Demétrio Magnoli

Demétrio Magnoli

O que é um Bolsonaro desarmado perto de um Ortega armado?

postado em 28/07/2018 00:00


Haddad, o educador

Calculadamente, Fernando Haddad posiciona-se para assumir a condição de avatar de Lula na campanha presidencial. Em entrevista à Folha de S. Paulo, ele celebrou o líder onipresente (;as pessoas sentem Lula;) e falou da economia como se nada de especialmente relevante tivesse acontecido no governo Dilma. Mas, sobretudo, critica Alckmin por ter o aval do Centrão (;o que tem de mais fisiológico no país, um atraso;), exibe o PT como farol da ;modernidade; e afirma que os empresários ;precisam ser educados para a democracia;. Arrogância é pouco. O potencial avatar envereda pelo caminho do autoritarismo, vestindo-o com uma fantasia iluminista.

O Centrão, certamente fisiológico e atrasado, ofereceu sustentação aos dois mandatos de Lula e, até as vésperas do impeachment, ao governo Dilma. Lula e seu candidato a prefeito paulistano, um certo Haddad, peregrinaram à Canossa de Maluf, trocando a humilhante foto do abraço pelo apoio eleitoral. Antes de ;educar; os empresários, Haddad precisa educar-nos a todos na arte de apagar a história recente.

;Modernidade; versus ;atraso;. A polaridade inspirou a primeira sociologia brasileira, até que se compreendessem os mecanismos pelos quais o atraso se moderniza e, por essa via, se reitera. A história do PT ilustra, melhor que tudo, o processo. De um Lula a outro, no trajeto de São Bernardo ao Planalto, o Brasil aprendeu com quantos mensalões se faz uma maioria parlamentar e com quantos petrolões se assina um pacto com as empreiteiras. Haddad precisa reeducar-se a si mesmo fora do pensamento dualista.

O apoio de parcela do empresariado a Bolsonaro provoca a santa indignação de Haddad. Mas qual é a surpresa na informação de que não poucos empresários transitam de um amor louco pelo lulismo para uma arrebatadora paixão pelo bolsonarismo? O mesmo empresário que escolhia vendar seus próprios olhos para capturar as rendas fáceis presenteadas pelo BNDES de Mantega está disposto a conservar sua cegueira política voluntária para coletar as 30 moedas que a farra ultraliberal de Paulo Guedes promete distribuir.

Não sei qual seria o método pedagógico de Haddad para ;educar; os empresários, mas nenhum é mais eficaz do que o utilizado pelo governo Lula, ;o mais responsável de todos os governos da história;, com figuras como Marcelo Odebrecht e Eike Batista. De fato, o ;Estado mínimo; de Bolsonaro e seu guru econômico não combinam com a democracia. Os eleitores bolsonaristas, empresários ou outros, talvez não compreendam isso ; ou, talvez, simplesmente não gostem da democracia.

Mas a ambição de um partido de ;educar; a sociedade expõe sua alma autoritária. Mussolini queria educar os italianos. Fidel Castro almejava educar os cubanos. Pol Pot resolveu educar os cambojanos. Já os partidos democráticos nutrem esperanças mais modestas: como admitem que não são portadores da verdade histórica, e que podem estar errados, desejam apenas persuadir os eleitores.

;Devem ser educados para a democracia.; Haddad usa a palavra ;democracia; para expressar sua repulsa a Bolsonaro. Nisso, tem razão. Mas o que é um Bolsonaro desarmado diante de um Ortega armado?

Nosso ;clown; da extrema direita mata imaginariamente seus adversários, sonhando restaurar a ditadura que perdeu os dentes quando ele não passava de um mero cadete. Já Ortega, a quem o PT oferece o mesmo apoio incondicional que presta a Maduro, mata realmente, dia sim e dia também, sustentando seu poder à base de selvagem repressão.

A jornalista Catia Seabra esqueceu-se de confrontar Haddad com perguntas sobre a Nicarágua ou a Venezuela. Deixou-me curioso. Por que o partido que representa a ;modernidade; e fala em nome da ;democracia; defende fanaticamente os governos Ortega e Maduro? Por que Haddad não se ocupa, antes de tudo, em educar o próprio PT? Quem educa o educador?

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação