Para além do quadr(ad)inho

Para além do quadr(ad)inho

Brasilienses publicam quadrinhos e zines, organizam coletâneas e revistas, criam selos e promovem festivais

Gabriela Walker Especial para o Correio
postado em 15/07/2018 00:00
 (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)


Produzindo o próprio conteúdo, do começo ao fim, uma geração de quadrinistas nascidos em Brasília tem conquistado leitores na cidade e ganhado projeção para além das fronteiras regionais. É o caso de Lucas Gehre, Gabriela Masson e Tais Koshino, três dos oito organizadores da Feira Dente, que promove e premia destaques nacionais de zines e histórias em quadrinhos.

A ideia da feira veio da necessidade dos produtores de encontrar espaços de expressão e representatividade. Neste ano, na quarta edição do evento, mais de 100 zines e 40 HQs foram inscritos do projeto. ;A gente sentia que faltava algo assim em Brasília. A feira é mais do que um espaço de venda, é um espaço plural, um local de socialização e desenvolvimento para os publicadores;, explica Lucas.

Aos 36 anos, ele conta ser um leitor voraz de quadrinhos desde a infância. A primeira publicação foi em 2002, quando ainda cursava publicidade no Centro Universitário de Brasília (UniCeub). ;Havia um vazio, o zine tinha praticamente morrido;, lembra. ;Eu passei a criar com um processo bem simples. Usava xérox da faculdade, tirava 20 ou 30 cópias no intervalo e distribuía no fim da aula, de graça. Na época, tinha que explicar para quase 100% das pessoas o que era zine;, completa.

Em 2008, Lucas publicou, em parceria com Gabriel Mesquita e Gabriel Góes, a primeira edição da revista Samba, uma antologia de quadrinhos alternativos, que reuniu obras de cerca de 20 artistas. O projeto virou um selo e lançou, além de três edições da revista, uma série de publicações experimentais, entre elas, o primeiro livro de Lucas ; Amarelo, Laranja e Vermelho. ;Com a Samba, a gente começou a trabalhar com quadrinhos de uma forma mais profissional. Foi um marco.;

A revista foi uma pioneira no mercado independente, que começava a se consolidar. Com páginas coloridas e um acabamento mais refinado, a coletânea mostrou para autores e organizadores que ;era possível fazer; e alcançar novos públicos.

Nos últimos 10 anos, as zines ganharam força e o cenário de publicações se expandiu, facilitando a estreia de novos quadrinistas e ampliando o acesso a técnicas de criação. ;Não que agora seja fácil, mas quando começamos, o ambiente era inóspito;, compara.



Festival do livro
Inspiração para uma série de profissionais que seguem o caminho das publicações alternativas, Lucas conheceu Tais Koshino, 25, em 2011, em uma oficina oferecida pelos editores da Samba. ;Foi a primeira vez que tive contato com esse tipo de publicação;, afirma ela.

Do curso nasceu o Selo Piqui, uma pequena editora criada para possibilitar a publicação do material produzido por Tais e pela amiga e sócia, Livia Viganó, nas aulas. Desde 2016, a Piqui ampliou o quadro de autores e, hoje, tem cerca de 20 publicações, escolhidas com base na relação política e afetiva que a dupla mantém com os projetos. Além de editar, elas também são responsáveis por uma loja de impressão que usa risografia ; técnica desenvolvida no Japão nos anos 1980 para viabilizar impressões de baixo custo.

Formada em audiovisual pela Universidade de Brasília (UnB), Tais sempre gostou de ler e contar histórias. Sua relação com livros artesanais vem da época do colégio, quando produzia volumes originais para atividades escolares. ;Fiz o primeiro grau no Indi (Instituto Natural Desenvolvimento Infantil), onde tinha um festival do livro. Lembro que a gente passava cerca de um mês produzindo nossos livrinhos. Então, para mim, sempre foi muito natural contar histórias e colocá-las no papel.;

Desenhos autorais levaram Tais a uma nova profissão e, há cerca de dois anos, ela também trabalha como tatuadora. Imagens com traços simples e quase infantis, assim como as tatuagens feitas a partir delas, serão lançadas, em breve, em um projeto português chamado Booking Available.

Leitora de Hilda Hilst e das portuguesas Amanda Baieto e Paula Puiupo, Tais aprofundou sua relação com quadrinhos após um intercâmbio em Lisboa. ;Em Portugal, tive muito contato com zines, o que também mudou minha percepção. Lá, essa nova versão, que é mais artística, já estava consolidada.;

Nas páginas assinadas por ela, a ;presença da ausência; dos vazios de Brasília se faz sentir de forma indireta, diluída entre questões pessoais, turbulências e debates sobre o feminino.

Força feminina
Questões políticas, especialmente relacionadas ao feminismo, também estão presentes no trabalho da artista plástica Gabriela Masson, 28, mais conhecida como Lovelove6, nome artístico que traz desde a adolescência. Autora dos quadrinhos Garota Siririca, Erótica e mais uma dezena de publicações que tratam de sexo de forma direta, ela usa a narrativa como ferramenta de militância.

;Sou uma mulher feminista e quero contribuir como puder. Acho que consigo articular as ideias nos quadrinhos melhor do que conversando cara a cara, é a minha forma de participar;, avalia. Influenciada por clássicos da literatura feminista, ela defende o estudo do tema para unir teoria e prática. ;Precisamos de embasamento para vencer os conflitos e debates estúpidos que atiram contra nós.;

Em um esforço de autoformação, ela se debruça nas obras de Simone de Beauvoir, passando por Shulamith Firestone, Angela Davis, pela italiana Silvia Federici, pela romancista Jane Austin e por Octavia Butler, primeira autora negra de ficção científica reconhecida mundialmente.

Com uma personalidade sensível, Gabriela se expressa de forma corajosa e firme, sem poupar críticas ao conservadorismo e às dificuldades da profissão e da cidade onde sempre viveu. ;Acho a forma como Brasília é organizada e como as pessoas se relacionam um pouco depressiva. Transformo esse pessimismo em transgressão e na vontade de fazer trabalhos questionadores.;

Formada pela UnB, ela fez as primeiras zines na faculdade, apesar de a produção não fazer parte do currículo do curso. Além dos quadrinhos, também trabalha com poesia e ilustração, participa de mesas e debates sobre estudos de gênero e ministra oficinas. Consciente do importância que seu trabalho tem para a formação de meninas mais jovens, ela busca um caminho mais seguro para mulheres quadrinistas e destaca a necessidade de combater o assédio e a indisposição do mercado convencional em publicar talentos femininos.


Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação