Suspeito capturado

Suspeito capturado

Polícia prende suposto assassino da estudante de medicina pernambucana Raynéia Gabrielle e revela que arma de grosso calibre foi usada no crime. Amigo se diz chocado com a notícia. Anúncio ocorreu após chanceler brasileiro criticar investigação

RODRIGO CRAVEIRO
postado em 28/07/2018 00:00
 (foto: Jader Flores/ LA PRENSA)
(foto: Jader Flores/ LA PRENSA)









Poucas horas depois de o chanceler brasileiro, Aloysio Nunes Ferreira, classificar de ;extremamente insuficientes; as informações sobre o assassinato da estudante de medicina pernambucana Raynéia Gabrielle Lima, 30 anos, e questionar a identidade e o calibre da arma utilizada, a Polícia Nacional da Nicarágua anunciou a prisão do suspeito. ;Foi capturado Pierson Gutiérrez Solis, 42 anos de idade, suposto autor dos disparos que privaram da vida a cidadã Raynéia Gabrielle da Costa Lima Rocha, de quem lhe foi apreendida uma arma de fogo, tipo carabina M4. O expediente da investigação policial, o detido e as evidências serão remitidos à ordem das autoridades competentes;, afirma o comunicado. A reportagem apurou que, além de instrutor de taekwondo, Pierson é ex-militar e filho de Elena Solís, gerente administrativa da Petronic, a distribuidora estatal de combustíveis da Nicarágua. Raynéia foi fuzilada por volta das 23h30 de segunda-feira (2h30 de terça-feira, em Brasília), no bairro Lomas de Montserrat, no sudoeste de Manágua.

O Correio conversou com um instrutor de taekwondo que conhece Pierson Gutiérrez há 15 anos. ;Nós compartilhávamos do mesmo professor de artes marciais. Em 2010, este professor morreu e houve uma grande divisão entre os alunos com faixa preta. Eu deixei de praticar por um tempo e, em 2012, voltei a ter aulas de taekwondo. Desde então, Pierson tem sido meu professor e eu o braço direito dele na organização em que estamos afiliados;, comentou, sob condição de anonimato. ;Soube de problemas pessoais e, sobretudo, conjugais pelos quais ele passou. Eu sempre o apoiei, ele era uma grande pessoa. Para mim, tudo isso é um pesadelo;, acrescentou.

O ex-aluno de Pierson se disse ;confuso; e ;impactado;. ;Não sei se ele seria capaz de algo assim. Não sei por que ele faria isso. Quando os distúrbios e protestos começaram na Nicarágua, perdi contato com muitos amigos. A última vez que o vi foi no fim de abril;, disse. O amigo descreve o suspeito como ;uma pessoa muito boa;. ;Às vezes, era um pouco rude, mas acho que pelo âmbito das lutas marciais. No entanto, sempre foi um bom amigo e me apoiou no que eu necessitava.; Um porta-voz do Exército da Nicarágua confirmou ao site 100% Noticias que Pierson serviu na instituição até 5 de agosto de 2009, quando deixou de ter ligação com a vida militar.

Mãe
Por telefone, a funcionária pública aposentada Maria José da Costa, 55 anos, mãe de Raynéia, afirmou ter recebido a notícia sobre a prisão com ceticismo. ;Se não for um ;laranja;, né? A polícia suspeitava de um vigilante particular. Se foi outra pessoa ligada ao governo, o negócio complica para o lado dele lá. A única coisa que eu quero é justiça e que o autor pague bem caro por ter tirado a vida da minha filha;, desabafou ao Correio. ;Minha filha é inocente. Eu só quero justiça.; Moradora de Garanhuns (PE), Maria acredita que o traslado do corpo de Raynéia deve ocorrer somente depois de terça-feira. ;Tive a informação de que a funerária tem a autorização para começar o procedimento de embalsamamento. Ficaram de me avisar quando as autoridades brasileiras forem buscar o corpo na funerária;, comentou. As despesas com o traslado e o funeral serão custeadas pelo governo de Pernambuco.

A prisão de Pierson ocorreu horas depois de o chanceler Aloysio Nunes Ferreira criticar a atuação do governo de Daniel Ortega na elucidação do crime. ;As informações entregues até agora são extremamente insuficientes. A informação fornecida pelo governo da Nicarágua é a de que ;o autor do tiroteio; foi um segurança particular;, declarou à estatal Agência Brasil, em Johanesburgo, à margem da cúpula dos Brics, grupo composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. ;Quem foi? Qual era o calibre da arma? Em que circunstâncias ocorreu? Não houve, até agora, um esclarecimento desse episódio e vamos insistir, porque nos parece um assunto absolutamente inaceitável;, sublinhou o diplomata.

Na quinta-feira, a Universidade Americana (UAM), onde Raynéia cursava o sexto e último ano de medicina, expediu um certificado com o título póstumo de médica e cirurgiã para a brasileira. ;Eu colocarei esse diploma em um quadro. Ele será o meu bem mais precioso. Se eu pudesse, eu o colocaria em um quadro com fios de ouro;, disse a mãe da jovem. ;Para os pais dela, será um testemunho de que sua filha cumpriu com os requisitos acadêmicos e humanos para ser uma grande doutora. A homenagem foi feita pensando nela e em seus companheiros, que sempre a verão como parte de sua geração de médicos;, relatou ao Correio Ernesto Medina, reitor da UAM.


;As informações entregues até agora são extremamente insuficientes. A informação fornecida pelo governo da Nicarágua é de que ;o autor do tiroteio; foi um segurança particular;

;Quem foi? Qual era o calibre da arma? Em que circunstâncias ocorreu? Não houve até agora um esclarecimento desse episódio e vamos insistir, porque nos parece um assunto absolutamente inaceitável;

Aloys o Nunes Ferreira, ministro das Relações Exteriores brasileiro


Carabina de
uso restrito



A Lei Especial para o Controle e a Regulação de Armas de Fogo, Munições, Explosivos e Outros Materiais Relacionados, da Nicarágua, estabelece que o tipo de carabina supostamente utilizado para assassinar Raynéia, de calibre 5.56, tem fins limitados a áreas rurais. Além disso, de acordo com a legislação, o armamento somente pode ser usado de modo seguro, jamais no semiautomático, capaz de produzir rajadas. Segundo o texto, se consideram armas para proteção de objetivos, ;fuzis não automáticos e carabinas desde o calibre .17 até o calibere 7.62mm, e escopetas até o calibre 410, para fins de proteção de objetivos em áreas rurais;.



Eu acho...

;Se foi esse camarada mesmo que atirou na minha filha, ele vai ter de explicar o porquê e quem foi que mandou. Se, por acaso, ele mandou que Raynéia parasse o carro e ela se assustou, deveria ter atirado nos pneus, não disparado na direção dela. Ele fez isso com o propósito de matá-la. Isso não
vai ficar impune, não;


Maria José da Costa, mãe de Raynéia Gabrielle

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