Desbravando terras portuguesas

Desbravando terras portuguesas

Brasiliense realiza o sonho de abrir um café em Cascais. E, com a delicadeza do preparo de pratos simples, transforma o lugar em um charmoso bistrô vegano

Por Sibele Negromonte
postado em 15/07/2018 00:00
 (foto: Fotos: Arquivo Pessoal)
(foto: Fotos: Arquivo Pessoal)

Patrícia Storni sempre gostou de frequentar cafés. Sentar-se em uma mesa com uma xícara fumegante e um bom livro, ou simplesmente ficar observando as pessoas, era sinônimo de programa perfeito para a brasiliense. Ela até planejava ter uma casa para chamar de sua, mas não imaginava que o sonho seria realizado do outro lado do Atlântico, mais precisamente em Cascais, charmosa vila portuguesa.

Jornalista de formação, Patrícia trabalhou em várias emissoras de televisão em Brasília. Embarcou para o Velho Mundo, em 2010, para acompanhar o marido, que assumiria um trabalho na área de turismo em Madri. Na aventura, levava os três filhos, a mais nova com apenas 6 anos, e a vontade começar uma vida nova. E, assim, o rumo seguiu por cinco anos na Espanha.

Em 2015, porém, o marido recebeu um novo convite de trabalho. Desta vez, em Portugal. ;Como os meus filhos mais novos estavam no meio do ano letivo, ele seguiu na frente e nós permanecemos em Madri;, relembra Patrícia. Naquele mesmo ano, a família aproveitou o feriado da Semana Santa para visitar o patriarca. ;Estávamos passeando pelas ruelas de Cascais quando vimos uma lojinha para alugar. Na mesma hora, meu marido jogou a ideia: que tal você abrir o seu café aqui?;, conta.

Meio de impulso, Patrícia aceitou a sugestão e, em poucos dias, já estava planejando decoração, cardápio e todos os demais detalhes. Em julho, o Dona Flor abria as portas. ;O lugar era minúsculo, tinha capacidade para oito pessoas sentadas. Como não tinha nenhuma experiência na área, era um lugar com a minha cara, com as coisas eu gostava. Ainda não tinha uma identidade, eu estava buscando um caminho.;

O cardápio, a brasiliense, que não tem formação formal em gastronomia, foi montando na intuição. ;Preparava os bolos que fazia para os meus filhos. Tinha tapioca, pão de queijo, vitaminas, tudo muito simples e leve;, recorda-se. Seis meses depois, a loja do lado vagou e Patrícia viu que estava na hora de expandir o negócio. ;Derrubamos a parede que separava os dois imóveis e ampliamos o conceito do café para bistrô. Passaríamos, então, a servir também refeições.;

Veganismo

A partir daí, as mudanças viriam não só no espaço ampliado, mas também no conceito da casa. Patrícia lembra que tinha uma vizinha lojista que vendia roupas e calçados veganos. ;Nós nos aproximamos e ela me apresentou a esse mundo novo. O marido dela cozinha muito bem e ele começou a me ensinar algumas receitas veganas.;

A brasiliense passou, então, a observar a própria alimentação e, aos poucos, foi mudando a dieta. ;A primeira carne que deixei foi a vermelha. Percebi que ela me fazia mal, me deixava tonta, era como se fosse um veneno. E olha que meu marido é gaúcho. Quando morávamos em Brasília, tínhamos duas churrasqueiras em casa.;

Ao mesmo tempo, Patrícia começou a inserir no cardápio do bistrô alguns pratos veganos. ;Foi tudo muito natural. À medida que minha dieta ia mudando, os pratos do bistrô também eram alterados.; Até que o Dona Flor se tornou um café & bistrô vegano. A jornalista passou a estudar cada vez mais sobre o veganismo e a buscar receitas e referências em viagens que fazia. ;O maior desafio, para mim, era encontrar substitutos para o ovo, a manteiga e a farinha. Foram muitos experimentos, muitos erros e acertos.;

Patrícia se autointitula ovolactovegetariana. Mas, na casa dela, nada é radical. O marido e os filhos mais velhos, de 25 e 18 anos, continuam a consumir carne. ;A caçula ainda não se decidiu. Passa um período sem comer carne, depois volta. A única regra aqui é que ninguém critica a escolha do outro.;

O casal vizinho que introduziu a jornalista no universo do veganismo se mudou de Cascais para Lisboa, mas a amizade continuou ; e até se fortificou. Isso porque, na capital portuguesa, eles abriram um espaço vegano e convidaram o Dona Flor para fazer parte. Em maio do ano passado, o bistrô abria as portas também no Eco Vegan Concept Store, no tradicional bairro do Chiado. ;Lá, há a uma mercearia, uma loja de vestuário e o café. A minha irmã veio de Brasília para assumir a nova casa.;

Hoje, no Dona Flor de Cascais, Patrícia fica responsável pelo preparo dos pratos salgados, enquanto uma outra cozinheira assume os doces. Intimista, o bistrô conta com um salão e uma cozinha integrada e aberta. ;A nossa comida é baseada nos vegetais. A variedade de sabores é obtida com os temperos e os diferentes modos de preparar os alimentos. Usamos legumes, frutas, grãos-de-bico, cogumelos... Eu imagino algo e vou atrás até chegar a algo saudável, sem perder o sabor.;

Um exemplo é a receita que Patrícia compartilha com os leitores. O falafel assado de lentilha, ela buscou inspiração em uma viagem recente. Já a do purê de banana veio do Brasil mesmo. Outra característica das criações da brasiliense é o colorido dos pratos. ;Frequentei um ateliê de pintura em Madri. Quando falei ao meu professor que ia abrir um restaurante e estava insegura, ele logo me encorajou: se você sabe pintar, sabe cozinhar.;

Serviço

Dona Flor Cascais
Rua do Poço Novo, 180
Aberto de segunda a sábado, das 12h às 18h

Dona Flor Lisboa
Rua das Chagas, 33
Aberto de segunda a sábado, das 10h às 19h
Instagram: @donaflorcafe


Falafel assado de lentilha com purê de banana-prata com leite de coco e gengibre
(12 unidades)

O falafel
Ingredientes
  • 1 xícara de lentilha cozida
  • 1/2 cenoura crua ralada
  • 1 cebola picada
  • 1 dente de alho picado
  • Azeite
  • 1 colher de sopa de salsinha picada
  • 2 colheres de sopa de molho de tomate
  • 4 colheres de sopa de farinha de aveia ou aveia em flocos finos
  • Sal e noz-moscada (opcional) a gosto.

Modo de preparar
  • Cozinhe a lentilha e escorra a água. Amasse os grãos da lentilha com um garfo ou, se preferir, use o processador. Reserve.
  • Refogue a cebola e o alho. Depois, junte o refogado à lentilha amassada. Adicione o molho de tomate, o sal, a noz-moscada, a cenoura ralada e a salsinha. Misture todos os ingredientes e, aos poucos, adicione a farinha de aveia, até que consiga a textura ideal para modelar as bolinhas, levemente achatadas. Leve ao forno médio preaquecido por cerca de 20 minutos. O resultado deve ser um bolinho dourado por fora e com textura macia e úmida por dentro.

O purê

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