Essência e fantasia

Essência e fantasia

Paris hospedou este mês mais uma edição da semana de alta-costura. Os visuais mirabolantes e muitas vezes distantes do cotidiano fazem parte do simbolismo das grifes mais cobiçadas do mundo

Por Rachel Sabino*
postado em 15/07/2018 00:00
 (foto: Maison Margiela/Divulgação)
(foto: Maison Margiela/Divulgação)
A crítica de moda americana Vanessa Friedman afirmou, recentemente, que roupas são um dos poucos assuntos universais: todo mundo precisa pensar sobre comida, onde morar e o que vestir. ;Até nudistas têm que pensar no que vestem ; eles apenas rejeitam a ideia de usar alguma coisa.; Quando elas aparecem nas passarelas, as roupas também são vulneráveis às críticas de qualquer um. Afinal, com a moda democratizada, todo mundo tem o direito de opinar.

No início deste mês, Paris recebeu mais uma vez a semana de moda de alta-costura. Para alguns, a haute couture é puro desejo: vestidos deslumbrantes, brilhos e glamour em excesso. Para outros, um nonsense: não há utilitarismo em roupas extremamente engomadas e caras, feitas para apenas algumas dezenas de clientes no mundo inteiro ; encomendadas e sob medida, as peças podem chegar a custar de US$ 10 mil a US$ 100 mil, dependendo da grife.

Contudo, a relevância e o simbolismo da alta-costura se mantêm firmes. Marco Antônio Vieira, professor, pesquisador em artes visuais e curador independente, explica que os desfiles de alta-costura precisam ser vistos, hoje em dia, como um espaço de experimentação.

;Uma vez que a moda se democratizou no século 20, os desfiles de alta-costura mantiveram o privilégio de acesso ao mais alto luxo da artesania, do feito à mão, restrito à elite. A alta-costura é o espaço em que o delírio, o onírico, o fantasioso e o laboratorial se exprimem sem o compromisso com qualquer noção naturalizada de usabilidade.;

A afirmação de Vieira justifica os visuais utópicos e ;não usáveis; vistos na passarela. Exemplos disso são as coleções da Maison Margiela, dirigida por

John Galliano, e da estilista Iris Van Herpen, ambos participantes da última edição da semana de moda parisiense.

Quando se refere à Margiela, Vieira explica que a marca é o modelo mais emblemático da lógica discursiva associada ao alto luxo. ;Uma coleção aparentemente delirante é considerada por muitos ;feia;. Todavia, é repleta de referências complexas, que apontam para um impossível da roupa, que só a moda que abraça a arte pode tocar. O desfile converte-se em um poema;, comenta.


O glamour de John Galliano na maison Margiela é inconsciente e despreocupado. Qualquer noção de estética neste desfile foi quebrada, e o que importa é o conceito por trás das sobreposições excessivas que o estilista propôs.


A maison Schiaparelli é comandada por Bertrand Guyon. Sintonizado à pura fantasia, o estilista evocou flamingos como uma de suas referências para transmitir suntuosos festivais dos anos 1700.


Iris Van Herpen explora a terceira dimensão em suas criações. De acordo com a crítica, ela é a concretização do futuro da moda.

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