"Ele se tornou meu amigo verdadeiro"

"Ele se tornou meu amigo verdadeiro"

postado em 15/07/2018 00:00
 (foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)
Em 1979, quando Christo Brand, 58 anos, chegou a Robben Island, tinha apenas 18. Branco e filho de um capataz, nunca tinha escutado falar em Nelson Mandela. Ao assumir o posto de carcereiro da prisão, na ilha a 6,9km da Cidade do Cabo, imaginou que lidaria com os detentos mais perigosos da África do Sul. Até conhecer o futuro presidente e líder da luta pacífica contra o apartheid. Em entrevista exclusiva ao Correio, por e-mail, Brand falou sobre as primeiras impressões que teve sobre Mandela e ressaltou que o então prisioneiro de número 466/64 transparecia ser um ;homem calmo e digno;. Mandela chegou a Robben Island em 1964. Com o tempo, carcereiro e preso construíram sólida amizade, que perdurou mesmo depois da transferência de ambos para a penitenciária de Pollsmoor, em abril de 1982, e da libertação de Mandela, em 1990 ; após 28 anos detido. ;Mandela foi bondade pura;, afirmou Brand, coautor de Mandela: Meu prisioneiro, meu amigo (Ed. Planeta).







Qual foi a sensação quando o senhor viu Nelson Mandela pela primeira vez na prisão de Robben Island?
Quando eu cheguei a Robben Island, em 1979, o comandante fez para nós um pequeno discurso sobre o tipo de prisioneiros com quem trabalharíamos. Então, o diretor da prisão explicou que se tratavam dos maiores criminosos da história da África do Sul. Todos eles seriam criminosos que deveriam ter recebido a pena de morte. Cresci em uma comunidade onde nada sabia sobre política. Eu vim de uma comunidade agrícola. Até então, nada sabia sobre Mandela. Eu nunca tinha escutado o nome ;Mandela;. Ao desembarcar em Robben Island, também não me contaram que eu me encontraria com Mandela. Quando eu entrei na Seção B, no primeiro dia, eles me levaram para o primeiro sargento encarregado e me apresentaram a ele. Mandela saiu de uma cela oposta ao escritório e disse: ;Oh, um novo guarda;. Perguntou meu sobrenome em africâner. Este homem estava falando africâner fluentemente e não se podia ver que ele seria perigoso.

O senhor percebeu que estava diante de um homem diferente?
Ele era um homem calmo e digno, com um porte imponente, alto, magro e esbelto, graças ao regime diário de exercícios físicos. Ele trazia o uniforme de prisioneiro imaculadamente limpo. Fiquei muito surpreso por ele não ter tentado falar sobre política comigo e por não me perguntar sobre o mundo exterior. Tudo o que quis saber foi de onde eu vim, se meus pais eram vivos, e questionou-me se eu tinha irmãos e irmãs. Ele me perguntou quais esportes eu praticava, então falei sobre minhas corridas e contei que gostava de jogar badminton. Ele sorria e balançava a cabeça, dizendo que as atividades físicas são boas para a saúde e o moral dele. Então, me indagou se eu estava estudando. Eu respondi que estava estudando procedimentos criminosos para o trabalho na prisão, a fim de obter uma promoção.

Então, ele pareceu interessado em sua vida pessoal?
Sim. Os seus modos eram paternais, denotavam preocupação. Ele me pediu que fizesse o favor de mandar um alô para os meus pais, da próxima vez que eu os visse. Também me perguntou sobre namoradas, e eu lhe respondi que, sim, eu tinha umas poucas. Ele pareceu desaprovar isso, dizendo que eu devo tomar o meu tempo e escolher uma certa para mim. No caminho de volta à Seção B, Mandela me agradeceu pela ótima conversa e disse esperar que pudéssemos nos falar novamente, quando estivéssemos a sós.

Mas o que em Mandela mais lhe impressionou naquele momento?
O que mais me impressionou foi sua gentileza. O jeito doce com que tratava a todos ao redor.

O fato de o senhor ter convivido com pessoas de cor negra durante sua infância contribuiu para que tivesse outra visão sobre Mandela e seus companheiros em Robben Island?
Eu estou certo disso.

Em várias ocasiões, o senhor colocou o seu emprego em risco para fazer concessões a Mandela, como quando permitiu que ele conhecesse a neta, recém-nascida. Por que decidiu fazer essas concessões?
Porque, além de ser um ídolo, Nelson Mandela se tornou meu amigo verdadeiro.

Que reação teve ao vê-lo saindo da prisão?
Quando Mandela saiu da prisão, eu imaginei que nossa jornada juntos tivesse chegado a um fim. Para minha surpresa, ele me telefonou, quando eu estava na Prisão de Segurança Máxima de Pollsmoor, na Cidade do Cabo. Mandela soube que Pollsmoor estava se incendiando, com levantes frequentes. O local era como uma bomba-relógio, ele sentia responsabilidade por isso e a necessidade de desmontá-la. Eu disse a ele: ;Mandela, todos aqui querem sair do modo como você o fez. Nós não podemos controlá-los. Todos os carcereiros daqui estão batendo nos prisioneiros, eles os mantêm em correntes, a situação aqui é infernal;. Mandela respondeu que queria me ver, ele desejava colocar Pollsmoor em ordem. E me contou que poderia haver um trabalho administrativo para mim. No dia seguinte, recebi um telefonema de uma secretária no Parlamento, a qual me pediu que enviasse um CV (curriculum vitae) e fosse ao seu escritório. Eu não tinha ideia do que era um CV, então cheguei com minha identidade. Sempre acho isso engraçado. Desde então, passei a participar da vida de Mandela, estive presente nos mais importantes momentos, e é uma honra ser considerado parte de sua família.

Mandela esteve na prisão por 28 anos, se tornou presidente e pôs fim ao apartheid. Qual é o simbolismo disso para o senhor e para o mundo?
Ele é o maior símbolo de liberdade de nossos tempos. E representa a esperança de um mundo melhor.

Como Mandela passou tanto tempo em Robben Island? Ele sempre se mostrou resignado com o seu destino?
Mandela foi bondade pura. Ele foi capaz de se manter em paz por todos esses anos graças à sua convicção de que o melhor ainda estava por vir. Seu coração estava repleto de esperança e isso deu a ele a força para se manter firme. (RC)





Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação