A máxima ;cabeça, tronco e rodas; nasce em Brasília. A primeira corrida automobilística ocorre dois dias após a inauguração. O Grande Prêmio Juscelino Kubitschek inclui Avenida das Nações, Eixo Rodoviário e Praça dos Três Poderes
O governo inicia a urbanização da Cidade Livre em agosto de 1960. Algumas vias são asfaltadas e viram mão única
Em 23 de abril de 1961, a EPTG é inaugurada
Em 21 de abril de 1962, ocorre a primeira edição dos Mil Quilômetros de Brasília, campeonato disputado nas pistas da cidade
Em 14 de julho de 1965, cria-se o Departamento de Tráfego e Concessões, com responsabilidade sobre itinerários, horários, tarifas e autorizações
Saem as primeiras permissões de táxi em 1966
Em 1967, o Departamento de Tráfego e Concessões emplaca 19.351 veículos. São 17.875 particulares e oficiais, 433 ônibus e 1.043 táxis
A viagem inaugural da linha férrea, construída pelo Exército, é feita em 14 de março de 1967. O trem chega à Estação Bernardo Sayão, entre Núcleo Bandeirante e Guará
Em 21 de

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