Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

postado em 15/07/2018 00:00
Pautas-bombas da Copa

Em uma das inúmeras mesas-redondas sobre a Copa da Rússia, alguns jornalistas afirmaram que a Champions League é mais importante do que a Copa do Mundo. Claro que não, basta abrir os olhos e sair pelas ruas, superquadras, shoppings, bares e botequins. Imagine se o Brasil faz feriado e reúne toda a família para ver a Champions League?

O problema é que, enquanto torcíamos e nos retorcíamos pelo Brasil, suas excelências, os deputados federais, aproveitaram a nossa desatenção para votar os projetos mais nocivos para o país, com uma irresponsabilidade delirante.

O deputado Luis Nishimori (PR-PR) apresentou a chamada PL do veneno, que facilita a aprovação de produtos agrotóxicos altamente nocivos aos agricultores, ao meio ambiente, aos alimentos e à saúde pública. Detalhe: a família do relator é dona de empresas que vendem agrotóxicos no interior do Paraná: a Mariagro Agricultura e a Nishimori Agricultura.

Além de pretender envenenar a população, a bancada ruralista está preocupada com a recepção cada vez maior dos produtos orgânicos. Proposta do deputado Edinho Bez (PMDB-SC) limita a comercialização de produtos orgânicos a propriedades particulares e feiras livres ou permanentes em espaços públicos.

Na mesma linha, o deputado paranaense João Arruda (MDB), relator do projeto de lei que revoga a Lei de Licitações, não brincou em serviço. Incluiu em seu relatório regra que beneficia diretamente o conglomerado de empresas controlado por seu sogro e sua mulher, líder do segmento de seguros. O valor atual do seguro-garantia vai de 5% a 10%. João Arruda aumentou o valor para 30%. Com isso, ganham as seguradoras e as obras públicas ficam mais caras.

Como se não bastassem, na contramão de todo o esforço para conter o desequilíbrio fiscal, suas excelências aprovaram uma série de pautas-bombas que resultarão em um impacto de R$ 100 bilhões nas despesas públicas do próximo governo.

É desproporcional e descabido o ódio a Neymar nas redes sociais por causa do desempenho na Copa da Rússia. Fazem um barulho enorme. Mas as redes sociais não se assanham e não se movimentam para protestar e contestar essas aberrações da classe política, que afetam muito mais a nossa vida do que o teatro de Neymar.

As eleições estão aí. É hora de inventar o voto-bomba para os políticos que legislam em causa própria e contra o interesse público. Diante de tudo isso, me dá vontade de fazer o mesmo que o personagem do filme A Idade da Terra, de Glauber Rocha, em cena filmada no meio do cerrado de Brasília, atrás do Palácio do Planalto, e berrar para o descampado: ;Construiremos uma nova nação. Acorda, Brasil. Acorda, humanidade! Acorda, humanidade!”.



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