Fluxo de múltiplosgêneros

Fluxo de múltiplosgêneros

postado em 28/07/2018 00:00
 (foto: Cláudio Pedrosa/CB/D.A Press - 26/1/98
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(foto: Cláudio Pedrosa/CB/D.A Press - 26/1/98 )



Já no pórtico de Fluxo-floema, a autora deixava claro seu ponto de partida, que na verdade era o ponto de chegada de suas reflexões críticas. Se a escrita ficcional tinha sido revolucionada pelo fluxo de consciência, era preciso dar um passo à frente, assegurar uma linha evolutiva. O referente imediato já não podia mais ser Joyce ou Virginia Woolf, e sim o Beckett da trilogia Molloy, Malone Dies e The Unnamable. Devemos considerar a epígrafe de Fluxo-floema, extraída de Molloy, como uma síntese perfeita do projeto de escrita a que chega Hilda. Vale reler: Havia em suma três, não, quatro Molloys. O das minhas entranhas, a caricatura que eu fazia desse, o de Gaber e o que , em carne e osso, em algum lugar esperava por mim. (...) Havia outros evidentemente. Mas fiquemos por aqui, se não se importam, no nosso circulozinha de iniciados.

É no terreno beckettiano da pulverização do sujeito narrador, incorporando o tom sarcástico da caricatura de si, que se situa toda a obra ficcional de Hilda Hilst. Claro, a referência dos textos ditos pornográficos dos anos 90 é outra. Sua irrupção na obra é coerente com os traços de obscenidade que se foram afirmando, insistentes, na prosa hilstiana, depois do inaugural Fluxo-floema. A este seguiu-se a publicação, em 1977, de Ficções, uma coletânea que agregava ao primeiro livro os textos de Pequenos discursos. E um grande e uma narrativa de 1973, Quadós, depois rebatizada como Kadosh, por determinação da própria Hilda, como nos relata Alcir Pécora, coordenador da publicação da obra completa pela Globo. Temos agora nova editora, a obra completa em prosa reunida num único volume pela Cia das Letras, depois de ter lançado a poesia completa em 2017. São passos da consagração póstuma.

Depois de Ficções, a desagregação do narrar, de extração beckettiana, vai adquirindo pelas mãos de Hilda o que se pode talvez denominar uma ;erótica do relaxo; que, no limite, se transmuda no ;escracho; de sua face pornô, como assinalou Eliane Robert Moraes. Um texto como A obscena Sra. D fornece possível chave para essa conversão. A desagregação do sujeito (o eu) é na verdade desagregação do feminino. Mulher: amante, mãe desnaturada, velha repelida. Do relaxo ao escracho, eis os dois lados do trabalho de prosadora de Hilda Hilst na fase dos anos 90. Ao leitor e à leitora, cabe encontrar seus fundamentos filosóficos. (IM)

Ítalo Moriconi é professor de literatura da UERJ. Escreveu perfil de Ana Cristina César e organizou antologia de Torquato Neto.





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