"O fundamental é que eu me apaixone"

"O fundamental é que eu me apaixone"

Cristine Gentil Especial para o Correio
postado em 15/07/2018 00:00
 (foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)


Nesta semana, o escritor Lourenço Cazarré, 64 anos, concluiu um artigo de 4 mil palavras sobre Joaquim da Costa Fonseca Filho, o homem que construiu dois aviões em Pelotas, nos anos 1940. ;Com um deles, foi ao Rio de Janeiro pedir licença para instalar uma fábrica de aviões, licença que lhe foi negada em condições estranhíssimas;, explica o próprio Cazarré. Chama-se O aviador que virou canção, por conta de uma bela balada de Vitor Ramil, que resgatou a história.

O trabalho mais recente faz parte de uma série de reportagens extensas sobre pessoas relevantes de Pelotas, cidade natal de Cazarré. Como jornalista, além de se dedicar a este projeto, Cazarré escreve também resenhas sobre livros para o Correio Braziliense e o jornal literário Rascunho.

Foi exatamente pelo jornalismo que Lourenço Cazarré veio para Brasília em 1975, em busca de um mercado de trabalho maior. Mas Pelotas, no Rio Grande do Sul, nunca deixou de estar próxima. As duas cidades, em algum momento, são parte de sua carreira jornalística e também da obra literária de Cazarré, que se iniciou em 1981, com Agosto, sexta-feira, treze.

Autor de dezenas livros, Cazarré ganhou mais de 20 prêmios literários, muitos deles importantíssimos. Com Nadando contra a morte, recebeu o Prêmio Jabuti em 1998. Contada por narradores diferentes, a história de uma menina de 14 anos que se joga da Ponte do Bragueto com um bebê, não é a única a abordar o universo infanto-juvenil.

Boa parte dos livros de Cazarré são direcionados a esse público. Alguns tratam de temas mais pesados; outros resvalam para o humor, característica marcante na obra do autor. ;Na maioria, meus livros são de humor. Nesses, me divirto muito ao escrever os diálogos. Mas alguns de meus livros para jovens tratam de temas pesados, como gravidez na adolescência ou violência;, conta Cazarré, que conversou um pouco com o Correio sobre seu processo de escrita e projetos.




>> entrevista Lourenço Cazarré

A literatura vive contigo desde a infância ou foi uma descoberta posterior?
Fui um leitor fanático entre os 10 e os 14 anos, quando comecei a trabalhar como contínuo em um banco e fui estudar à noite. Fiquei sem tempo livre para ler. Comecei a escrever depois de formado. Iniciei pelo conto. Depois de dois ou três anos, tentei uma novela, Agosto, sexta-feira, treze, meu primeiro livro.

Como é o seu processo de escrita?
As ideias para contos ou novelas me vêm de repente. Vendo um filme, lendo um livro, assistindo a uma cena. Hoje em dia, minha preocupação seguinte à escolha do tema (seja ele acabado, seja apenas um esboço) é achar a voz do narrador. Quem vai narrar a história? Nunca sou eu. Será um velho ou um menino, uma mulher culta ou uma mocinha simplória. O fundamental é que eu me apaixone por aquela história. Aí ela avança. Às vezes, rapidamente, mas, em geral, bem devagar. Muitos dos meus livros foram concluídos em sete, 10, 15 anos. Dedico hoje 10 vezes mais tempo a revisões exaustivas do que nos primeiros livros. Considero um livro pronto só depois de mais de 20 revisões.

De que forma Brasília e Pelotas te inspiram?
Em muitos livros, não deixo clara a cidade que é o cenário daquela história. Mas os livros em que Brasília é claramente o palco dos acontecimentos são: Nadando contra a morte (Jabuti, 1999); Isso não é um filme americano; A cidade dos ratos: uma ópera roque, e Devezenquandário de Leila Rosa Canguçu.

Boa parte de seus livros são para o público infanto-juvenil. Como é falar para esses meninos?
O autor de livros para jovens, muitas vezes, chega ao leitor de 10 ou 12 anos, que nunca pegou na mão uma novela de 120 páginas. Um garoto que achar que vai morrer de tédio ao enfrentar aquele monstro. Se, nesse primeiro teste, o garoto encontrar alguma diversão, ele poderá se transformar nessa coisa cada vez mais rara chamada leitor. Minha preocupação, ao escrever para jovens, é recorrer a histórias rocambolescas, com muitas peripécias, frases diretas e claras e descrições e narrações breves. Na maioria, meus livros são de humor. Nesses, me divirto muito ao escrever os diálogos. Mas alguns de meus livros para jovens tratam de temas pesados, como gravidez na adolescência ou violência.

Poderia citar alguns autores ou obras preferidas?
Como acho que a mais relevante qualidade literária é a concisão, citarei apenas novelas: O alienista (Machado de Assis), Vidas secas (Graciliano), Ratos e Homens (Steinbeck), O velho e o mar (Hemingway), Carmen (Merrimée), A morte de Ivan Ilitch (Tolstói), A estepe (Tchecov), A sereia (Lampedusa) e Bartleby, o escriturário (Melville). Entre os autores apenas contistas, fico com Simões Lopes e Borges.

Fale, se possível, um pouco de seu último ou próximo projeto/livro?
Meu livro mais recente, Os filhos do deserto combatem na solidão, foi o ganhador do prêmio CEPE para livros juvenis, em 2016, em disputa com 210 outras novelas juvenis. Nela, eu conto a história de um menino que é capturado por mercadores de escravos no interior da África e trazido ao Brasil no começo do século 19. Eu o escrevi após a leitura de dezenas de livros sobre o tráfico negreiro. O júri do prêmio destacou, além do texto, o fato de que o livro trata de tema nunca antes examinado na nossa literatura.



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