Os novos czares da bola

Os novos czares da bola

Três heróis forjados em base vitoriosa, reformulação do elenco, reinvenção tática após fracasso em casa na Euro-2016 e coragem para apostar num menino de 19 anos: entenda o salto da França para o bi

Marcos Paulo Lima Enviado especial
postado em 16/07/2018 00:00
 (foto: Franck Fife/AFP)
(foto: Franck Fife/AFP)


Moscou ; Quando os melhores jogadores jovens das Copas de 2014 e de 2018 comem a bola como se fossem veteranos em uma final retrô com seis gols, e não derramam uma gota de lágrima nem na festa do bicampeonato, exalando equilíbrio emocional, é preciso usar lente de aumento para entender o que está acontecendo na França. Pogba, 25, um ano mais jovem do que Neymar, fez o terceiro gol do título. Mbappé, 19, marcou o quarto no triunfo polêmico por 4 x 2 sobre a Croácia, ontem, no Estádio Luzhniki.

Quando o artilheiro da Euro-2016 com seis gols, eleito o número 3 do mundo naquela temporada, aceita abdicar da possibilidade de desbancar os 10 anos de dinastia de Cristiano Ronaldo e Messi por um projeto coletivo, maior do que ele, e passa de flecha a arco, é necessário tirar o chapéu para o poder de convencimento de Didier Deschamps. E quando esse técnico, em dois anos, traz para a Rússia apenas nove vice-campeões no fracasso de dois anos atrás, aposta em um moleque de 19 anos como titular e reinventa esse time da tática ao contestado estilo justamente por causa do prodígio, é porque temos uma revolução francesa.

Sim, a França teve uma ajudinha do árbitro argentino Néstor Pitana. Na Copa em que Neymar foi campeão no quesito simulação, Griezmann deu inveja ao brasileiro ao cavar a falta do primeiro gol. Na Copa do recorde de gols contra (12), o azarado centroavante Mandzukic abriu o placar. Foi vítima do ponto forte da França no bi: a bola parada. Dos 14 gols marcados pelo melhor ataque do torneio, ao lado da vice Croácia e da terceira colocada Bélgica, sete ocorreram com o truque. A Croácia usou o mesmo veneno no gol de empate de Perisic.

Como se não bastasse ter caído na malandragem de Griezmann no gol da França, Néstor Pitana apareceu de novo na melhor decisão desde os 3 x 2 da Argentina sobre a Alemanha, em 1986, ao errar duas vezes em um só lance. Perisic não teve intenção de tocar a bola com a mão após o desvio em Matuidi. Indeciso, o juiz, que até então não havia usado o VAR em nenhum dos cinco jogos mediados por ele, achou de pedir ajuda. Sem nenhuma convicção, deu pênalti. Pela primeira vez, em 88 anos, uma final teve influência (errada) do árbitro de vídeo. Griezmann não desperdiçou a chance.

Aí, entrou em campo o poder das divisões de base da França. Campeão da Euro Sub-19 em 2010, Griezmann, 27 anos, acertou o ;arco do triunfo; defendido por Subasic e deixou o jogo mais leve para outros dois meninos com DNA vencedor tocarem o terror. Campeão mundial Sub-20 em 2013, Pogba acertou um chute belíssimo no canto direito da Croácia. Há cinco anos, ele conquistava a Bola de Ouro do principal torneio juvenil da Fifa. Um ano depois, era o melhor jogador jovem da Copa de 2014. Ontem, consolidou a conquista do bi.

Mbappé
O lance do gol de Pogba começou com dribles desconcertantes e objetivos de quem também foi campeão na base recentemente. Em 15 de julho de 2016, Mbappé acabava com um jogo contra a Croácia na Euro-Sub 19 ao balançar a rede duas vezes. Novamente em 15 de julho, só que de 2018, e aos 19 anos, o menino acabou com uma final da Copa! Campeão daquele torneio no mesmo ano em que a França perdeu a Euro para Portugal, Mbappé foi o responsável pelo último passo da revolução francesa para o bi na Rússia.

Deschamps escalava a França no sistema 4-4-2 na Euro-2016. Com a ascensão de Mbappé, mudou para o 4-2-3-1. Praticamente fez terra arrasada após o fracasso em casa. Trouxe para a Rússia apenas nove vice-campeões. Em casa, tentou jogar ao estilo Pep Guardiola, com média de posse de bola de 56%. Só não funcionou contra Portugal. Na Rússia, escolheu deixar a bola com os adversários, principalmente no mata-mata, e optou por ser cirúrgico no ataque. Contra a Bélgica, teve a bola em 40% do tempo e triunfou. Diante da Croácia, 39%.

Em vez da posse de bola, Deschamps escolheu a posse da Copa. Ele sabia que tinha dois cães de guarda impecáveis na marcação: Pogba e Kanté. Também contava com a correria, os dribles e a objetividade na finalização de Mbappé. E o espírito coletivo de Griezmann. Mesmo com um camisa 9 que não marcou gol nos sete jogos do título, fez o time entender que o bicampeonato passaria pelo lema da revolução francesa: liberdade, igualdade e fraternidade, com o desafinado Giroud e o capitão Lloris, responsável pela falha no gol de Mandzukic.




Seis gols na decisão
Depois de três finais consecutivas decididas na prorrogação ou nos pênaltis em 2006, 2010 e 2014, a Copa da Rússia teve uma decisão como nas edições de 1930, de 1938 e de 1966, ou seja, com seis bolas na rede ; quatro da França e duas da Croácia.




Fórmula da juventude
Seleções mais novas a conquistar a Copa

1970 ; Brasil: 25 anos e 70 dias
1950 ; Uruguai: 25 anos e 224 dias
1958 ; Brasil: 25 anos e 308 dias
2018 ; França: 26 anos e 11 dias
2014 ; Alemanha: 26 anos e 68 dias




Os melhores da Copa
Bola de ouro: Luka Modric
Bola de prata: Eden Hazard
Bola de bronze: Antoine Griezmann
Chuteira de ouro: Harry Kane
Melhor goleiro: Thibaut Courtois
Melhor jogador jovem: Kylian Mbappé
Troféu fair play: Espanha


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