De jipe para fiscalizar obras

De jipe para fiscalizar obras

postado em 15/07/2018 00:00
 (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)

O aeroporto comercial de Brasília é o 10; mais movimentado do país nos últimos anos da construção. Do hangar, o engenheiro civil Paulo Janot Borges enxerga, pela primeira vez, a imensidão brasiliense. O mineiro de Belo Horizonte desembarca na cidade com a missão de fiscalizar as empreiteiras em nome da Novacap. É recebido pelas chuvas de setembro de 1959: ;Só havia lama quando cheguei, e o terminal de passageiros era um barracão de madeira.;

Para cumprir o trabalho, Paulo Janot circula de jipe por toda a região. Observa a precária mobilidade local. ;O governo optou pelo transporte rodoviário, porque era mais rápido de ser executado. Isso, além do combustível barato, favoreceu a circulação nas estradas;, explica.

Apesar das dificuldades, Paulo sente-se privilegiado quase 60 anos depois. ;Tive a oportunidade de ver uma cidade saindo do zero. Se fosse só pelo viés financeiro, não valeria tanto a pena. Não havia conforto, o transporte era raro e havia pouca diversão. A experiência valia mais pelo exercício da profissão, pelo aspecto técnico e pelo prazer de estar aqui no início;, completa, aos 88 anos, o engenheiro aposentado, ainda morador da capital.

Às vésperas dos anos 1960, a cidade muda de plano. Sai do sonho para a realidade. Traços, curvas, arquitetura e arte, os grandes espaços que compõem a paisagem urbana até hoje provocam estranheza ao brasileiro. É moderna e se prepara para a inauguração. Há, sim, muitas conquistas a celebrar. A festa, no entanto, tem data para acabar. A comemoração ; poucos sabiam ; logo daria lugar à apreensão e à angústia. Um golpe contra a democracia surgia no horizonte.


Artigo



Menos carro, mais caminhada

Nos anos 1950, arquitetos de todo o mundo derrubavam prédios para criar rodovias, porque acreditavam que o futuro dos transportes urbanos eram os automóveis. E, então, Brasília, nascida naquela era, foi construída em torno de estradas. Mas, agora, a insustentabilidade do transporte automotivo para as cidades ficou clara em pelo menos cinco dimensões. A primeira é a capacidade limitada de crescimento. À medida que a força de trabalho de uma cidade aumenta, linhas de trem podem multiplicar essa capacidade com locomotivas circulando com mais frequência. Estradas, porém, não podem comportar duas vezes mais carros, nem repetir isso.

Em segundo lugar, nós trouxemos os carros para as nossas cidades a fim de que eles nos ajudassem. Contudo, eles estão nos matando, em uma frequência que não toleraríamos em nenhuma outra indústria. Todos os dias, no Distrito Federal, uma pessoa é morta e 30 ou mais ficam gravemente feridas. O terceiro ponto é que a dependência dos automóveis segrega a sociedade, de modo que muitos empregos e atividades ficam fora do alcance daqueles que não têm condições de ter um automóvel.

Outra dimensão é o fato de que veículos contribuem enormemente com mudanças climáticas e com a poluição. Em quinto lugar, automóveis estão promovendo uma crise de saúde pública, fazendo com que andar se torne desnecessário e perigoso. Pela primeira vez na história da humanidade, temos uma geração que não se exercita o suficiente, e a obesidade resultante disso logo ultrapassará o fumo como a nossa maior ameaça à saúde pública.

Brasília pode se tornar uma cidade transitável a pé, de bicicleta e com um sistema público de transporte de alta qualidade. Para isso, o metrô, obviamente, precisaria ser estendido por toda a Asa Norte. O BRT é necessário no Eixo Monumental, da mesma forma que os ônibus expressos nas cidades-satélites. O sistema cicloviário demanda conexões críticas no centro e ao longo das rodovias para se tornar uma rede de verdade. Outra proposta é iniciar um programa de constante redução da oferta de estacionamentos e, ao mesmo tempo, aumentar os preços nesses locais para auxiliar o financiamento de melhorias na mobilidade.

Mas a maior necessidade é pela caminhada. É preciso remodelar as vizinhanças com calçadas para que as estações de metrô se tornem a porta da frente. Construir prédios residenciais com janelas viradas para esses caminhos a fim de que as pessoas se sintam seguras à noite. Mudar as lojas para que as entradas fiquem voltadas às praças, e as portas dos fundos, às ruas. Nos semáforos, os pedestres nunca devem aguardar mais do que 60 segundos. Nas travessias sem sinal, a instalação de ilhas de tráfego (espécie de canteiros centrais) permitirá aos carros reduzir a velocidade e, aos pedestres, atravessar uma via de cada vez.

Planos novos e arrojados são necessários para travessias seguras e atrativas no Eixão. Na área central, cruzamentos de largas avenidas nunca devem estar separados por mais de 200 metros, de modo que os pedestres não tenham de arriscar suas vidas correndo pela rua à procura de uma rota direta. Ao longo de toda essa região, deve ser dada prioridade a trajetos atraentes para caminhada a fim de que as pessoas possam aproveitar um passeio do escritório até o metrô, a um café ou ao parque. Brasília pode se adaptar a uma nova visão de mobilidade urbana? Acredito que sim. Fazendo isso, ela se tornará, novamente, uma cidade modelo.



LINHA DO TEMPO

Anos 1950

1956
Em 2 de outubro, JK viaja a Brasília pela primeira vez, de avião, e aterrissa no Aeroporto de Vera Cruz, onde fica a antiga Rodoferroviária
Uma semana depois, um novo campo de pouso provisório é aberto. Desta vez, nas proximidades da Fazenda Gama, onde, atualmente, fica o Brasília Country Club
Constitui-se 3 de novembro como o início da construção de Brasília
A Novacap abre avenidas de terra batida no Núcleo Bandeirante, antiga Cidade Livre
Há 80km de rodovias encascalhadas e 232 operários em atividade

1957
Em janeiro, cria-se a linha Goiânia;Brasília. As viagens, pela Viação Araguarina, duram 12 horas
Em 15 de fevereiro, a Shell instala bombas e tanques de gasolina e óleo diesel na cidade
Em 23 de fevereiro, ocorre o primeiro pouso na pista de 2,4km do novo aeroporto. A bordo de um Douglas C-47 saído do Rio de Janeiro, estão o então presidente da Novacap, Israel Pinheiro, e parlamentares
A inauguração oficial do aeroporto comercial de Brasília ocorre em 3 de maio. O terminal conta com pista de 3,3km, sendo 2,4km pavimentados, pista de operação de 45m e terminal de passageiros
Real-Aerovias-Nacional, Vasp, Cruzeiro do Sul e Lóide Aéreo operam voos para Brasília
O primeiro voo internacional é da Real-Aerovia

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