Meia hora de paz na guerra

Meia hora de paz na guerra

Correio visita o monumento e o estádio da partida em que Dínamo de Leningrado e Nevsky Zavod desafiaram as tropas nazistas jogando futebol. Neto de sobrevivente conta como foi

Marcos Paulo Lima Enviado especial
postado em 15/07/2018 00:00
 (foto: Marcos Paulo Lima/CB/D.A Press)
(foto: Marcos Paulo Lima/CB/D.A Press)






São Petersburgo ; A capital do antigo Império Russo recebeu sete partidas da Copa, mas nenhuma delas será lembrada na ;Cidade dos Mortos; como um jogo de 76 anos atrás, disputado no período em que a Segunda Guerra, ou Guerra Patriótica, como preferem chamá-la no país, impediu a realização de duas edições do Mundial da Fifa. Muito menos receberão homenagem numa praça histórica, a 3km da Arena São Petersburgo. Às 14h de 31 de maio de 1942, o barulho dos bombardeios foi substituído pelo pacífico som do apito de um árbitro.

Leningrado, como se chamava São Petersburgo, estava cercada pelas tropas alemãs do nazista Adolf Hitler. A comunicação foi cortada. A vizinha Finlândia fechou as fronteiras, impedindo a principal rota de fuga, via Murmansk. Em 872 dias de terror, houve 632 mil mortes ; consequências da fome, da hipotermia causada pelo rigoroso inverno (com temperatura de até -30;C), doenças, ações inimigas e até mesmo o canibalismo. Em fevereiro de 1942, a União Soviética chegou a contabilizar 20 mil baixas por dia. Na guerra psicológica, os alemães distribuíam panfletos por Leningrado batizando o local de ;Cidade dos Mortos;.

Nesse cenário, o Dínamo de Leningrado, atual Dínamo de São Petersburgo, e o Nevsky Zavod, um dos precursores do Zenit São Petersburgo, disputaram o Jogo do Bloqueio ou Blockade Match. O resultado da partida, que teve apenas 30 minutos, pouco importa, mas é bom registrar: goleada do Dínamo por 6 x 0. O Campeonato Soviético estava suspenso até o cessar-fogo. Até então, o último jogo, em Leningrado, havia sido disputado em 24 de junho de 1941.

O Correio foi até o bairro em que um monumento do artista plástico Salavat Shcherbakov, erguido em 2012, homenageia a partida histórica. Bem ao lado, o campo do Dínamo, palco do jogo, está preservadíssimo. Em volta, foram erguidos edifícios habitacionais. Há uma bela escultura de dois jogadores disputando a bola, uma fotografia do confronto e os maiores símbolos do dia em que a bola parou a guerra: um capacete, farda e as armas em cima de um banquinho, a ficha técnica dos dois times e o nome do árbitro do jogo, registrados em cirílico.

Foi difícil formar os times. O elenco do Dínamo de Leningrado havia sido convocado para servir o exército soviético. Os jogadores do time adversário trabalhavam na Leningradsky Metallichesky Zavod ; fábrica metalúrgica da atual São Petersburgo.









Dona Nikutichna
Durante a presença da reportagem na praça, o russo Daniel Vakhrameev, de 34 anos, parou para conversar com o Correio. Olhou para o monumento, tirou algumas fotografias, apontou e surpreendeu: ;A minha avó viveu o bloqueio a Leningrado. Ela tinha 12 anos no tempo da Guerra Patriótica. Ela sempre fala sobre isso;, emocionou-se, a caminho do trabalho. Dona Ludmila Nikutichna nasceu em 1930. Aos 88 anos, é uma enciclopédia.

;Ela conta que Leningrado foi cercada pelas tropas alemãs. Eles bloquearam o suprimento de alimentos. A população morria de fome e por causa dos bombardeios. Ela era uma das pessoas no estádio. Aquele jogo foi uma espécie de resistência, uma demonstração de que as pessoas não estavam com medo. Embora todos aqui estivessem famintos, houve um raro momento de felicidade;, diz Daniel Daniel Vakhrameev, recontando as histórias da vovó Nikutichna.

Setenta e seis anos depois do jogo que desafiou o Bloqueio de Leningrado, o modesto campo do Dínamo está em paz. O único som audível durante a presença do Correio era o de um pai, com o telefone celular no ouvido, chutando a bola para o filho, que fazia o papel de goleiro.










632 MIL
Número de mortos no cerco a Leningrado




;Minha avó conta que Leningrado foi cercada pelas tropas alemãs. Eles bloquearam o suprimento de alimentos. A população morria de fome e por causa dos bombardeios. Ela era uma das pessoas no estádio. O jogo foi uma resistência, um raro momento de felicidade;
Daniel Vakhrameev, 34 anos, russo, neto de dona Ludmila Nikutichna


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