Parcelamento de multa pode custar caro

Parcelamento de multa pode custar caro

Especialistas alertam para os altos juros e recomendam buscar alternativas de crédito. Simulação revela que dívida de R$ 2,7 mil, em 12 vezes, ficaria R$ 1 mil mais cara

» BRUNO SANTA RITA*
postado em 15/07/2018 00:00
 (foto: Bruno Santa Rita/Esp.CB/D.A. Press)
(foto: Bruno Santa Rita/Esp.CB/D.A. Press)


Parcelar as multas de trânsito é uma alternativa para o condutor que não dispõe de dinheiro suficiente para saldar os débitos e não pode dispensar o uso do carro para cumprir as obrigações diárias. Porém, o motorista precisa ficar atento, porque os juros praticados não são nada amigáveis, e os especialistas recomendam checar outras possibilidades antes de optar pelo parcelamento. Em simulações feitas pelo Correio, no site Zapay, as taxas alcançaram 5% ao mês. Uma dívida de R$ 2.737,99, quando parcelada em 12 vezes, subiu para R$ 3.771,87, mais de R$ 1 mil do valor original.

O parcelamento de multas e débitos de veículos foi permitido este ano. Após a Resolução n; 697 de 10 de outubro de 2017 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), o Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF) credenciou empresas para realizarem o pagamento por meio de cartões de débito e de crédito.

O educador e terapeuta financeiro Jônatas Bueno acredita que as taxas disponíveis são altas porque as companhias foram convidadas a participar do credenciamento. ;Praticar juros mais altos desperta o interesse das empresas;, analisa. Outro motivo, avalia, é tirar do governo a responsabilidade sobre as questões financeiras. ;Não é intuito do Detran tratar disso;, acrescenta. Bueno explica que multas e débitos precisam ser pagos. Porém, antes de parcelar, quem tem débitos pendentes deve checar alternativas mais baratas, como crédito pessoal ou consignado. Segundo ele, quando o parcelamento é a única opção, o condutor tem de verificar se o valor mensal caberá no orçamento.

Cortar pela raiz

Para o educador financeiro Reinaldo Domingos, do canal Dinheiro à Vista, a possibilidade do parcelamento é positiva. ;É uma medida que ajuda. Leva as pessoas a uma reabilitação do crédito;, justifica. Contudo, ressalta que não há muito o que fazer sobre os altos juros praticados. O ideal, conforme Domingos, é cortar o problema na raiz e evitar cometer infrações de trânsito. ;A grande orientação é que as pessoas parem de ser multadas;, defende. Para quem já está enrolado com as multas, o especialista também recomenda procurar uma linha de crédito mais barata.

Outra alternativa, orienta o educador financeiro, é buscar apoio na família ou com amigos. São empréstimos mais brandos que ajudam a quitar as multas de uma vez. ;Buscar uma liquidação à vista é o melhor dos remédios, mesmo que seja necessário pedir dinheiro emprestado para algum parente próximo ou amigo;, destaca. Por fim, Domingos afirma que, se for inevitável, o parcelamento precisa ser planejado. ;É necessário honrar as prestações. Para isso, é sempre bom fazer uma perspectiva do orçamento mensal considerando o novo compromisso. É a única forma de lidar com um parcelamento sem aumentar as dívidas;, ensina.

O professor de finanças do Insper Ricardo Rocha reforça as recomendações. ;O ideal é fazer uma pesquisa sobre as melhores taxas;, recomenda. Caso haja reservas financeiras de emergência, essa também pode ser uma opção. ;Às vezes, as pessoas têm medo de gastar o dinheiro guardado. Mas vale a pena usar o recurso de uma poupança e pagar à vista;, acrescenta. Caso o devedor assuma o parcelamento, Rocha alerta que a inadimplência é alta nesses casos, o que justifica os altos juros.

O diretor de controle de condutores de veículo do Detran-DF, Uelson Sousa Prazeres, explica que uma saída para baratear o custo é a concorrência, diz Prazeres. ;A porta para o credenciamento ainda está aberta. Quanto mais empresas aderirem, maior a competição e, consequentemente, menores taxas;, estima. Outra medida que deve estimular a adesão é a possibilidade de cadastramento dessas empresas em âmbito nacional. ;O Denatran (Departamento Nacional de Trânsito) deve soltar outra resolução que vai autorizar isso;, informa.

Única saída

Prazeres destaca que um dos objetivos do parcelamento é possibilitar que as pessoas que precisam do carro diariamente para trabalhar possam usar os veículos. ;Muitos motoristas dependem do veículo e não tinham como pagar os débitos;, argumenta. Tanto que, segundo ele, muitos usuários optaram por pagar as multas em parcelas.

É o caso da comerciante e estudante de farmácia Vanessa Machado, 26 anos. Ela explica que, com o seu orçamento atual, não consegue quitar as multas. ;É minha única saída;, lamenta. Quando questionada a respeito dos juros, Vanessa, que têm débitos de R$ 1,5 mil por dirigir usando o celular e por excesso de velocidade, diz não ter conferido o valor final.

Já o técnico de audiovisual Luiz Pablo Bezerra, 23, seguiu os conselhos dos educadores financeiros e pesquisou na internet a melhor forma de quitar o débito de R$ 2.729,61. Descobriu que a melhor opção era pagar à vista e decidiu esperar por recursos de um consórcio da sua empresa. ;Vou usar esse dinheiro para quitar minhas multas. Se faltar, farei um empréstimo fora;, conta.

* Estagiário sob supervisão de Simone Kafruni

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