Para todo o mundo ler

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Único ilustrador latino-americano a ganhar o prêmio Hans Christian Andersen, o brasiliense Roger Mello leva o talento brasileiro ao exterior

Gabriela Walker Especial para o Correio
postado em 15/07/2018 00:00
 (foto: Lee Sun Hyun/Divulgação)
(foto: Lee Sun Hyun/Divulgação)


Ilustrador e escritor, Roger Mello, 52 anos, é uma referência para a literatura infanto-juvenil além das fronteiras brasileiras. Nascido em Brasília, ele mantém residência na capital e no Rio de Janeiro, mas leva uma vida quase nômade, viajando com seu trabalho aos cantos mais distantes do planeta.

Único ilustrador latino-americano a ganhar o prêmio Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da literatura juvenil, Roger tem leitores cativos de todas as idades. Recentemente, publicou seu primeiro livro dedicado ao público adulto, W, e registrou um momento sombrio da história brasileira em Clarice, uma ficção que se passa em Brasília, durante os anos da ditadura militar.

Intenso e apaixonado por letras, cores e imagens, Roger é um defensor da educação e do papel da leitura na formação dos jovens. Dono de uma escrita acessível, mas que não menospreza o entendimento dos leitores juvenis, o brasiliense não evita temas ásperos e usa referências regionais para abordar questões comuns a diferentes sociedades. É o que se vê em Clarice, livro que conduz o público a reflexões sobre repressão e conservadorismo de forma lúdica e imaginativa.

;Falar de ditadura é atual e necessário, visto o momento em que vivemos. Escrevi o livro em nove anos. Acho importante termos mais obras de ficção que abordem esse assunto, que conversem com os jovens e mostrem o que aconteceu sem usar uma visão panfletária;, explica.

Clarice é inspirada na irmã do autor, Sandra, mas é composta por diversas referências que ele traz da infância. ;Fui criança durante a ditadura. Então, todos os personagens trazem lembranças minhas, apesar de eu não ser nenhum deles;, conta. Pensado para um leitor jovem, o livro conquistou muitos adultos, que procuram o escritor para contar suas próprias lembranças do período. A obra tem Brasília como pano de fundo e personagem ativa, com interações constantes em quadras e monumentos.

Reconhecimento
Há 33 anos, Roger se mudou para o Rio, onde estudou na Escola Superior de Desenho Industrial (Esdi). Ainda na faculdade, viu seu trabalho cativar dois gigantes brasileiros e teve o privilégio de crescer profissionalmente ao lado de Ziraldo. ;Levei meu portfólio para o Niemeyer e para o Ziraldo e os dois disseram ;pode começar amanhã;. Aí, imagina, tive que escolher entre eles;, conta. ;Como sempre tive uma ligação muito forte com narrativa, optei pelo Ziraldo e até hoje lembro a ele que eu poderia ter trabalhado com o Nieyemer;, diverte-se, acrescentando ter aprendido ;tudo; com o mestre cartunista e escritor.

Durante a faculdade, um professor mudou sua forma de entender as palavras e os elementos visuais. ;Lembro que ele falava: ;Você tem que gostar das letras como gosta das imagens. Palavras e imagens são a mesma coisa;.; Ao longo da carreira, Roger ilustrou mais de uma centena de obras e escreveu mais de 20 títulos.

A capacidade de enxergar além do óbvio e de explorar formas e sensações conquistou fãs em todo o mundo. Dono de nove prêmios Jabutis, Roger levou a cidade de Bolonha à festa em 2014, quando foi o vencedor do Hans Christian Andersen. ;Foi incrível, todo mundo comemorou comigo, as pessoas choravam de alegria. Nós vencemos o eurocentrismo.;

O reconhecimento também vem do Oriente. Na Coreia do Sul, país que visitou mais de 15 vezes nos últimos anos, Roger foi ;adotado; pelos idealizadores da ilha de Nami, um parque privado próximo a Seul, dedicado à arte e à natureza, e que patrocina o Prêmio Andersen.

O brasileiro é o atual presidente do júri do Festival Internacional do livro infantil de Nami, chamado Nambook, que promove o trabalho de ilustradores de todo o mundo. Em 2014, ele foi considerado o melhor autor estrangeiro na China, contemplado pelo prêmio Chen Bochui International Children;s Literature Award. O trabalho do autor também teve destaque no Japão, em países europeus, latinos-americanos e africanos.

Ele defende haver um grande interesse internacional na produção do Brasil, não apenas pelo talento dos profissionais, mas também pela cultura e pela forma de expressão dos brasileiros. ;Somos um país muito visual, onde a narrativa e a literatura estão muito presentes;, analisa.

Casado há cinco anos com Volnei Canônica, com quem divide a paixão pela literatura infanto-juvenil, Roger diz que os filhos do casal ;são as crianças do Brasil; e destaca a importância de promover a leitura na infância. ;Os livros devem ser objetos familiares e acessíveis. Se não faz parte do dia a dia, se não tem em casa, o jovem não vai ler nunca;, resume.


;Os livros devem ser objetos familiares e acessíveis. Se não faz parte do dia a dia, se não tem em casa, o jovem não vai ler nunca;
Roger Mello



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