Uma questão de sobrevivência

Uma questão de sobrevivência

Marina Mara é inquieta. Pinta e borda no cenário das artes, mas eleva a voz mesmo é na poesia

Marina Adorno Especial para o Correio
postado em 15/07/2018 00:00
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)


Nascida e criada em Taguatinga, Marina Mara, 39 anos, acredita que o pai foi o responsável por despertar o interesse dela pela escrita. Ele escreve até hoje em máquina de escrever e, segundo ela, tem o dom da escrita. Faz contos sobre uma política fantástica. Já Marina usa as palavras para falar de feminismo, empoderamento e discriminação.

Marina cursou publicidade. Criativa, acreditava que o curso abriria portas. ;Eu pensava em criar slogans, teasers e coisas fabulosas. Na verdade, eu tinha vontade de escrever poesia e não sabia;, admite. Não chegou a exercer a profissão, mas o curso a fez se desenvolver como ;artista independente, mulher, periférica;.

Antes de se entregar ao universo da poesia, Marina trabalhou como funcionária pública na Fundação de Apoio a Pesquisa (FAP) e na Secretaria de Ciência e Tecnologia. ;Foi nesse momento que percebi que, se eu não ;saísse da gaveta;, ia ter um treco. Tive uma depressão fortíssima, estresse, meu cabelo caiu, fiquei doente;, conta.

Foi pesquisar sobre como fazer um projeto cultural. Conseguiu a aprovação para o primeiro livro, Sarau sanitário. Em 2009, largou tudo e foi viver das emoções que sempre estiveram à flor da pele.

O caminho da poesia e de ativismo social vem da sua alma, de lugares que ela não tem total controle ; e nem quer ter. ;Tenho um turbilhão dentro de mim. Tenho que colocar isso a favor do que acredito, da luta, seja o ativismo diário, seja poesia, seja feminismo, seja amor ao próximo.;

Marina conta que transformou as dificuldades da vida em oportunidades para se capacitar e ter condição de se expressar como a poesia dela pedia. ;Meu trabalho engloba fazer meus próprios projetos poéticos e literários, mas eles sempre têm um braço social e de integração.;

O livro mais recente, Profissão poeta ; um guia prático e amoroso sobre viver de poesia, é um passo a passo que ela escreveu baseada em tudo que aprendeu ouvindo ;nãos; ao longo da carreira.

Dentre os autores que admira estão Reynaldo Jardim e Elício Pontes, que já morreram. ;O Reynaldo foi meu mestre, meu amigo e é um dos maiores poetas do Brasil. O Elício é um dos poetas que mais entendia a minha luta.; Devana Babu, de São Sebastião, é um representante da nova geração que ainda não tem livro publicado, mas chamou sua atenção.

Marina Mara não se limita. Além de se dedicar aos poemas e saraus, é ativista cultural, atriz, roteirista, designer gráfica, consultora de projetos poéticos e mestranda em arte e tecnologia pela Universidade de Brasília. Recebeu, no ano passado, o prêmio de melhor atriz coadjuvante no Festival de São Paulo pelo filme Menina de barro. Como boa brasileira, não resiste ao carnaval: em 2017, criou o bloco Rejunta Meu Bulcão.

A poetisa percebe que a maioria do público da poesia vem das periferias. Na opinião dela, a poesia é indissociável do rap e essa é uma cena muito forte nas cidades satélites. ;A poesia é uma arma de transformação social e de expressão muito forte;, garante.



; PoemApp
2017 foi um ano de muita produção para Marina Mara. Além de lançar os livros Blasfêmea e Profissão poeta, ela colocou no ar o aplicativo PoemApp, que repercutiu no Brasil e ficou conhecido como o Waze da poesia. ;Chegando em qualquer lugar do Brasil, pode-se localizar os pontos de poesia;, diz. Foram cadastrados mais de 10 mil pontos: bibliotecas públicas, editoras, feiras literárias, escritores. Por enquanto, só está disponível para Android. O plano é fazer do aplicativo um livro de poemas vivo, no qual os escritores poderão escrever poemas e salvá-los. ;Segue o princípio de caçar Pokémon, mas você vai caçar poema.;



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